Está agendada para o dia 19, no Cinéma de la Plage - seção ao ar livre de Cannes, feita na orla da praia -, uma projeção de "Terra e Liberdade" (1995) um dos poucos títulos dos últimos 30 anos que Paul Laverty não escreveu em sua contínua parceria com o inglês Ken Loach. Apesar disso, desde a coletiva oficial do júri deste festival, na terça-feira passada, o roteirista oficial do mestre marxista tornou-se celebridade pop no balneário, com tiradas políticas dignas de nota.
"Eu venho de uma geração que estudou Grego na escola e, embora não me lembre de muita coisa, sei que as raízes da palavra 'política' remetem para o modo como tratamos o povo, como se cuida do bem-estar da população. A política é parte do ar que respiramos. Quem se diz apolítico está a agir de modo político", disse Laverty, que, no final da conferência, fez referência ao cartaz oficial do evento, com o rosto de Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma & Louise (1992), para aquecer uma polêmica global ligada ao Oriente Médio. "Susan, Javier Bardem e Mark Ruffalo foram para uma lista de desagravo em Hollywood por denúncias ao genocídio palestiniano. A minha solidariedade para com eles é total".
Formado em Filosofia e depois em Direito, o escocês nascido em Calcutá Paul Laverty, hoje com 69 anos, fez da América Latina das décadas de 1980 e 90 a arena para uma série de lutas sociais em prol de países marcados por ditaduras ou guerrilhas. Da Nicarágua, onde iniciou seu périplo, ele foi para El Salvador e, na sequência, partiu para a Guatemala. Após longa estadia entre as veias abertas do território de colonização hispânica, ele resolveu procurar Ken Loach, entusiasmado pela natureza marxista dos longas do diretor, a fim de lhe servir como consultor para um projeto que virou o filme "Uma Canção Para Carla" (1996), sobre a reinvenção de uma imigrante nicaraguense em Glasgow.
Aquela aproximação de Laverty com o audiovisual deu frutos, uma vez que Loach nunca mais o largou. Fizeram outras 15 produções já lançadas, incluindo os dois títulos que deram a Palma de Ouro ao realizador, respectivamente há dez e há 20 anos: "Eu, Daniel Blake" (2016) e "Ventos da Liberdade" (2006). O trabalho mais recente deles foi "O Último Pub" ("The Old Oak", que concorreu á Palma de Ouro em 2023. Deixou a Croisette com a menção honrosa do Júri Ecumênico.
Laverty é parte essencial da força política da estética de Loach, com seu fraseado curto, de reflexões alarmistas sobre a engenharia da exclusão no Velho Mundo. "Quem controla o poder é que decide como os algoritmos vão afetar as nossas vidas", cravou o bamba do roteiro, ao lado de seu colegiado de juradas e jurados, presidido pelo cineasta sul-coreano Park Chan-wook. Agitada por reviravoltas violentas, a dramaturgia de Laverty abraça a sociologia, combinando-a com o (melo)drama numa mistura perfeita.