Aos 89 anos, ganhador de duas Palmas de Ouro (por “Ventos da Liberdade” e “Eu, Daniel Blake”), o inglês Ken Loach passará por Cannes nesta terça-feira, para acompanhar uma projeção, ao ar livre, nas areias da Croisette, de um de seus mais festejados sucessos: “Terra e Liberdade” (1995). Manifesto sobre os fracassos e as utopias da esquerda revolucionária, a partir das lutas da Espanha, no início do século XX, a produção ganha uma cópia nova e deve circular pelas Américas ao longo do segundo semestre. A trama revisita a Guerra Civil Espanhola a partir do olhar de David Carr, um desempregado de Liverpool (interpretado por Ian Hart) que abandona a Inglaterra para lutar contra o fascismo nas brigadas republicanas. Inspirado livremente em “Homenagem à Catalunha”, de George Orwell, o filme explora as divisões internas da própria esquerda, expondo o conflito entre anarquistas, comunistas e milícias independentes em pleno front.
Na trama, um David Carr já idoso morre em decorrência de um ataque cardíaco e sua neta descobre cartas antigas, jornais e outros documentos em seu quarto: o que vemos no filme é o que ele viveu. Carr, membro do Partido Comunista, deixa Liverpool e viaja para a Espanha para se juntar às Brigadas Internacionais. Ele cruza a fronteira espanhola na Catalunha e, por coincidência, acaba se alistando em uma milícia do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) comandada por Vidal, na frente de Aragão. Nessa companhia, como em todas as milícias do POUM, homens e mulheres – como a jovem e entusiasmada Maite – lutam juntos. Nas semanas e meses seguintes, ele faz amizade com outros voluntários estrangeiros, como o francês Bernard e o irlandês Coogan, além da namorada deste, Blanca – por quem David Carr mais tarde se apaixona –, também integrante do POUM e ideóloga de seu grupo.
Há 31 anos, o filme ganhou o Prêmio FIPRESCI da Crítica e o Prêmio do Júri Ecumênico, o que o consolidou como um dos marcos da filmografia do diretor britânico. Seu filme mais recente é “O Último Pub” (2023), cujo roteirista, o escocês Paul Laverty, integra o júri deste ano.
“O que a gente tenta fazer é contar as histórias das pessoas da classe trabalhadora. Nessas vidas, as contradições do capitalismo se tornam claras, revelando tanto as contradições do abuso da dignidade humana quanto a capacidade que as pessoas têm para sobreviver. O problema é o sistema”, disse Loach no concorrido zoom com o Festival de Brasília, enquanto seu longa anterior, “Você Não Estava Aqui” (2019), corria mundo.
A marca do marxismo está em todos os seus longas. “Temos sempre que escutar o Velho e pensar sobre o que ele nos mostrou há alguns séculos a fim de pensar as contradições materialistas como motores de um mundo de tanta exclusão. Eu só não faço um filmo sobre o que acontece com o Brasil por não ter morado nunca aí. Seria um ato desonesto da minha parte”, disse Loach, em recente entrevista ao Correio da Manhã.
Sua obra foi iniciada em 1967, com “A Lágrima Secreta”. Já nos primeiros filmes - “Up The Junction” (1965), “Kes” (1969), “The Rank and File” (1971) e “The Price of Coal” (1972) -, Loach desenhou o caminho que vem seguindo, com enorme sucesso. “Encaro sempre o território como personagem. A cidade são coprotagonistas nos meus filmes, sempre”, defende Loach nos vídeos de seu canal no YouTube, que pode ser acessado na URL https://www.youtube.com/user/KenLoachFilms. “Metrópoles ou vilas interagem todo o tempo com os personagens, modificando como eles se comportam, desejam, amam”.
Cannes termina neste sábado. "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen, é o favorito à Palma de Ouro.