Entre dores e amores turbulentos, entre objetificações descaradas e transcendências das mais corajosas, corações ao alto: Marilyn Monroe está no meio de nós, a receber loas, ainda que póstumas pelos cem anos de seu nascimento. Norma Jeane Mortenson nasceu em 1º de junho de 1926, em Los Angeles, na Califórnia. A partir desta quarta-feira, o Grupo Estação lhe dedica uma mostra, numa retrospectiva de sua gloriosa odisseia por uma indústria que a mascou feito um chiclete, extraindo de sua alma o signo de esplendor feminino mais radiante que o cinema já viu.
Vai ter "O Pecado Mora ao Lado" ("The Seven Year Itch", 1955); "Nunca Fui Santa" ("Bus Stop", 1957); "Quanto Mais Quente Melhor" ("Some Like It Hot", 1959), que será o longa de abre-alas do evento; "Adorável Pecadora" ("Let's Make Love", 1960); e outras delícias... tudo no complexo exibidor da Gávea, até o dia 3.
Filha de Gladys Pearl Baker, Norma Jean (aka Marilyn) passou a infância longe da estabilidade familiar. O pai biológico jamais foi oficialmente reconhecido, embora diferentes hipóteses de sua identidade tenham surgido ao longo das décadas. A mãe enfrentava graves crises psiquiátricas e foi internada repetidas vezes, o que levou a futura estrela a viver entre lares adotivos, casas de parentes e um orfanato. Ainda criança, Norma Jeane cresceu em bairros populares de Los Angeles e conviveu com uma sensação permanente de abandono que marcaria toda a sua trajetória pessoal. Ainda adolescente, casou-se com James Dougherty, aos 16 anos, numa tentativa de evitar o retorno ao sistema de acolhimento infantil. Muito desse calvário foi retrabalhado em "Blonde" (2022), do neozelandês Andrew Dominik, que valeu à cubana Ana de Armas uma indicação ao Oscar.
A entrada de Marilyn Monroe no cinema aconteceu depois de sua experiência como modelo fotográfica. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela trabalhava numa fábrica de equipamentos militares quando foi descoberta por fotógrafos interessados em campanhas de propaganda patriótica. O sucesso das imagens abriu caminho para contratos como pin-up, como modelo publicitária. Em 1946, assinou seu primeiro acordo com a 20th Century Fox e adotou o nome artístico Marilyn Monroe, usando "Marilyn" em homenagem à atriz Marilyn Miller e "Monroe" como sobrenome herdado da mãe. Sua estreia oficial no cinema ocorreu em 1947, no filme "Dangerous Years", em participação pequena, seguida por "Scudda Hoo! Scudda Hay!". Pouco depois, perderia o contrato inicial, mas insistiu na carreira, passando a frequentar testes e produções menores até conquistar atenção em Hollywood.
A ascensão começou efetivamente no início dos anos 1950, quando apareceu em produções como "O Segredo das Joias" e "A Malvada". O estúdio percebeu rapidamente o impacto de sua presença diante das câmeras e passou a transformá-la numa imagem-símbolo da sensualidade norte-americana. O cabelo platinado, a voz sussurrada e a construção da figura da "loira ingênua" (mas... quiçá fatal) ajudaram a criar uma das personas mais icônicas do século XX. Entre 1947 e 1961, Marilyn concluiu 29 filmes e tornou-se protagonista de boa parte deles, especialmente durante sua fase de estrelato absoluto. Entre seus títulos mais célebres estão "Torrente de Paixão" ("Niagara"), "Os Homens Preferem as Louras" ("Gentlemen Prefer Blondes"), "Como Agarrar um Milionário" ("How to Marry a Millionaire", "O Príncipe Encantado" ("The Prince and the Showgirl") e o magistral "Os Desajustados" ("The Misfits"), que o Estação Net Gávea exibe nesta quinta e no domingo, às 16h40. Em 1962, trabalhava em "Something's Got to Give", filme que permaneceu inacabado após sua morte.
O êxito comercial foi gigantesco. Marilyn tornou-se um fenômeno mundial de bilheteria e uma das maiores estrelas da indústria cinematográfica dos anos 1950. Seus filmes arrecadaram cerca de US$ 200 milhões de dólares apenas em seus lançamentos originais. O valor parece pequeno para as cifras do Presente - visto que o campeão de arrecadação de 2026, "Super Mario Galaxy: O Filme", faturou US$ 980 milhões em dois meses -, mas na década de 1950, quando os ingressos custavam cerca de cinquenta centavos de dólar, as receitas mobilizadas por ela foram colossais. Por anos a fio, ela apareceu entre os maiores nomes do box-office americano, chegando a ser considerada a atriz número 1 de Hollywood em popularidade comercial. A força de sua imagem ajudou a revitalizar o cinema de estúdio num momento em que a televisão começava a ameaçar o público das salas de exibição.
Com uma fama tamanho GG, a vida afetiva de Marilyn Monroe passou a ser acompanhada obsessivamente pela imprensa. Ela teve três maridos. O primeiro foi James Dougherty, com quem permaneceu entre 1942 e 1946, antes da fama. Em 1954, casou-se com o astro do beisebol Joe DiMaggio (1914-1999), numa união cercada por atenção midiática e encerrada menos de um ano depois. Apesar do divórcio, os dois mantiveram vínculo afetivo ao longo da vida, num ar de carinho vitalício. Em 1956, Marilyn casou-se com o dramaturgo Arthur Miller (1915-2005), um dos escritores mais importantes dos Estados Unidos. O relacionamento aproximou a atriz de círculos intelectuais e coincidiu com a fase em que ela buscava reconhecimento como intérprete dramática séria. O casamento terminou em 1961, durante um período de forte desgaste emocional para ambos.
Embora tenha sido frequentemente resumida à condição de símbolo sexual, Marilyn buscava reconhecimento artístico e tentou romper o controle dos grandes estúdios sobre sua carreira, fazendo de sua sagacidade e inteligência aríetes para desbravar caminhos num mercado dos mais sexistas. Em 1954, criou a Marilyn Monroe Productions, tornando-se uma das primeiras atrizes de Hollywood a fundar a própria produtora. Também estudou interpretação no Actors Studio, sob orientação do mítico professor Lee Strasberg (1901-1982), aproximando-se do método de atuação ligado a nomes como Marlon Brando (1924-2004) e James Dean (1931-1955). Esse esforço lhe rendeu papéis mais complexos e avaliações críticas mais respeitosas. "Nunca Fui Santa" marcou uma virada importante nesse processo, enquanto "Quanto mais Quente Melhor", de Billy Wilder (1906-2002), consolidou sua reputação artística e comercial simultaneamente. Deu a ela inclusive um Globo de Ouro.
Nos últimos anos de vida, Marilyn enfrentou problemas de saúde física e mental, dependência de medicamentos e crises emocionais profundas. As ausências em filmagens tornaram-se frequentes, e sua relação com os estúdios deteriorou-se. Em 4 de agosto de 1962, aos 36 anos, foi encontrada morta em sua casa em Brentwood, Los Angeles. O laudo oficial apontou overdose de barbitúricos e classificou o caso como "provável suicídio". A morte gerou imediatamente teorias conspiratórias envolvendo figuras políticas e criminosas, sobretudo devido aos rumores de relacionamentos com integrantes da família Kennedy, mas nenhuma investigação posterior encontrou provas capazes de derrubar a versão oficial.
Décadas após sua morte, contudo, Marilyn continua a divar... e a desafiar rótulos.