Cinema

El Deseo completa 40 anos e reforça legado no cinema de Almodóvar

Estreia do festejado (mas controverso) 'Natal Amargo' candidata ao sucesso comercial o novo trabalho da produtora fundada pelos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín, na Espanha

El Deseo completa 40 anos e reforça legado no cinema de Almodóvar
Pedro Almodóvar dá instruções aos atores Leonardo Sbaraglia e Quim Gutiérrez no set de 'Natal Amargo' Crédito: El Deseo

 

A estreia brasileira de "Natal Amargo" — título nacional de "Amarga Navidad" — recoloca em circulação uma das forças criativas mais decisivas da história do audiovisual europeu nos últimos 40 anos: a produtora El Deseo. Fundada em 1985 pelos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, a companhia nasceu em Madri, para estrear "A Lei do Desejo" (1987), com uma proposta simples e radical: garantir independência artística absoluta a filmes com fome de transgressão. Ninguém era mais faminto, em solo ibérico, naqueles anos, do que o artesão autoral manchego que nos deu pérolas como "A Pele Que Habito" (2011). Quatro décadas depois, a companhia transformou-se numa usina de invenção cinematográfica capaz de atravessar fronteiras, idiomas e estilos sem perder identidade.

Instalada até hoje na Calle Francisco Navacerrada, no bairro madrilenho de Salamanca, a empresa segue funcionando como um núcleo familiar de criação. O comando executivo é dividido entre Pedro, Agustín e a histórica produtora Esther García, uma das figuras mais respeitadas do cinema espanhol contemporâneo, laureada no Festival de San Sebastián, em 2025, com um troféu honorário.

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Os irmãos Pedro e Augustín Almodóvar com Esther Garcia: o trio por trás de El Desei | Foto: Shutterstock

Mais do que uma simples casa produtora, a El Deseo virou um selo de prestígio autoral. Foi ali que nasceram títulos fundamentais como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", "Ata-me!", "Tudo Sobre Minha Mãe", "Fale com Ela", "Volver", "A Pele que Habito", "Dor e Glória", "Mães Paralelas" e agora "Natal Amargo".

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A diva Carmen Maura em 'A Lei do Desejo', de 1987 | Foto: Divulgação

Ao mesmo tempo, a companhia abriu espaço para cineastas de diferentes gerações e países, acolhendo obras de nomes como Guillermo del Toro, Lucrecia Martel, Isabel Coixet, Oliver Laxe, Damián Szifron e Pablo Trapero. Sua filmografia já ultrapassa 80 produções entre longas e curtas; documentários e séries. Inclua em seu pacote experiências televisivas recentes como "Mentiras Pasajeras". Ao longo desse percurso, a empresa acumulou centenas de prêmios internacionais, incluindo Oscars, BAFTAs, Goyas, César, prêmios em Cannes, Veneza e Berlim.

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Indicado ao Oscar, 'Sirat', de Oliver Laxe, teve a El Deseo em sua produção | Foto: Neon

No Oscar, o histórico impressiona. Produções da El Deseo já receberam mais de 20 indicações ao prêmio da Academia de Hollywood, vencendo ao menos duas estatuetas em categorias centrais: Melhor Filme Internacional para "Tudo Sobre Minha Mãe"; Melhor Roteiro Original para "Fale com Ela". Inclua nesse bonde indicações para atuações, direção, fotografia, maquiagem e trilha sonora que ajudaram a consolidar a presença espanhola no circuito americano. Durante a pandemia, pro exemplo, a empresa se manteve ativa com o curta-metragem "A Voz Humana", derivado de um experimento de Jean Cocteau.

Em "Natal Amargo", há um filme dentro do longa que Almodóvar nos apresenta a partir da crise criativa que leva o diretor Raúl (Leonardo Sbaraglia) a fazer da vida de uma amiga matéria de um novo projeto. Paralelamente, uma publicitária famosa por filmes autorais, Elsa (Bárbara Lennie, em atuação estonteante), dá um rumo diferente à sua vida artística depois de perder a mãe. Essa perda nos é narrada num fluxo cromático de acachapar o olhar, embalado na trilha sonora mais majestosa de Alberto Iglesias, o habitual trilheiro dos almodramas. Visualmente, o longa mantém a sofisticação cromática típica do diretor, mas abraça um tom mais melancólico, quase elegíaco, como se Almodóvar filmasse suas próprias cicatrizes emocionais.

A potência da El Deseo talvez esteja justamente aí: transformar experiências íntimas em acontecimentos coletivos. Seus filmes preservam assinatura estética fortíssima sem abrir mão de comunicação popular. São obras que circulam entre festivais de elite e plateias amplas, entre o melodrama clássico e a provocação moderna. Poucas produtoras no mundo conseguiram construir um catálogo tão reconhecível.

Na história do cinema espanhol, essa linhagem dialoga diretamente com outras casas fundamentais. A produtora de Carlos Saura, associada à histórica Elías Querejeta P.C., e o próprio império criativo de Elías Querejeta ajudaram a sedimentar uma ideia de cinema autoral ibérico muito antes de Pedro Almodóvar reinventar esse conceito para os anos 1980 e 1990.

E o prestígio recente do audiovisual espanhol segue atravessando fronteiras. Na edição deste ano do festival É Tudo Verdade 2026, realizada em abril entre Rio e São Paulo, o grande vencedor internacional foi um documentário ibérico com aura fabular chamado "Uma Película de Miedo", dirigido por Sergio Oksman, reforçando a vitalidade contínua da produção da pátria de Julio Iglesias no circuito cultural brasileiro.