Corpo estranho pros padrões mais aburguesados de conduta dos grandes festivais de cinema do mundo, numa dinâmica de ação e fantasia digna da estética de John Carpenter (mas com CEP sul-coreano), “Hope” se candidata ao posto de “filme escândalo” de Cannes em 2026, da mesma forma como “Titane” (o) foi em 2021. A taxa de sangue derramado – e de invenção – de ambos é igual. Na Hong-Jin, seu realizador, é um dos divos do cinema de gênero autoral da Ásia na atualidade, consagrado na Croisette no passado com “The Chaser” (aqui “O Caçador”), de 2008. Volta agora com uma ficção científica digna do cult johncarpenteriano “Enigma do Outro Mundo” (1982) e de seu compatriota “O Hospedeiro”, de Bong Joon Ho. Esse, com um baiacu gigante a atacar o povo da Coreia, abriu caminho para que seu diretor pudesse fazer “Parasita”, a Palma de Ouro de 2019, ganhadora de quatro Oscars. Quiçá um novo “Parasita” igualmente (geo)político e naturalista esteja diante de nós. Suas destrezas artísticas são notáveis, a se destacar a montagem de Kim Sunmin e a atuação de Hwang Jung-min.
Se o supracitado “O Hospedeiro” apostava num peixe gigante, “Hope” traz alienígenas que fazem lembrar os Na’vi de “Avatar”, com a diferença de que os dois últimos episódios dessa saga de James Cameron deixaram de ser arte para se limitarem a manifestos ecológicos e tecnológicos, sem alma. A alma de “Hope” se faz presente já na tradução de seu título, que significa “esperança”. Numa vila de ares rurais na Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, a descoberta de uma vaquinha esquartejada mobiliza a guarda local, na figura de um tenente imbatível (papel de Jung-min), além de uma leva de moradores armados. Em segundos, nasd proximidades do bicho morto, ouve-se um uivo que não corresponde a bicho nenhum da Terra. Logo se nota a presença de um alienígena, que custa a aparecer, num dispositivo similar ao usado por Steven Spielberg em “Tubarão” (1975).
Mesmo sem vermos a criatura, acompanhamos seu rastro de destruição e a correria pela vida de personagens que não querem servir de petisco a esse ser. Nenhum deles tem um devir heroico clássico (no caso, o trinômio coragem, sabedoria e temperança), fora o tenente e sua assistente empoderada. Ainda assim, feito no Carpenter de “Assalto À 13ª DP” (1976), esses dois são heróis falhos, trapalhões, que não tiveram tempo de correr. A correria tem a ver com prazos de validade deste planeta. O monstro que matou a vaca lá no início é só um sinal de que há uma invasão a caminho. Ela talvez não seja colonizadora. Talvez seja só um indício de que as culturas estão mudando e se miscigenando, ao contrário do que a intolerância aceita.
Justamente por representar isso, “Hope” incomoda, divide opiniões, gera críticas nervosas (e outras passionais). Ele é a celebração de um filme fantástico que celebra a liberdade e encontra na ação – nos moldes inflamáveis de “John Wick” – a sua gramática. Por linhas patrulhadas, Na Hong-Jin escreve a sua obra-prima. É um filme fenomenal, que sacode certezas e assegura a Cannes seu frescor.
O festival encerra sua 79ª competição neste sábado. Viu-se muita coisa boa, mas nada bom como "Hope".