Correio da Manhã
Cinema

Segreto, mistura cinéfila do Brasil com a Itália

Festa do Cinema Italiano se une à mostra CineOP para badalar longa sobre pioneiros da arte de filmar em solo nacional, abrindo espaço em circuito para Isabel Coixet e Mario Martone

Segreto, mistura cinéfila do Brasil com a Itália
'I Fratelli Segreto' celebra a gênese ítalo-brasileira de nosso cinema, com sessões na 8 e Meio Festa e na CineOP Crédito: Divulgação

 É uma vocação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano badalar vozes autorais da contemporaneidade europeia, como Margherita Ferri e Damiano Michieletto, representados em sua grade por "O Menino da Calça Rosa" e "Primavera". Ao mesmo tempo é de sua natureza olhar para o ontem da pátria de Fellini e de Antonini e entender como ela se almiscarou com outras culturas, entre elas a brasileira. Daí a sinergia entre o festival da Itália e a 21ª CineOP, para promover "Os Irmãos Segreto", documentário ítalo-brasileiro dirigido por Federico Ferrone e Michele Manzolini.

Sua narrativa fala de três representantes de um clã do Velho Mundo - Pasquale, Gaetano e Alfonso Segreto - vindos de uma Itália empobrecida ajudaram a lançar as bases da produção audiovisual no país. Em paralelo ao evento mineiro, o longa pode ser visto na programação da Festa, até 1º de julho.

Inédito comercialmente no Brasil, o longa acompanha a trajetória de Pasquale, Gaetano e Alfonso na produção cinematográfica brasileira, no fim do século XIX e no início dos 1900. A versão exibida na Festa conta com narração de Paulo Betti.

Convidado especial desta edição do evento, Ferrone desembarca no Brasil para uma série de debates e encontros com o público. A agenda começou em Brasília, na quarta, em uma sessão especial promovida pela Embaixada da Itália. Em São Paulo, o cineasta apresenta o filme no Espaço Petrobras de Cinema e participa do encontro Trabalhar a Memória - A Descoberta do Cinema de Arquivo, no Istituto Italiano di Cultura. No dia 28, vem a CineOP, em Ouro Preto, onde o documentário terá sessão especial seguida de debate. A passagem pelo Rio de Janeiro acontece em 30 de junho, no Istituto Italiano di Cultura, em exibição seguida de conversa com o pesquisador William Martins. O encerramento da visita será no Estação Claro Rio, em 1º de julho, com nova sessão comentada.

Exibido na competição do Festival de Roma de 2025, "Os Irmãos Segreto" nasceu de uma parceria entre as produtoras Bang Filmes, do Brasil, e Stayblack, da Itália, em colaboração com a Cinemateca do MAM Rio. O projeto reúne extensa pesquisa histórica conduzida por Kiti Soares, Patrícia Pamplona e Hernani Heffner, conservador-chefe da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, além da fotografia de Luís Abramo.

"Os irmãos Segreto foram emigrantes de uma Itália muito pobre e se tornaram pioneiros do cinema brasileiro. Abriram salas de exibição e realizaram filmagens numa cidade complexa e vibrante como o Rio de Janeiro daquele período. É uma aventura fascinante, mas também cheia de zonas obscuras", explica Ferrone, no material promocional da Festa.

Formado em História do Cinema, o diretor construiu sua carreira ao lado de Michele Manzolini investigando o passado por meio de imagens de arquivo. A dupla ganhou reconhecimento internacional com trabalhos como Il Treno va a Mosca e Il Varco, exibido no Festival de Veneza em 2019. Agora, volta a unir pesquisa e criação para reconstruir episódios desaparecidos da memória audiovisual brasileira.

Macaque in the trees
'Fuori' concorreu à Palma de Ouro em 2025 | Foto: Mario Spada Kim/Divulgação

Entre os títulos de maior relevo da 8 ½ Festa de 2026, "Fuori" é um dos que chega melhor cacifados pela crítica. Esse drama estrelado por Valeria Golino concorreu à Palma de Ouro celebrando o filão dos filmes de prisão. É um trabalho maduro do diretor Mario Martone, que revisita feitos reais da escritora Goliarda Sapienza, detida em decorrência de um delito nunca devidamente comprovado. Após sua libertação, a amizade entre ela e as outras detentas continuou, o que causou desentendimentos nos círculos intelectuais em que ela frequentava. Há projeção dele no sábado, às 16h25, no Estação Claro Gávea, e no domingo, às 16h20, no Estação Claro Rio.

Outra pedida obrigatória deste fim de semana é "Três Vezes Adeus" ("Tre Ciotole"), de Isabel Coixet. Artesã autoral consagrada por retratar o quanto o amor sabe ser implacável, a diretora de "Fatal" (2008) volta à ribalta com uma trama em italiano. Nela, tudo parte do que parece ser uma briga trivial entre Marta (Alba Rohrwacher) e Antonio (Elio Germano). O casal termina a relação, na fricção do ressentimento. A reação de Marta é se fechar em si mesma e ficar fora do mundo. A única coisa que ela não consegue ignorar é sua perda brusca de apetite. Rol ver essa belezura nesta sexta, às 20h40, no Estação Claro Rio, e no domingo, às 16h, no Estação Claro Gávea.

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'Três Vezes Adeus' carrega a marca autoral da catalã Isabel Coixet para terras italianas | Foto: Divulgação