Rodrigo Fonseca
Dois anos depois de servir como trampolim internacional para “Ainda Estou Aqui” (que nos deu o Oscar), o Festival de Veneza volta a acolher as múltiplas destrezas do cinema brasileiro em sua competição oficial, mas numa coprodução com a Itália, com foco na Argentina. “Retorno a Buenos Aires”, novo longa-metragem do chileno (de ascendência italiana) Marco Bechis (“Terra Vermelha”) concorre ao Leão de Ouro na 83ª edição do evento, agendado de 2 a 12 de setembro, com a atriz e diretora Maggie Gyllenhaal como presidente do júri. Estrelado pelo italiano Adriano Giannini, o filme reúne Paula Cohen e Eduardo Hoy, do Brasil, em papéis de destaque, além das atrizes argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss. Com três meses de pré-produção e quatro semanas de filmagens em território nacional, realizadas em Porto Alegre, fora outras três semanas em Turim, a fita consolida a atuação internacional da produtora brasiliense 34 Filmes e a parceria com o cineasta paulista André Ristum (de “Meu País”), que já colaborou em diversos projetos anteriores.
Em “Retorno a Buenos Aires”, o personagem central, Mariano Guerra (Giannini), é chamado a retornar à Argentina para testemunhar no julgamento dos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura militar — a mesma que, em 1978, organizou a Copa do Mundo de Futebol enquanto o país vivia sob uma repressão clandestina. A história dialoga diretamente com a trajetória do próprio Bechis, que foi preso político durante a ditadura argentina, vivência que marca sua filmografia e confere ao longa um caráter testemunhal. O encerramento das filmagens coincidiu simbolicamente com os 50 anos do início da ditadura na Argentina, em março de 1976, reforçando a atualidade da reflexão proposta pelo filme sobre memória, justiça e sobrevivência. A produção teve participação destacada de técnicos brasileiros, entre os quais a direção de arte de Eduardo Antunes, a produção de elenco de Alessandra Tosi, o figurino de Coca Serpa, a produção executiva de Ristum e Patrick de Jongh e o trabalho do line producer Beto Rodrigues.
No início desta semana, o Brasil já havia emplacado um outro longa em Veneza, mas na seção Semana da Crítica: “London”, escrito e dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli. Seu roteiro fala de um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches. Na mostra Spotlight, a RT Features, de Rodrigo Teixeira, aparece com "Furies", de Rami Kodeih, rodado no Líbano.
Para além de suas iguarias sul-americanas, o Lido receberá novos trabalhos de mestres da imagem como Werner Herzog, Hirokazu Koreeda, e Lee Chang-dong, numa seleção em que predominam produções independentes, ainda que estreladas por grandes nomes de Hollywood. A abertura da disputa pelo felino dourado deste ano ficará a cargo de “Ink”, de Danny Boyle. Ambientado em 1969, o longa acompanha a ascensão do magnata Rupert Murdoch, interpretado por Guy Pearce, e a transformação do tabloide “The Sun” num fenômeno editorial. Jack O'Connell, Claire Foy e outros nomes britânicos completam o elenco.
Entre os favoritos desponta “Wild Horse Nine”, de Martin McDonagh, cineasta que retorna a Veneza após lançar no festival “Três Anúncios para um Crime” e “Os Banshees de Inisherin”. A comédia dramática acompanha agentes da CIA enviados à Ilha de Páscoa pouco antes do golpe militar chileno de 1973 e reúne John Malkovich, Sam Rockwell, Steve Buscemi, Tom Waits e Parker Posey. Outro título cercado de expectativa é “Bunker”, de Florian Zeller. Depois de “The Son”, o dramaturgo e cineasta francês dirige Javier Bardem e Penélope Cruz num thriller psicológico sobre um misterioso abrigo subterrâneo construído por ordem de um magnata da tecnologia. Muito se espera do documentarista Lance Oppenheim em sua estreia na ficção com “Primetime”, protagonizado por Robert Pattinson. O vilão de “A Odisseia” vive um jornalista que se embrenha no submundo do crime para expor um predador sexual, num ato de coragem que gerou uma transformação na abordagem da pedofilia na televisão americana.
Um dos mais festejados concorrentes dessa leva é Nanni Moretti, que rompeu laços com Veneza nos anos 1980 e volta agora com apresenta “Succederà Questa Notte”, inspirado livremente em contos do escritor israelense Eshkol Nevo. Seu elenco tem Louis Garrel e Jasmine Trinca.
Fora da competição, Veneza mantém uma programação repleta de atrações. Entre as ficções, destacam-se “Father Joe”, thriller de ação escrito por Luc Besson e estrelado por Kiefer Sutherland e Al Pacino; “The Basics of Philosophy”, novo drama existencial de Paul Schrader; “Place to Be”, de Kornél Mundruczó, com Ellen Burstyn, Taika Waititi e Pamela Anderson; “Arrested Memory”, comédia policial do japonês Sabu; além de “No Paradise if You Are Killed by a Woman”, do curdo Halkawat Mustafa. O encerramento da mostra ficará com “Dio Ride”, de Giovanni Veronesi.
Além de Maggie Gyllenhaal, o time de juradas e jurados contará com o diretor Johnnie To, a cineasta Kaouther Ben Hania, a afegã Shahrbanoo Sadat, o francês Xavier Giannoli, o compositor Daniel Blumberg e o pesquisador Francesco Casetti. George Clooney e Ellen Burstyn receberão o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira.
Concorrentes ao Leão de Ouro
•“Ink” — Danny Boyle (filme de abertura)
•“Company” — Casey Affleck
•“A Bit of Light” — Ali Asgari
•“Retorno a Buenos Aires” — Marco Bechis
•“A Good Little Soldier” — Stéphane Brizé
•“Il Fuoco Che Ti Porti Dentro” — Edoardo De Angelis
•“Woman Unknown” — May el-Toukhy
•“Bucking Fastard” — Werner Herzog
•“15/18 (A Place to Heal)” — Cédric Kahn
•“DAU” — Ilya Khrzhanovsky
•“Look Back” — Hirokazu Kore-eda
•“Possible Love” — Lee Chang-dong
•“Wild Horse Nine” — Martin McDonagh
•“Succederà Questa Notte” — Nanni Moretti
•“Primetime” — Lance Oppenheim
•“The Echo Chamber” — Andrea Pallaoro
•“A Bit Before Midnight” — Nicolas Pariser
•“L'Estranea” — Paolo Strippoli
•“Mr. Nelson, Did You Kill People?” — Shinya Tsukamoto
•“Bunker” — Florian Zeller
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