Cinema

Charline Bourgeois Tacquet: 'Todo mundo, metaforicamente, é só'

Charline Bourgeois Tacquet: 'Todo mundo, metaforicamente, é só'
Charline Bourgeois-Tacquet, atriz e cineasta Crédito: Divulgação

Em meio a uma corrida jornada profissional de estrela em ascensão, com participações pequenas, mas potentes em filmes de grifes autorais, Charline Bourgeois-Tacquet fez 40 anos em janeiro e, poucos meses depois, foi brindada com o convite que pode dar um novo rumo à sua arte: disputar a Palma de Ouro de Cannes. Desde a experiência criativa por trás das câmeras no belo curta-metragem "Joujou" (2015), ela tem apostado mais na direção. Essa aposta alcança um outro vulto quando seu longa-metragem mais recente, "La Vie d'Une Femme", torna-se um dos 22 concorrentes aos troféus de Cannes.

Sua doída narrativa, pontuada de sensualidade, passou pelo Palais des Festivals no dia 13 e arrebatou a crítica pelo desempenho da atriz Léa Drucker. Ela vive a cirurgiã Gabrielle, uma medica de guerrilha num hospital público que vê suas certezas mudarem ao conhecer uma escritora (Mélanie Thierry) que quer mergulhar em seu mundo.

Na entrevista a seguir, o Correio colhe de Charline Bourgeois-Tacquet olhares sobre a construção de um filme talhado para quebrar caricaturas no ensejo de uma representação social mais contemporânea... e avessa a sexismos.

Existe uma variedade das mais fartas de séries de TV e de streaming sobre o universo médico e a rotina hospitalar. Como buscar na realidade caminhos para retratar o dia a dia de profissionais de saúde aob uma mirada nova?

Charline Bourgeois-Tacquet - Nós fizemos um estágio de cerca de 12 semanas em um hospital público de Paris, onde às vezes só há 30 segundos de distância entre um atendimento e o outro. Nessa pesquisa, ei conheci um universo agitado, de vida pulsante, onde tudo envolve o bem-estar.

Sua dramaturgia em "La Vie D'Une Femme" se volta para uma mulher de 50 anos, com empatia e muita escuta, em busca de inquietações raramente abordadas no cinema. O que traz esse recorte geracional para as suas investigações sobre o feminino?

Meu eixo foi a necessidade de falar de uma mulher que não aceitou limitar sua vida a demandas da vida familiar. Seu trabalho vem em primeiro lugar e ela é feliz com sua escolha. Eu queria falar de alguém que não se arrepende de suas escolhas.

O cult "Jeanne Dielman", de 1975, dirigido pela belga Chantal Ackerman (1960-2015), vem forte à cabeça quando começa seu "La Vie d'Une Femme", por abordar uma rotina feminina em suas mais simples situações. Houve uma inspiração explícita?

Esse é um dos meus filmes preferidos, mas não vejo uma relação especular entre sua Jeanne Dielman e Gabrielle. São similares os dois filmes na opção pelo retrato de uma vida.

Onde é que a solidão faz parte da sua trama?

Gabrielle vive cercada de gente: colegas, marido, enteados, a mãe e Frida, a personagem de Mélanie Thierry, que aparece para levantar questões. Entre essas questões está o fato de ela ter momentos solitários como todos nós temos. Todo mundo, metaforicamente, é só.

De que maneira os ambientes por onde Gabrielle circula podem ser considerados como "personagens", em sua jornada sentimental?

Ela é fechada em seu universo laboral, mas, de alguma forma, os espaços onde passamos a maior parte de nosso tempo refletem o que somos. A questão é dar a eles o close-up mais adequado. Nesse aspecto, eu e Noé Bach, que assina a direção de fotografia, escolhemos juntos com a diretora de arte Pascale Consigny a luz ideal a cada ambiente.