Quicando graciosamente pelo mundo, de festival em festival, desde San Sebastián, na Espanha, lá em setembro, até Roterdã, na Holanda, em janeiro, "Dolores", de Maria Clara Escobar e de Marcelo Gomes, vai, enfim, estreia entre nós. Às 20h desta terça-feira, essa pérola vai passar na telona do Estação Net Gávea, a preparar terreno para seu lançamento comercial. O elenco - com participação da diva Zezé Motta - vai estar na sessão, com a dupla por trás da realização e a produtora Sara Silveira.
Tomada pela emoção na saída da primeira projeção internacional da produção, realizada em terras espanholas, Carla Ribas contou ao Correio da Manhã que recebeu do amigo cineasta Chico Teixeira (1958-2019), pouco antes de ele serenar, uma versão de base do roteiro que contagiou a mostra Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, no ano passado. Foi em parceria com esse realizador, em 2007, que a atriz carioca, antes só conhecida por trabalhos no teatro, teve a chance de protagonizar "A Casa de Alice", com o qual conquistou um merecido Troféu Redentor na Première Brasil. Dele vieram convites (para a TV e os palcos) e elogios da crítica, diante do que muitas resenhas definiram como a "atuação de uma vida". Há gente falando isso dela uma vez mais, ao fim das exibições de "Dolores", que concorreu no Festival do Rio de 2025.
"Revisitar o Chico foi muito importante desde o começo. Li umas duas ou três versões que ele me mandou. Depois que ele não teve como filmar, o Marcelo e a Maria Clara trouxeram um tratamento novo com detalhes que homenageiam o Chico. Ele está com a gente", disse a atriz ao Correio da Manhã em Donostia, nome da cidade em basco e euskera, a língua local. "Uma das vantagens de ser atriz é a gente se colocar nas circunstâncias das nossas personagens", refletiu a estrela em resposta à plateia do Kursaal.
Dez anos atrás, seu querido Chico venceu o Kikito de Melhor Filme do Festival de Gramado com "Ausência", no qual trabalhou com Gilda Nomacce, diva do cinema indie que, como Ribas, é um reator nuclear de inquietação dramática. As duas trabalham agora sob a batuta de Maria Clara e Gomes, que também dirigiu Carla na minissérie "Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente", hoje na HBO MAX. No filme dessa dupla de cineastas, San Sebastián riu, ficou tenso e chorou peripécias da vendedora de roupas íntimas Dolores, que chega aos 65 anos assolada pelo vício em jogo. Não por acaso, seu projeto para o futuro é abrir um cassino, apoiada em um sonho premonitório de êxito. As visões que tem não a livraram de perder muita coisa, entre elas o apreço de sua única filha, a também comerciante de lingerie Deborah (Naruna Costa, um vulcão na tela). Ela suspeita de que seu pai morreu de desgosto com a dependência de Dolores, sua companheira, em apostas. Já Duda é mais compreensiva com a avó. Trabalha numa loja de armas, atira bem à beça e sonha em se mudar para os EUA, a fim de poder aproveitar a vida com mais conforto.
"Esse filme fala de uma São Paulo de uma classe média baixa trabalhadora. Num mundo em que o trabalho define a nossa identidade, essas mulheres definem que trabalho querem para si", disse Maria Clara ao Correio. "São mulheres periféricas que desejam mudar de vida. A gente queria muito filmar em Parelheiros porque é uma São Paulo diferentes, que tem mata, que tem rio. A menção ao Paraguai é um modo de discutir a ideia do sonho possível, que se constrói ao cruzar uma fronteira, num simbolismo de liberdade. Essas mulheres querem ser livres".
A fotografia de Joana Luz e a atuação estonteante de Roney Vilella como Bigode, o quase namorado de Dolores são trunfos a mais do longa. "Eu faço cinema de personagens. Meus personagens é que direcionam toda a narrativa. Antes de fazer cinema, eu tinha um cineclube. Lá, eu fiz da cinefilia a minha escola. As referências cinéfilas que adquiri nessa época seguem habitando minha mente. Logo, quando vou contar uma história, os elementos de cinema de gênero aparecem, mas, antes de tudo, aparece o personagem. O que eu busco no meu cinema é contar a história como o meu personagem diz que ela tem que ser contada", explicou Marcelo ao Correio da Manhã ao levar "Dolores" a uma mostra paralela de Roterdã, onde integrou o júri oficial. "Ouvi um comentário ótimo sobre esse filme: 'Ele é uma ode à lantejoula'. Fomos por aí mesmo, pelo colorido, e Chico ia gostar. Suas cores revisitam a noção que a gente faz da classe média baixa a partir do desejo de viver, da alegria".
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