ENTREVISTA

Bérenger Thouin: 'Respeito não é sinônimo de subserviência'

Bérenger Thouin: 'Respeito não é sinônimo de subserviência'
Bérenger Touin, cineasta francês Crédito: Rodrigo Fonseca

Longe da competição pela Palma dourada, um misto de fabulação com bases da História e registros documentais virou uma das expressões poéticas de maior encantamento no 79. Festival de Cannes: "L'Âge d'Or", do estreante Bérenger Thouin. Ele se apropria de arquivos de variadas ordens a fim de narrar a vida de Jeanne Lavaur, uma heroína da luta pelo empoderamento feminino que passou pela Europa sem entalhar seu nome na pedra da memória. Jeanne atravessa o século XX desafiando o próprio destino, desde a infância no açougue de seus pais até o sonho de se tornar condessa. De uma guerra a outra, da Paris dos Anos Loucos ao Brasil, seu caminho cruza a História e abraça o mundo, dividida entre seus dois amores: o conde Guillaume de Barante e a audaciosa revolucionária italiana Céleste.

Em seu primeiro longa, filmado em 2025, Thouin cria uma trança de beleza rara entre passado, permanência e presente. A inspirada Souheila Yacoub é sua estrela. Ela e o Tempo do Velho Mundo.

O que um arquivo representa para o cinema?

Bérenger Thouin - Um arquivo é uma metonímia de um tempo. Quando essa parte metonímica é uma imagem, a tarefa de um cineasta é submetê-la a vetores contemporâneos para presentificar os seus sentidos.

É difícil ver seu "L'Âge d'Or" sem lembrar de Woody Allen em "Zelig" (1983), ainda que seu filme não seja um mockumentary (falso documentário). A analogia vem do uso de imagens de arquivo. O que há desse cult em P&B de Allen no teu longa?

"Zelig" é, sim, um primo distante. Na medida em que fala de um personagem que se adapta ao ambiente, a se misturar com a História. A diferença é que ele não tem a consciência do século, ao contrário de Jeanne Lavaur. Todas as aspirações dela passam por um espaço íntimo paralelo à História. Eu tenho um real autêntico em imagens de época e tenho sentimentos que se ordenam com a ficção.

Que disciplina o trato com arquivos demanda?

A mais importante é a certeza de que respeito não é um sinônimo de subserviência ou submissão. Respeitar um arquivo não te obriga a ser obediente a ele. Todo arquivo pode ser usado com subversão, com liberdade, desde que ele conte algo sobre o tempo. No meu caso, os arquivos falam sobre desejo.

No cinema, em geral, ao se falar em arquivos, está a se falar de imagem. Mas e o som? Onde o som entra na dinâmica estética do arquivo?

No caso deste meu filme, trata-se de deixar o barulho da vida se comunicar e se expressar. Eu uso arquivos mudos, sem som. Uso uma trilha sonora da vida que traga um senso de contemporaneidade a cada frame.

No Brasil, um dos mais delicados do trabalho com arquivos é o custo. De que forma essa dinâmica se dá no seu cinema?

Eu venho desenvolvendo trabalhos com arquivo desde os meus curtas. Há um contexto social que não pode ser ignorado no que há no entorno da criação de uma imagem. Esse contexto pode até afetar a imagem, ao questionar o ponto de vista absoluto em torno dela.