Correio da Manhã
Cinema

FID: Rio recebe Lucrecia Martel e abre programação de cinema de não ficção

Festival une música, debate e, sobretudo, documentários numa celebração de vozes autorais que passa por Godard, cruza expressões nacionais e traz a realizadora argentina à cidade

FID: Rio recebe Lucrecia Martel e abre programação de cinema de não ficção
Nascida há 59 anos na província de Salta, a diretora dará masterclass no Rio Crédito: Divulgação

Passados quase onze anos das filmagens do anti-épico "Zama" (2017), numa ponte cultural Argentina x Brasil, qualquer evento que se proponha trazer a cineasta Lucrecia Martel ao Brasil - sobretudo uma Lucrecia ligada às narrativas documentais - merece ser recebido com o tapete vermelho da cinefilia carioca. É esse o caso FID - Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro.

Sua estrutura, de cara, impressiona às pampas: sua grade, aberta de 24 de julho a 2 de agosto, ocupará sete espaços culturais da cidade com uma programação de 56 produções ibero-americanas, além de espetáculos, shows, instalações, atividades formativas... e a realizadora de "La Ciénaga - O Pântano" (2001).

Ela é esperada no dia 28 de julho, às 20h30, no Estação Claro Rio. Vem exibir "Nuestra Tierra", ensaio sobre crises fundiárias que estreou no Festival de Veneza de 2025. Na sequência, bate um papo com a plateia sob a medição do curador e crítico Eduardo Valente. Além da sessão, ela ministra uma masterclass gratuita no Teatro Sesc Ginástico, no dia 29.

Embora seus maiores sucessos, em longas ("La Mujer Sin Cabeza") e curtas ("A Camareira"), depositem-se no hemisfério da ficção, a cineasta mais famosa da província de Salta - onde nasceu há 59 anos, numa Argentina que iria sofrer muito com a ditadura - tem um histórico de peso com o documentário. É o caso do curta "Terminal Norte", lançada na Berlinale e em cartaz na plataforma MUBI. Originalmente chamado de "Chocobar", "Nuestra Tierra" é um ensaio que se baliza mais pelo registro documental do que pela fabulação. Fala de um líder indígena, Javier Chocobar, que foi vítima das disputas fundiárias em seu país. Em sua gênese, na pandemia, a produção teve um apoio de um edital do Festival de Locarno, na Suíça, de 2020.

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'Nuestra Tierra', um retrato necessário sobre crises fundiárias | Foto: Divulgação

Ele segue o cogito estético sonoro padrão da realizadora, que se mantém ativa com pequenos (grandes) exercícios experimentais como "Cornucopia", rodado a dois com a diretora Isold Uggadottir, a partir de um show da islandesa Björk.

Criado a partir do encontro entre o FID - Festival Internacional de Cinema Documental de Buenos Aires e a cena audiovisual carioca, a maratona que começa nesta sexta no Rio espalha suas atividades pela Cinemateca do MAM, Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), Estação Claro Rio, Arte Sesc, Banca do André, Teatro Sesc Ginástico e Sesc Copacabana.

A Mostra de Filmes está organizada em seis recortes temáticos, quatro deles competitivos, reunindo longas e curtas que exploram novas formas de narrar a realidade.

Na competição internacional, a Sessão Hemisfério reúne 11 longas inéditos no Brasil, entre eles "Plata o mierda", de Toia Bonino e Marcos Joubert, sobre a vida numa penitenciária argentina, e "Cuerpo criminal", de Martín Boulocq, que discute colonialismo e relações de poder a partir dos bastidores de uma filmagem na Bolívia.

A produção brasileira ocupa posição central na Sessão Trópico Longas. Entre os destaques está "Anistia 79", de Anita Leandro, vencedor da Mostra de Tiradentes, que recupera imagens inéditas da campanha internacional dos exilados políticos brasileiros. Chama atenção também "Na Passagem do Trópico", de Francisco Miguez, reflexão sobre ocupação urbana e conflitos fundiários. Nos curtas, aparecem títulos como "Entrevista com Fantasmas", de Lincoln Péricles; "Memória Movimento", de Victor Aleixo Casella, e "Helena! Cinema", delicada homenagem de Cavi Borges e Christian Caselli à atriz e diretora baiana Helena Ignez.

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'Helena! Cinema' celebra a força e o legado da atriz e diretora | Foto: Divulgação

Fora da competição, o Foco no Cinema Argentino apresenta obras fundamentais como "Los Rubios", "El Silencio Es Un Cuerpo Que Cae", "Silvia" e "El Príncipe De Nanawa", reafirmando a força de nuestros hermanos em tempos de Javier Milei.

O festival também promove o laboratório LINK:RIO: WIP para projetos brasileiros em fase de montagem, o laboratório "#LINK - Etnografia Doméstica", conduzido por Vivi Tellas, e a mostra de instalações "Imagens Que Não Se Apagam", dedicada às relações entre memória, política e imagem, com obras de Coraci Ruiz, Julio Matos, Ulises De la Orden e uma instalação inspirada na reflexão cinematográfica de Jean-Luc Godard (1930-2022).

O "Foco Godard", no CCJF, junta quatro curtas-metragens do cineasta franco-suíço estão reunidos em forma de ensaio audiovisual, com curadoria de Walter Tiepelmann. A instalação audiovisual propõe uma reflexão sobre a guerra, a violência e a ética da representação por meio da obra dos seguintes filmes: "Pour Thomas Wainggai" (Por Thomas Wainggai), "Je vous salue, Sarajevo" (Eu vos saúdo, Sarajevo), "Prière pour les Refuzniks" (Prece para os Refusniks) e "Film annonce du film qui n'existera jamais: Drôles de guerres" (Trailer do filme que nunca existirá: "Guerras de brincadeira").

A música também integra a programação, com apresentação da premiada cantora de tango Julieta Laso, acompanhada do violonista Leandro Ángeli. A premiação da Mostra Competitiva acontece em 1º de agosto, na Cinemateca do MAM.