Cinema

Um tigre nova-iorquino com listras brasileiras

'Paper Tiger', que pode dar a Palma de Ouro a James Gray, é produzida pela RT Features de Rodrigo Teixeira, parceiro brasileiro do cineasta em cults com Brad Pitt e Anthony Hopkins

Um tigre nova-iorquino com listras brasileiras
Scarlett Johansson em 'Paper Tiger', que concorre ao troféu mais disputado de Cannes Crédito: Divulgação

 

Primeiro dos (dois) concorrentes americanos à Palma de Ouro de 2026 a passar pelo Palais des Festivals nesta competição é "Paper Tiger", um thriller produzido pela brasileira RT Features, de Rodrigo Teixeira, mas dirigido por um nova-iorquino: James Gray. A RT e ele trabalharam antes em "Ad Astra" (2019), com Brad Pitt, e em "Armageddon Time" (2022), com Anthony Hopkins e Anne Hathaway. Combinaram esforços ainda em uma live seminal, em plena pandemia. Essa nova sinergia entre o diretor de 57 anos e a empresa nacional por trás do oscarizados "Ainda Estou Aqui" (2025) e "Me Chame Pelo Seu Nome" tem Scarlett Johansson, Miles Teller e Adam Driver em seu elenco. Fala de dois irmãos que se envolvem num esquema criminoso em plena década de 1980.

A passagem de "Paper Tiger" no Palais de Cannes será neste sábado, sendo que o outro longa dos EUA, "The Man I Love", de Ira Sachs, ficou para o dia 20. Neste mesmo 16/5, em que tenta sua sorte no balneário francês, Gray terá um de seus cults, "Os Donos da Noite" ("We Own The Night", 2007), exibido na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM-RJ), às 17h50. Tá rolando uma retrospectiva dele por lá. No domingo, às 18h, tem o obrigatório "Amantes" ("Two Lovers"), de 2008.

Dono de uma consagrada obra cinematográfica calcada na obstinação e na lealdade, Gray tem na RT uma aliada fortíssima. "Trabalhar com James Gray é muito prazeroso. Eu sempre fui fã dele como cineasta e hoje posso dizer que ele se tornou um grande amigo e um parceiro cinematográfico", diz Teixeira no material promocional de "Paper Tiger".

Macaque in the trees
James Gray dirige Brad Pitt no set de 'Ad Astra' | Foto: Francois Duhamel/Divulgação

"Ad Astra: Rumo às Estrelas", onde essas grifes se uniram, é uma sci-fi que foi indicada ao Leão de Ouro no Festival de Veneza e nomeada ao Oscar de mixagem de som. Pitt vive o astronauta Roy McBride, que embarca numa jornada pelo sistema solar a fim de reencontrar seu pai (Tommy Lee Jones) e impedir que uma massa de energia possa destruir a Terra.

"Gosto do efeito plástico, e em certa medida existencial, que viagens, no espaço ou no tempo, gera. Creio que foi o diretor Edwin S. Porter, em 'The Great Train Robbery', quem fundou a percepção de que close-ups podem decifrar a alma humana e revelar muito sobre a nossa essência só com imagens. E o cinema existe pra isso. Eu fiz 'Ad Astra' sob a inspiração de um documentário que vi em 1989, 'For all mankind', que me revelou que não vemos a luz das estrelas do espaço. Daí ir até a luz", disse Gray no Festival de Veneza, quando explicou ao Correio que sua forma de narrar flerta com o intimismo e a construção afetiva de intimidade. "Todo mito... como toda grande narrativa... parte de um microcosmo".

Estudado mundialmente pela precisão cirúrgica de seus planos, Gray fez fama no início dos anos 1990 ao conquistar o Leão de Prata do Festival de Veneza com "Fuga para Odessa", dirigindo Tim Roth e Vanessa Redgrave. Passeou pela Berlinale com "Z: A Cidade Perdida", em 2017, tendo Charlie Hunnam, Robert Pattinson e Tom Holland consigo. Antes, concorreu em Cannes ainda com "Era Uma Vez em Nova York" (2013) e "Caminho sem Volta" (2000), ambos com Joaquin Phoenix.

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Anthony Hopkins e Anne Hathaway em 'Armageddon Time', de 2022 | Foto: Divulgação

"Um bom filme é aquele que é honesto consigo mesmo em sua busca para ser uma narrativa genuína", disse o realizador ao Correio, usando um lema com o qual Teixeira concorda.

Carioca de nascença radicado em São Paulo, este transformou a RT na mais prestigiada produtora brasileira hoje em atividade no mundo, tendo em seu currículo acertos como o terror "O Farol", que saiu de Cannes, em 2019, com o Prêmio da Crítica. Na mesma data, a RT partiu da Croisette levando o Prix Un Certain Regard por "A Vida Invisível", de Karim Aïnouz. Ele ainda participa de Cannes, via Quinzena de Cineasta, com "La Perra", da chilena Dominga Sotomayor, com Selton Mello no elenco.

Neste domingo, um outro filme sobre crime pode mudar os rumos da disputa pela Palma de Ouro: "Hope", do sul-coreano Na Hong-jin, onde um combate de proporções épicas sangra um vilarejo. Do que se viu até agora, em Cannes, "Nagi Notes", de Koji Fukada, do Japão é o título mais sóbrio em sua realização.

O Festival de Cannes de 2023 segue até o dia 23 de maio.