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Zona animada

Uma das maiores grifes da animação latina há quase cinco décadas, a Otto Desenhos avança pelo Festival de Annecy, ampliando o prestígio de seu fundador, o cineasta Otto Guerra

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Premiada na Croácia, a animação 'O Filho da Puta' está em concurso numa das mostras competetivas do Festival de Annecy Crédito: Divulgação

 

Definido entre seus pares da animação latina como um "álcooldidata" na arte de filmar, Otto Guerra teve a sobriedade de chegar aos 70 anos (no dia 5 de março) sem deixar os destilados enferrujarem os neurônios que acredita ainda ser capaz de acessar. Tem coisa de que esqueceu (algumas delas por autodefesa), mas segue habilidoso nas manhas de fazer projetos capazes de correr o mundo.

Neste momento, o realizador gaúcho encarado desde a década de 1980 como um dos mais repeitados áses da animação nacional tem um longa-metragem em concurso na mostra competitiva Contrechamp (Contracampo) do Festival de Annecy: "O Filho da Puta". O evento é visto por quem vive de desenho, stop-motion, computação gráfica e técnicas afins como uma espécie de Cannes animada. Bunker de invenção no Rio Grande do Sul, a lendária Otto Desenhos Animados está em concurso lá com a Anaya Produções.

"Nossa produtora vai fazer 48 anos agora, no dia 15 de agosto, e já fizemos uns 600 comerciais para conseguir dinheiro, além de termos produzido cinco longas, com outros três em finalização. Fizemos uns 20 curtas, alguns bem interessantes", lista Otto ao Correio da Manhã.

A direção de "O Filho da Puta" é assinada a oito mãos por Sávio Leite, Érica Maradona, Tania Anaya e ele. Há duas semanas, o filme foi premiado no AnimaFest Zagreb, na Croácia, uma das mais antigas mostras animadas do planeta, que está em sua edição número 54. "O Festival de Annecy é a nossa grande vitrine mundial, pois tem uma visibilidade que alguns consideram ser um Oscar para a animação. Ele faz parte de um círculo de quatro eventos que são os mais importantes do mundo para a animação, que inclui os festivais de Zagreb, onde fomos premiados, o de Hiroshima e o de Otawa, que já nos contactou", diz Otto, que se destacou no cenário dos festivais de cinema mundo afora com os curtas-metragens (até hoje acessados por pesquisadores e críticos) "O Natal do Burrinho" (1984), "Treiler" (1986) e "Novela" (1992). "Esse novo filme funciona bem, modéstia à parte, pois a conexão com a Anaya nos fez bem".

Sua trama se passa na pequena vila de Veredas, onde fica a Casa Rosa, um bordel administrado pela mãe do protagonista, Ismael. Por causa disso, ele é conhecido como o "Filho da Puta". Tentando deixar essa realidade para trás, Ismael se afasta dos laços maternos em busca das duas coisas que nunca conheceu: seu pai e o oceano.

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Otto Guerra pretende levar 'O Filho da Puta' para Havana | Foto: Divulgação

"Esse filme tem muito apelo o que lhe dá chance em muito festival. Eu gosto muito do Festival de Havana. Se Cuba não for destruída pelos EUA até lá... quem sabe não vamos", diz Otto, que há 20 anos ganhou aplausos e láureas com "Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock 'n' Roll", considerado sua obra-prima.

Estima-se que o Festival de Gramado (14 a 22 de agosto) vá ser o porto de chegada de "O Filho da Puta" no Brasil, embora o anúncio de seu nome entre os concorrentes ao troféu Kikito não tenha sido feito ainda. Em 2017, a maratona cinnéfila na Serra Gaúcha contemplou Otto com o troféu Eduardo Abelin, a honraria máxima do evento para o conjunto de obra de cineastas autorais. Naquela época, ele venceu um câncer dos mais ferozes, levou à telas o aclamado "A Cidade dos Piratas" (basedo nas tiras da Laerte e lançado em 2018), escreceu e publicou sua autobiografia ("Nem Doeu") e virou pai.

"Mesmo em tempos de recessão cultural a gente está aí, pelo menos enquanto a extrema direita não se instala, o que é complicado. Mas, eu comecei na época da ditadura", explica Otto.

Na seção Midnight deste Annecy, onde o terror é uma presença constante, Cesar Cabral (a grife por trás de "Bob Cuspe") gerou assombro e encanto com "Madrugada no Edifício Terezinha". No enredo desse curta de 11'11", é tarde da noite em São Paulo e, ainda assim, Álvaro aceita um trabalho cuidando de um paciente em fase terminal, sem saber que a morte se infiltra pelos cômodos do misterioso prédio antigo onde se instala.

A programação de Annecy termina neste domingo (28).