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'As Verdades' do cinema ecoam na madrugada

Thriller de José Eduardo Belmonte leva tensão à tela da Globo

'As Verdades' do cinema ecoam na madrugada
Bianca Bin e Lazinho Ramos nas raias do suspense Crédito: Divulgação


Rodrigo Fonseca
Apesar do que o título acima possa sugerir, não há um pingo de fábula em “As Verdades”, um filme onde as invenções se resumem a uma movimentação de câmera sinuosa, que expressa um certo fixismo do tempo físico e do Tempo, o mítico, usando uma cidade à beira-mar do Nordeste como signo do desinterias morais que desregulam o sistema civilizatório neste país. A principal delas é a inadimplência, inimiga nº1 de Josué, um dos mais ricos personagens que Lázaro Ramos já compôs, estruturado como um policial sem pólvora (tem muita ira mas não tem a musculatura da serenidade para sustentar sua raiva). O uso do indicativo fabular, usado da mesma forma como Sergio Leone (1929-1989) utilizou-o de maneira desconstrutiva em “Era Uma Vez No Oeste” (1968) e “Era Uma Vez Na América” (1983), é uma forma de conectar essa narrativa modulada pelos códigos autorais do cineasta José Eduardo Belmonte, conectado com a tradição precisa de onde ela vem. Esse seu belo trabalho será exibido na madrugada da Globo, às 2h40, depois de "Creed - Nascido Para Lutar", no "Domingo Maior".


 Fala-se muito em “Rashomon” (Leão de Ouro de 1951), de Akira Kurosawa (1910-1998), pelo emprego de um mesmo dispositivo estilístico: o uso de diferentes perspectivas, diversificados narradores, para narrar um mesmo fato de formas variadas. Mas o truque em questão se limita à superfície estrutural do roteiro de Pedro Furtado, escrito sob a supervisão de George Moura e Guel Arraes. Seus alicerces estão fincados em um fosso estético (e existencialista, sobretudo) mais fundo do que isso, sobretudo em termos sociológicos. Há muito mais parentela (proximidade) com outro filme (e que filme!): “Era Uma Vez Na Anatólia” (Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2011), do turco Nuri Bilge Ceylan.
Nele, um grupo de policiais, liderados por um delegado e um médico, cavoucavam a terra atrás de um corpo de um homem assassinado por desígnios xenófobos e pela intolerância étnica. Só que os sábios senhores da... verdade (palavra que dá título ao novo Belmonte)... um doutor e um xerife, no caso, eram fraturados em suas vidas, incapazes de sustentar suas palavras de ordem de certezas. É o que se passa com Josué, sob uma fotografia de luz tropical de Marcelo Corpanni. Apesar da retidão expressa em seu distintivo, seu modo anda na diagonal.     
Em geral, é assim que caminha a humanidade representada pelo olhar alarmado (por vezes catastrofista) de Belmonte, desde “A Concepção” (2003), passando por seu necessário “Meu Mundo Em Perigo” (2007), cujo título é autoexplicativo. Toda a sua obra de longas (mesmo a comédia “O Auto da Boa Mentira”) se baseia em almas no purgatório de si mesmas, sedentas de reinvenção. Basta uma olhada em sua obra-prima, “Se Nada Mais Der Certo” (2008), um thriller também sobre erros inadimplentes.


E, dele, o diretor leva para “As Verdades” um certo ultrarromantismo. Josué (um Lazinho taciturno qual samurai) incumbido de resolver um crime contra o empresário Valmir (Zécarlos Machado, um gigante em cena), em um pequeno município do sertão. A investigação de Josué se envereda por três pontos de vista. Primeiro: o crime é contado por Cícero (Thomás Aquino), um matador de aluguel. Segundo: a história é narrada pelo ponto de vista de Francisca (Bianca Bin, sempre surpreendente, em seu ferramental de gestos), a noiva do empresário. Terceiro: é revelado o ponto de vista de Valmir (Machado), que sobreviveu, à luza da mãe de Francisca, vivida pela Anna Magnani Drica Moraes. Cada relato desses canibaliza o outro, mas garante ao espectador mais conhecimento, sobre aquelas pessoas, sobre aquele Brasil suarento de crimes silenciados e sobre a policial que ajuda Josué, reprovando seus métodos e ascendendo cena a cena como “A” personagem deste thriller trágico: Sâmia, encarnada com precisão, razão e inquietação por Edvana Carvalho.