Cinema

Bye Bye Brasil volta aos cinemas franceses em 4K

Enquanto o cinema nacional aguarda a finalização de 'Deus Ainda É Brasileiro', o legado de Cacá Diegues mantém-se nas telas com o relançamento de 'Bye Bye Brasil' em Paris

Bye Bye Brasil volta aos cinemas franceses em 4K
A produção de 'Bye Bye, Brasil' foi complexa mobilizando equipes em várias partes do Brasil Crédito: Divulgação

Diante da falta de produções dirigidas por vozes autorais brasileiras na Croisette este ano, a pergunta que mais se ouviu no recém-encerrado Festival de Cannes, acerca de nosso país, um ano depois da coqueluche "O Agente Secreto", foi: "Mas cadê o filme do Cacá Diegues?... Digo, o novo...". Tal demanda se refere a "Deus Ainda É Brasileiro", filmado pelo artesão autoral egresso de Alagoas, ao longo da Copa do Mundo de 2022, em seu estado natal, e até hoje inédito. Cacá morreu em fevereiro de 2025 e deixou um hiato imenso, compensado com a inauguração de uma estátua em sua glória no Alto da Boa Vista e com a realização de um documentário sobre sua obra, com direção de Karen Harley e Lírio Ferreira, estreado na já citada cidade cinéfila da Côté d'Azur, mas ainda inédita em salas.

Sobre a sequência da comédia estrelada por Antonio Fagundes (no papel do Todo-Poderoso): ela está ficando pronta e deve sair do forno em 2027. Demorou por conta da exigência de uma pós-produção esmerada e pelo serenar de seu realizador. Contudo... a tal pergunta lá de Cannes... ao abraçar o termo "o novo", ela faz referência ao resgate de uma das mais preciosas joias de nosso audiovisual: "Bye Bye Brasil" vai ser relançado na França, em cópia restaurada em 4k. A estreia acontece no dia 3 de junho.

A produtora Lucy Barreto foi a responsável para que esse clássico nacional, visto por 1.488.812 pagantes e indicado à Palma de Ouro, saísse do papel. Ela foi à Croisette em 2024, ao lado de sua filha, a também operária da produção Paula Barreto, para uma homenagem à empresa do clã, a LC Barreto. O nome se reporta ao companheiro de vida e de projetos de Lucy, Luiz Carlos, o Barretão, hoje com 98 anos.

Ao lado dele, Lucy comemorou duas indicações ao Oscar conquistadas pela LC, a primeira dada a "O Quatrilho", em 1996, e a segunda, a "O Que É o Isso, Companheiro?", em 1998. Nesta quinta-feira (28), às 15h, um dos maiores cults do casal, "Garrincha, A Alegria do Povo" (1962), vai ser exibido em televisão aberta, na telinha da TV Brasil.

Macaque in the trees
O Cartaz da reestreia francesa de 'Bye Bye Brèsil' | Foto: Divulgação

Um poster novo e super estilizado de "Bye Bye Brasil" hoje se faz notar nas salas francesas e nas páginas da revista "Cahiers du Cinéma", a bíblia da cinefilia. O longa foi incluído na lista dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos votada por uma das volumosas associação nacionais de crítica, a Abraccine.

"Depois de ver 'Xica da Silva', eu fiquei encantada com o trabalho do Cacá, e procurei-o para que desenvolvêssemos um projeto. Ele me propôs filmar 'Tereza Batista Cansada de Guerra', do Jorge Amado. Fui atrás dos direitos, mas Jorge pediu um preço nas alturas, entusiasmado com o sucesso que fizera seu 'Dona Flor', filmado pela gente, na LC. Disse para o Cacá: 'Você não pode pensar numa outra coisa'. Aí ele me veio com um parágrafo: 'Um casal de artistas mambembes viaja pelo Brasil com um casal de camponeses, descobrindo um novo país'. Ora, num momento em que a televisão se espalhava por toda a nação, aquela ideia soou ótima. Aí eu sugeri que ele fizesse uma viagem, acompanhado por um bom roteirista - que, no caso, era o Leopoldo Serran -, para pesquisar", lembra Lucy. "Na sequência, Cacá falou com o Chico Buarque para fazer a música e deu naquela beleza".

Na trama de "Bye Bye Brasil", o sanfoneiro Ciço (Fábio Jr.) e a mulher, Dasdô (Zaira Zambelli), que está grávida, são surpreendidos pelo encontro com a Caravana Rolidei, um circo sobre rodas. A companhia itinerante é formada pelo mágico Lorde Cigano (José Wilker), a dançarina Salomé (Betty Faria) e o Rei dos Músculos, Andorinha (Príncipe Nabor). Ciço, apaixonado por Salomé, decide acompanha-los pelo país adentro, arrastando Dasdô, que tem seu parto feito de improviso por Cigano, recebendo uma bebezinha, Altamira.

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Cacá Diegues com José Wilker, Betrty Faria e Fábio Jr no set de 'Bye Bye Brasil' | Foto: Reprodução

"Esse foi o filme mais difícil de toda a minha carreira na produção. Eu tinha três equipes em ação, simultaneamente. Era uma equipe produzindo, na frente de todo. Era a equipe do Cacá, na filmagem. Era a equipe de desprodução. Lembro de falar com o Cacá: 'Se você for filmar a Amazônia, que fazê-lo de helicóptero, para registrar aquela beleza toda da floresta do alto. O Brasil tem que ser ver nesse filme. Você vai descobrir novos horizontes e eu, também", diz Lucy. "Não conhecia o Amazonas, não conhecia a região de Altamira. O filme me deu a chance de compreender toda a diversidade de nosso país. Filmamos os exteriores em locações e, algumas cenas de interior, foram feitas no Rio. Depois, quando o dinheiro escasseou, a gente filmou exteriores aqui no Rio mesmo. Esta cidade é um estúdio vivo, um dos maiores deste mundo".

Em 2026, Lucy celebra ainda os 50 anos de "Dona Flor e Seus Dois Maridos".