Correio da Manhã
Cinema

'Gostar das coisas é bom, deixa a vida mais palatável'

'Gostar das coisas é bom, deixa a vida mais palatável'

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã

Adamantium, único metal 100% indestrutível do universo (não do nosso, mas, sim, do universo Marvel), usado nas garras do Wolverine, inspira a foto que Fernando Caruso utiliza em seu whatsapp, numa afirmação do sangue nerd em suas veias. Bom de fazer rir no palco e na TV, ele empregou seu fator de cura (contra o mau humor do mundo) nas telonas com galhardia no passado, em "Vai Que Cola - O Filme" (2015) e "Não Vamos Pagar Nada" (2020), sempre em participações como coadjuvante.

Chegou a hora de esse Clark Kent se assumir Kal-El e desfilar os superpoderes do protagonismo num filme que sintetiza angústias de sua geração: "Cansei de Ser Nerd". Essa comédia, com toques de ficção científica e suspense, entra em circuito nesta quinta (28) e marca a estreia do premiado diretor de arte Gualter Pupo na direção.

Antes de pousar em circuito exibidor, esse óvni de criatividade rara flanou pelo exterior e teve sua première internacional na 51ª edição do Boston Science Fiction Film Festival, considerado o mais longevo e cultuado festival de cinema sci-fi das Américas. A produção tem argumento original de Renato Fagundes, que assina o roteiro ao lado de Thaisa Damous, Luiz Noronha e Gualter.

Na trama, o nerd Aírton (Caruso), acusado injustamente, em seus tempos da faculdade, pelo sumiço (e suposto assassinato) de uma colega, chegou a ficar preso - por 10 dias - a pagar um pato que não esfolou. Após 20 anos do quiproquó, ele mora com a mãe Dona Têca (Cissa Guimarães) e tenta curar os traumas do passado. Para desopilar, convence o melhor amigo, Ulisses (Pedro Benevides), a ir à festa de reencontro da turma da graduação e enfrentar suas inseguranças. Óbvio que o bagulho dá ruim. Nesse birinaite, reencontra Juliana (Bia Guedes), seu grande amor da juventude, e também Charles (João Velho), principal responsável pelo bullying que sofreu lá atrás.

Para provar sua inocência e desmascarar os criminosos, Aírton precisará encarar um grupo esquisito... e perigoso... usando seu conhecimento geek. Você, aí da massa leitora, pode até não saber que o Surfista Prateado foi o astrônomo Norrin Radd ou pode desconhecer a diferença entre os dons do Aquaman e os do Príncipe Namor, mas Aírton, não. Ele tem a força... ainda que não a dos Jedi. Nesta entrevista, Caruso etiqueta tudo certo.

Você é um multiartista presente em muitas mídias - da TV ao palco - que agora ganha seu primeiro protagonista nas telonas. O que "Cansei Se Ser Nerd" representa na sua trajetória?

Fernando Caruso - Representa a alegria de convergir em grande estilo dois universos bem distintos da minha identidade, o profissional com o pessoal. Está sendo maravilhoso, inclusive, misturar isso tudo pra fazer a divulgação do filme entre os canais de vários amigos queridos igualmente nerds.

Qual foi o filme que te fez amar o cinema e qual foi o filme que te fez querer estar no cinema, na telona?

Curiosamente, acho que o filme que me fez perceber o meu amor pelo cinema foi "As Panteras". O amor sempre esteve lá, mas, assistindo a uma sessão de "As Panteras" sozinho, numa sala de cinema, com um balde de pipoca e refrigerante, eu percebi o quanto aquilo me fazia bem, sem precisar de companhia ou um roteiro cabeçudo. Eu queria a experiência, a diversão. E quanto a querer estar na telona, acho que todos os filmes de aventura que povoaram a minha infância semearam essa vontade.

O que a expressão nerd carrega de mais poético e de mais político?

De mais poético, eu acho que é essa paixão intensa que caracteriza o nerd. O nerd não gosta pouco, ele gosta muito. Muito. Normalmente lê, assiste, ouve tudo sobre seu objeto de consumo. Essa intensidade é muito bonita. Gostar das coisas é bom, deixa a vida mais palatável. Muito melhor do que não gostar de nada. É igual ao meme dos dois personagens sentados em lados opostos de um ônibus na beira do abismo. Quanto ao lado mais político, mesmo que algumas (ou muitas) pessoas não saquem a mensagem, quase a totalidade dos conteúdos nerds falam sobre inclusão, defender a coisa certa, combater a maldade etc. São valores extremamente políticos e úteis para uma evolução moral e ética da sociedade. Colocá-los em prática, nem que seja em discurso, em redes sociais, hoje é o mesmo que colocar um alvo nas costas. É um ato bastante político.

O que o trabalho com o Gualter Pupo e com toda a turma da produção te passou de mais expressivo acerca da liberdade de se filmar uma história independente no Brasil?

Mais do que a liberdade, o trabalho do Gualter e de toda a equipe me fascinou bastante pela sua guerrilha, que é fazer cinema no Brasil encontrando soluções criativas e de baixo custo para deixar uma ideia maluca sair do papel e se materializar na tela. Verdadeiramente inspirador. Rodamos o filme todo dentro da casa do Gualter.

Como você define sua relação com os quadrinhos e como essa relação te ajuda nesse filme e o que tem pela frente de projeto em relação a HQs?

Minha relação com os quadrinhos é praticamente simbiótica. Quem me conhece... e conversa comigo por mais de quinze minutos... sabe que as chances de esbarrar nesse assunto são enormes. Então isso fez com que eu pudesse, neste projeto (do Gualter), atuar menos e só 'estar lá', visto que boa parte das coisas que o personagem dizia eram coisas que eu diria (à salvo as partes sobre homicídio, sacrifício humano e alienígenas veganos). De projetos pela frente, em relação a esse universo, estou às voltas de usufruir dos talentos de um grande amigo quadrinista, Camilo Solano, para lançar um livro infantil. Em agosto, eu começo os ensaios para "Percy Jackson, O Musical", em São Paulo, com base numa franquia que também tem um grande séquito de apaixonados pelo mundo afora. Ah... e o meu livro "O Guia de Sobrevivência Nerd" continua à venda pela editora Heroica.