A melhor tradução para o experimento sensorial que atesta a maturidade criativa de Ira Sachs na ficção, o rascante “The Man I Love”, vem de um poema, da autoria de Antônio Carlos Secchin, chamado “Noite na Tevarna”: “Crepúsculo, vinho, hemorragia:/ vai vermelha a voz da poesia. / A vida só vale o intervalo/ entre início e meio de um cigarro. / Traga, taverneira, algo bem ríspido, / afogue em rum qualquer sonho nosso. / Brindemos ao que esconde o futuro: metáforas, Aids e ossos”. Assim é Jimmy George, performer na Nova York dos anos 1980 que entra e sai de hospitais, quase morreu duas vezes, toma quilos de comprimidos e fuma como se o futuro não fosse mais como era antigamente. Rami Malek empresta a ele a profundidade de um oceano ao voltar ao universo queer sete anos depois do Oscar recebido por “Bohemian Rhapsody”. Trabalha com a garganta, assumindo uma dimensão de ave canora surpreendente, como um ator e cantor com alma de diva da cena teatral americana dos anos 1980. Viver com o HIV é um tormento que ele não disfarça, mas entorpece vivendo paixões também doentes. Luther Ford, no papel do vizinho Vincent, é o extremo de arame farpado no qual abraços são abrigos antiaéreos.
Ira Sachs havia mudado seu status na progressão aritmética da autoralidade com “O Amor É Estranho” (2014), abalroando o etarismo e as descobertas hormonais da adolescência de um só golpe. Foi competir em Cannes pela primeira vez em 2019, com “Frankie”, investigação de um lado antropológica, do outro existencialista, por Portugal, com Rui Poças a fotografar seu discurso acerca das patifarias do Cupido. Numa trajetória de (belos) estudos da arquitetura sentimental contemporânea (a se destacar o sucesso “Passages”, hoje na MUBI), esse Walt Whitman do Memphis encontrou no brasileiro Maurício Zacharias o escriba perfeito. Deu match a liga entre a câmera de Sachs e o trabalho de diálogos de Zacharias.
As palavras, em “The Man I Love”, entram menos expositivas, a não ser quando Rebecca Hall está em cena, a chorar pelo calvário de Jimmy. No compito geral, o que se vê é um filme de atmosfera sensual (embora crepuscular) sobre um artista que se recusa a agonizar e se agarra de modo dionisíaco a cada dia, amando, gozando, fazendo inconsequências, desfilando suas lembranças e cantando. As sequências de ensaios beiram um realismo documental, ao mesmo tempo em que as imagens das baladas gays que ele frequenta são retratadas na estroboscópica esfera da imersão sinestésica. Tom Sturridge, o Lorde Morpheus da Netflix, em “Sandman”, tem seu quinhão de glória ao lado de Malek na figura de um namorado que tenta reter o ímpeto destrutivo de seu benquerer.
Outro poema se faz explodir no olhar da plateia diante das imagens de cores terrígenas (ou talvez sanguíneas) da direção de fotografia da canadense Josée Deshaies... um poema de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) que peita a finitude ao dizer: “ir embora é fugir ? e o instante seguinte paira sobre o presente/ como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte”. O tânatos, em Sachs, é celebrativo. Dói... mas reconstrói.
Cannes termina neste sábado e seria bonito se Sachs recebesse algo. Nesta quarta saiu a láurea da Semana da Crítica e seu Grand Prix ficou com “La Gradiva”, de Marine Atlan.