Assim que anoitecer na França, nesta terça-feira (19) de sol brando, com termômetros na casa dos 20 graus, Cannes vai subir de temperatura e também de pressão com "Natal Amargo" ("Amarga Navidad"), o novo longa-metragem de Pedro Almodóvar, que chega à competição oficial do Festival de Cannes ao fim do dia. Vai até lá cercado de expectativa crítica e fervor cinéfilo, a testar os limites do que o baiano Caetano Veloso, amigo e colaborador do cineasta, batizou como "almodrama". A mais recente incursàstreia no Brasil no próximo dia 28, com fome de público vasto.
Aos 76 anos — nasceu em 25 de setembro de 1949, em Calzada de Calatrava, na região de La Mancha —, o realizador ibérico regressa à Croisette disposto a conquistar a Palma de Ouro que ainda falta numa trajetória já transformada em patrimônio cultural do cinema contemporâneo. Desde que "Tudo Sobre Minha Mãe" lhe rendeu o prêmio de Melhor Direção em Cannes... antes de conquistar o Oscar de Filme Internacional, Almodóvar tornou-se presença permanente no imaginário do festival francês, espaço onde glamour, melodrama e reflexão estética convivem como extensão natural de seu cinema. Concorreu lá seis vezes, passou um curta fora de concurso ("Estranha Forma de Vida", hoje na plataforma MUBI) e presidiu o júri em 2017.
"Este é o filme em que eu fui... mais cruelmente... eu mesmo", diz Almodóvar no reclame promocional de "Natal Amargo", que será lançado em algumas praças europeias com o título "Autoficção".
Estruturado sobre jogos de espelhos emocionais, na dinámica especular duma metalinguagem em estado de combustão, "Natal Amargo" promete radicalizar ainda mais a investigação sentimental que o diretor vem desenvolvendo desde a década de 1970. O filme acompanha duas histórias paralelas ambientadas entre Madri e as Ilhas Canárias. De um lado está Elsa, personagem interpretada por Bárbara Lennie ("As Linhas Tortas de Deus"), uma publicitária devastada pela morte da mãe durante as festas natalinas. Incapaz de processar o luto e soterrada pelo excesso de trabalho, ela sofre um ataque de pânico que a leva a abandonar temporariamente Madri para refugiar-se em Lanzarote ao lado da amiga Patricia, enquanto o marido Bonifacio permanece na capital espanhola.
A segunda linha narrativa acompanha Raúl Durán, cineasta e roteirista vivido pelo argentino Leonardo Sbaraglia ("Plata Quemada"), que mergulha numa crise criativa na qual realidade e ficção passam a se confundir. Sbaraglia já esteve com Almodóvar antes, em "Dor e Glória", de 2019, no papel do ex há muito sumido de um realizador colapsado - papel que rendeu a Antonio Banderas o troféu de Melhor Atuação da Croisette naquele ano.
Lá também havia o recurso do "filme dentro do filme". O dispositivo metalinguístico não é novidade na filmografia almodovariana, mas aqui ganha contornos ainda mais íntimos, transformando o próprio ato de narrar em corpo vivo, sujeito a autopsia simbólica. A composição visual divulgada pelo filme, em seus estilizados cartazes, já sugere essa ideia: uma silhueta masculina abriga dentro de si a imagem de uma mulher, numa espécie de cartografia sentimental sobre conexões, perdas sem volta e identidades fragmentadas.
Produzido pela El Deseo — empresa fundada por Pedro e seu irmão caçula, Agustín Almodóvar — em parceria com a Movistar Plus , o longa reúne um elenco que parece sintetizar diferentes fases da carreira do realizador. Além de Bárbara Lennie e Sbaraglia, estão em cena nomes históricos do seu universo criativo, como Rossy de Palma e Aitana Sánchez-Gijón, ao lado de rostos mais recentes do cinema espanhol, entre eles Milena Smit, Carmen Machi, (o colossal) Quim Gutiérrez, Victoria Luengo, Patrick Criado e Antonio Romero.
O lançamento acontece num momento particularmente fértil da trajectória do cineasta. Ainda sob os ecos internacionais de "O Quarto ao Lado" ("The Room Next Door"), vencedor do Leão de Ouro em Veneza de 2024, protagonizado por Julianne Moore e Tilda Swinton, Almodóvar chega a Cannes num estágio criativo marcado por maior depuração formal, sem abandonar o excesso sentimental de suas cores retintas, cantadas até por Adriana Calcanhoto.
"O Quarto ao Lado" permanece disponível no Brasil em plataformas de aluguel digital. Na MUBI podem ser vistos "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão", "Ata-me" e "Estranha Forma de Vida"; já a Netflix abriga "Fale com Ela"; e a Amazon Prime Video disponibiliza "A Voz Humana" em regime de locação. Parte significativa de sua obra também circula em catálogos rotativos do Telecine e do Looke.
