Grande aposta do cinema argentino no Festival de San Sebastián de 2025, onde disputou a Concha de Ouro, "Las Corrientes" deixou o prestigiado evento espanhol com a láurea RTVE-Otra Mirada, conquistada pela força dos enquadramentos da direção de fotografia de Gabriel Sandru, numa sinergia plena com a dinâmica autoral da realizadora Milagros Mumenthaler.
Numa toada entre o drama e o thriller psicológico, onde medo e tristeza se amalgamam numa sensação de vazio existencial, a trama acompanha as angústias da estilista Lina, interpretada por Isabel Aimé González Sola. Aos 34 anos, no auge da carreira, na Suíça, ela é tomada por um gesto impulsivo após receber um prêmio. De volta a Buenos Aires, Lina guarda silêncio sobre o incidente, mas algo mudou internamente: uma sensação inquietante, uma culpa velada, uma percepção da vida que agora parece vista de longe. A partir daí, Lina confronta fragmentos de um passado que julgava superado, enquanto sua rotina, suas relações e sua própria identidade tensionam diante de um mal-estar crescente.
Milagros oscila com destreza entre o realismo e o fantástico a fim de registrar a fragmentação emocional da protagonista, num cotidiano dividido entre exigências sociais e seus desejos mais íntimos. Conhecida por "Abrir Portas e Janelas" (2011), a diretora dedicou oito anos de sua vida à confecção do argumento e do roteiro. Inspirou-se no cinema de Hitchcock para criar uma atmosfera de estranheza e tensão sem recorrer aos códigos tradicionais do suspense. (R. F.)
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