Correio da Manhã
Cinema

Cinema pra tocar na rádio e no Spotify

A frequência alta (e autoral) de documentários musicais do Brasil segue viva na programação da CineOP, que escala produção sobre Hyldon em sua reta final, nas Gerais

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Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Falta pouquinho para "Michael", de Antoine Fuqua, cruzar a marca do bilhão e se tornar um dos mais bem-sucedidos exercícios de Hollywood na seara da biopic musical, a mesma que fez de "Bohemian Rhapsody" (2018) e "Rocketeman" (2019) minas de ouro e ímãs de Oscar. Ao mesmo tempo em que a ficção enche os cofres com a saga do jovem Michael Jackson (1958-2009), os cinemas latinos festejam a excelência de produções musicais documentais, que usam as ferramentas do arquivo e da entrevista para dissecar ídolos da canção. Este ano, tem longas sobre Elza Soares (de Eryk Rocha) e Gonzaguinha (de Susanna Lira) no forno, de olho em mostras do segundo semestre.

Já a CineOP, em Ouro Preto, vem se refestelando, desde sexta (quando resgatou em telona "Carmen Miranda: Banana Is Mus Business"), com a fina flor desse filão. Esta noite, tímpanos hão de amolecer com "As Dores do Mundo - Hyldon", do bamba Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues.

Um par de versos famosos do protagonista desse .doc, "Não estou disposto/ a esquecer seu rosto", sintetiza a operação de seus realizadores. Aos 75 anos, Hyldon de Souza Silva é um produtor, guitarrista, baixista, compositor e cantor brasileiro do gênero soul. Tendo trabalhado com música desde os 14 anos, foi instrumentista no início de carreira, tendo passado a compositor e produtor conforme foi amadurecendo. Seu primeiro álbum: "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda" faz 50 anos com status de clássico da música brasileira. Uma série de canções compostas por ele, inspiradas em histórias reais, revelam o soul romântico de um dos maiores compositores da nossa música popular. A formação e o trajeto dele... de menino no sertão da Bahia ao topo das paradas de sucesso no Brasil... inspira um filmaço.

"O Hyldon compõe a Santíssima Trindade da soul music brasileira, junto com Cassiano e Tim Maia. É uma lenda viva, um artista que é mais reconhecido por sua obra do que pelas suas aparições públicas. É um artista, uma pessoa muito reservada, mas que tem uma obra extremamente popular que qualquer pessoa na rua sabe cantar", dimensiona Emilio. "O filme que o Felipe Rodrigues e eu fizemos é uma viagem no tempo, numa imersão no Brasil de 1975 a partir da ótica desse grande poeta".

Nesta segunda, vai ter "Ataulfo Alves", documentário em P&B de 1973, feito por Afrânio Vital na CineOP. Nele, o som da cuíca precede e se mistura à fala do sambista, entre imagens da arquitetura da cidade de Miraí, interior de Minas Gerais.

Além de "As Dores do Mundo - Hyldon" e "Ataulfo Alves", a CineOP abriu espaço para Baby Consuelo por meio de "Apopcalipse Segundo Baby", de Rafael Saar, que está na seleção competitiva, com boas chances de ser premiado. Noutras latitudes, Lírio Ferreira deixou seu "Vivo 76" ecoar por Ouro Preto. O longa é uma viagem lisérgica e documental pelo universo de Alceu, celebrando os cinquenta anos de um disco de 1976 que virou um marco definitivo da psicodelia brasileira e da resistência cultural. Com arquivos raros e encontros contemporâneos, Lírio resgata a "sopa seminal" pernambucana que uniu ritmos tradicionais e a vanguarda do deserto, revelando Alceu como figura central do underground nordestino.

No domingo, duas sonoridades distintas fizeram a CineOP tremer. De um lado, veio "Da Lata - 30 Anos", no qual Paulo Severo registra as maravilhas canoras de Fernanda Abreu, apoiado numa engenharia de montagem memorável. Do outro lado, pipocou "Universo Circular", de Dácio Pinheiro, sobre a pioneira da música eletrônica no Brasil, Jocy de Oliveira. Em 1961, ela realizou a primeira performance do filão no país.

Nesta terça, a CineOP anuncia quem vence a sua competição oficial, mas, antes, projeta "Anistia 79", de Anita Leandro. Ao vencer a 29ª Mostra de Tiradentes (MG), em janeiro, conquistando a láurea do júri popular e o Prêmio Carlos Reichenbach, a realizadora e educadora fez jus - agora, poeticamente -, à sua matrícula no ensino federal, pois deu ao cinema brasileiro uma aula... de democracia. Professora da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, a realizadora mineira abriu uma caixa de Pandora que estava fechada há quase 50 anos, com sentimentos, vivências, engasgos e catarses de quem precisou sair do Brasil sob a pressão do regime fardado (de 1964 a 1985). Seu filme encontra registros raríssimos da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979. Foi o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Ali há fatos essenciais para se entender a manutenção do aparato repressivo militar e a impunidade dos torturadores.