Cinema

Ira Sachs revisita a amizade e a arte em 'O Dia de Peter Hujar'

Cultuado em Sundance e elogiado na Berlinale, 'O Dia de Peter Hujar', um dos trabalhos mais viscerais de Ira Sachs na direção, chega ao Brasil via streaming, sem circuito... e é imperdível

Ira Sachs revisita a amizade e a arte em 'O Dia de Peter Hujar'
Rebecca Hall e Ben Whishaw passam em revista os laços de amizade em 'O Dia de Peter Hujar', Ira Sachs Crédito: MUBI

Recém-saído da estreia de "The Man I Love" na competição oficial do Festival de Cannes — um dos títulos mais controversos da maratona francesa —, o diretor Ira Sachs havia reafirmado... e fazia pouco... a sua vocação para o cinema da intimidade com "O Dia de Peter Hujar", lançado agora no Brasil pela MUBI. Aos 33 anos de carreira, o cineasta americano consolidou uma assinatura própria mesmo sem jamais se prender a uma identidade formal rígida. Seu cinema amadureceu acompanhando os afetos, os vínculos de sobrevivência emocional e as ressacas sentimentais do cotidiano, quase sempre orbitando personagens queer à deriva entre desejo, culpa, memória e companheirismo. Seu tema mais essencial é a brodagem.

Desde "O Amor é Estranho" ("Love Is Strange"), considerado sua obra-prima na arquitetura delicada dos diálogos e das confidências, Sachs vem transformando relações humanas em matéria dramática de rara elegância. "Frankie", rodado em Portugal em 2019, levou-o à disputa da Palma de Ouro e consolidou sua parceria com o roteirista brasileiro Maurício Zacharias. Já "Passagens", de 2023, revelou um cineasta ainda mais interessado nas zonas de fragilidade emocional masculina. Agora, em "O Dia de Peter Hujar", ele expõe suas entranhas num exercício de sutileza mais refinado, visualmente, do que muitos de seus títulos pregressos.

Exibido primeiro em Sundance e depois na Berlinale de 2025, o longa adapta o livro homônimo de Linda Rosenkrantz, baseado numa conversa real gravada em 1974 entre essa escritora e o fotógrafo Peter Hujar. Ambientado inteiramente no apartamento dela, em Manhattan, o filme transforma uma única tarde numa espécie de fluxo existencial sobre arte, liberdade, amizade e sobrevivência criativa na Nova York dos anos 1970.

Sachs filma essa troca de ideias com um rigor de encenação que surpreende até mesmo quem acompanha sua filmografia há duas décadas. Há mais precisão na condução dos planos, maior sofisticação na decupagem e um cuidado sonoro incomum em sua obra. A fotografia granulada de Alex Ashe, rodada em Kodak 16 mm, recria uma Nova York suja, boêmia e luminosa ao mesmo tempo, quase como um território suspenso entre a decadência e a invenção artística.

Saliva, desejo e afeto seguem jorrando aos litros, como sempre acontece em seu cinema, herdeiro indireto de nomes como Hal Ashby e Paul Mazursky. Mas há aqui um apuro formal inédito. A montagem precisa do paulistano Affonso Gonçalves impede que o espaço único se torne claustrofóbico, imprimindo fluidez a um filme essencialmente construído sobre a palavra.

De volta à parceria com Sachs após "Passagens", Ben Whishaw oferece uma atuação monumental na pele de Hujar. Seu fotógrafo é doce, ferino, melancólico e arrogante na mesma medida. Enquanto revive encontros com figuras como Allen Ginsberg e Susan Sontag, ele também expõe as agruras de existir artisticamente numa América dominada pelo consumo e pela precariedade financeira.

Ao lado dele, Rebecca Hall sustenta o filme com escuta e presença silenciosa. O diálogo entre os dois ganha um ritmo quase musical, transformando o que poderia ser mero palavrório intelectual num poderoso tratado sobre cumplicidade.

Peter Hujar, morto em 1987 em decorrência do HIV, emerge do longa como símbolo de uma geração queer radicalmente comprometida com a própria arte. Sachs, que chegou a Nova York em 1988, olha para aquele universo com admiração evidente. Seu filme não é apenas sobre um fotógrafo ou uma época: é sobre a permanência dos laços afetivos e da criação artística diante da passagem do tempo.

Macaque in the trees
O cineasta Ira Sachs | Foto: Jac Martinez/Divulgação

"O Dia de Peter Hujar" acaba se revelando uma ode às amizades que sobrevivem às ruínas — e à capacidade que o cinema tem de eternizar conversas aparentemente pequenas. O que começa como registro de um dia transforma-se numa reflexão melancólica e luminosa sobre o ato de existir.

Fora "O Dia de Peter Hujar", o filé da MUBI este mês é uma seleção de títulos egressos de diferentes locais da África que se fizeram notabilizar via Festival de Cannes. "Bamako" (2006) compõe o bonde. O mauritano Abderrahmane Sissako assina adireção, narrando o calvário de Melé, uma cantora de barzinho prestes a perder seu casamento, por falta de amor. Uma batalha política contra o FMI envolvendo vizinhos de seu conjunto habitacional chacoalha seu cotidiano.

Vencedor da Palma de Ouro de 1975, o argelino Mohammed Lakhdar-Hamina (1934-2025) vai para esse rol de africanidades da MUBI com o longa que o imortalizou "Chronique Des Années De Braise", aqui traduzido como "Crônica dos Anos de Fogo". No roteiro desse drama, Ahmed, um pastor pobre, deixa sua aldeia na Argélia com a esposa e os dois filhos para ir para a cidade se juntar ao primo Kouider, em busca de uma vida mais fácil. Ele consegue um emprego em uma pedreira, onde descobre a miséria e a injustiça. Lá conhece Miloud, um louco visionário que vagueia pelos cemitérios. A Segunda Guerra Mundial eclode em meio aos desdobramentos da rotina laboral de Ahmed, que vê sua família ser levada por uma epidemia de tifo.

Neste fim de semana, sai a grade da MUBI de junho. Estão fixos por lá produções oscarizadas como "Valor Sentimental", de Joachim Trier.