"A natureza de um filme sempre é a incerteza, pois filmar é como um safári, no qual a gente entra sem conseguir prever os perigos pela frente, porque a vida é movimento", afirmou Almodóvar numa masterclass no Festival de San Sebastián, onde recebeu o prêmio honorário Donostia pelo conjunto da obra.
A frase ajuda a compreender a natureza emocional de "Natal Amargo", que parece transformar o Natal — tradicionalmente associado à reunião familiar — num espaço de ruína afectiva, desorientação íntima e fantasmas emocionais.
Vestígios de "Persona" (1966), de Ingmar Bergman, já atravessavam "O Quarto ao Lado", assim como as atmosferas melancólicas do pintor Edward Hopper. Agora, tudo indica que "Natal Amargo", já estreado em Madri, amplie ainda mais essa investigação sobre solidão e desejo, aproximando-se da contenção emocional de "Julieta" (2016) sem abandonar o barroquismo cromático de obras como "Má Educação" (2004) e "Dor e Glória". A recorrência de personagens esmagados por memórias, culpas e desejos reprimidos reafirma a permanência do "almodrama", com toda a sua ironia pop.
Teóricos como o dramaturgo brasileiro José Carvalho preferem definir essa operação como "metamelodrama": uma reciclagem contemporânea dos códigos emocionais do melodrama clássico, filtrados pela cinefilia e pela autoconsciência narrativa. De Douglas Sirk a Rainer Werner Fassbinder, passando pelas referências literárias de Alice Munro e James Joyce, Almodóvar construiu uma obra que transforma sofrimento íntimo em espectáculo visual sofisticado.
Em "Natal Amargo", essa lógica parece atingir um novo grau de maturidade, convertendo o luto numa espécie de labirinto emocional atravessado por humor e erotismo.
O realizador espanhol soma actualmente mais de 170 prémios internacionais, incluindo dois Oscars, dois Globos de Ouro, cinco BAFTAs, sete prémios César honorários e uma infinidade de distinções em Cannes, Veneza e San Sebastián. Desde "Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão" (1980), obra explosiva nascida no ambiente libertário da Movida Madrileña pós-franquista, até títulos consagrados como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos", "Carne Trémula", "Volver" e "Dor e Glória", Almodóvar transformou-se num dos raros cineastas capazes de unir sofisticação autoral, popularidade e potência emocional.
Hoje, ao regressar a Cannes com "Natal Amargo", leva consigo não apenas a expectativa de troféus, mas a confirmação de que continua a reinventar o melodrama como poucos realizadores vivos conseguem fazer.
Lançado em português pela Cia das Letras em 2024, "O Último Sonho", espécie de coletânea das memórias de Almodóvar, antecipa reflexões que agitam "Natal Amargo". O mesmo pode se dizer de um outro exercício literário dele que encontra destaque nas prateleiras das melhores lojas do Brasil (e na Amazon). É um deslumbre o trabalho editorial que a Planeta, em seu selo Tusquets, fez com duas incursões do diretor manchego pela seara das Letras: "Patty Diphusa" (1991) e "Fogo nas Entranhas" (1981). Os dois textos, publicados num período de dez anos, relativos a uma das fases de maior tônus contracultural da obra do diretor foram reunidos num só volume, traduzido por Eric Nepomuceno, com direito a um delicioso texto de orelha da cantora e performer Letrux.
Além de "Natal Amargo", a Espanha disputa a Palma de Ouro deste ano com "La Bola Negra", de Javier Calvo e Javier Ambrosi, a ser projetado na quinta, e com o devastador "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyan, que faz de Javier Bardem o nome mais cotado à láurea de Melhor Ator neste festival. Ele já foi laureado em Cannes, em 2010, por "Biutiful", em empate com Elio Germano (que venceu por "La Nostra Vita"). Em seu radicalíssimo novo desempenho, Bardem é Esteban Martínez, um diretor de cinema dos mais premiados - e dos mais iracundos - que dá à sua filha, Emilia (Victoria Luengo), o papel central de seu novo projeto. Será um desafio, nesse set, o fato de os dois terem um vasto passivo de mágoas a ser quitado.
Sorogoyen é hoje um dos mais promissores pilares da direção na Espanha, com thrillers premiados como "As Bestas" (2022) e "Que Dios Nos Perdone" (2016) em seu currículo. Sua destreza na criação de uma narrativa sobre a arte de filmar é notável, sobretudo na forma de incorporar o preto e branco a um retrato em cores dos desajustes familiares.
O Festival de Cannes vai até 23 de maio, quando Park Chan-wook, diretor sul-coreano que preside o júri desta edição, anuncia as produções vitoriosas. O Brasil é produtor de um dos 22 concorrentes, o suspense "Paper Tiger", do nova-iorquino James Gray. Rodrigo Teixeira, da RT Features (de "Ainda Estou Aqui") produz Gray desde 2019. Nessa nova parceria deles, Scarlett Johansson se desconstrói de forma corajosa no papel de uma mãe de família cujo marido (Miles Teller) e o cunhado (Adam Driver) se envolvem com a máfia russa, sob risco de morte.