Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Independente e audaz ao gosto da 'terrinha'

'Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha' passou pela Berlinale e saiu de lá com uma láurea da imprensa alemã | Foto: Divulgação

Um dos festivais de maior prestígio da Europa, o IndieLisboa garimpa jazidas autorais daqui até domingo, com filmes brasileiros em sua competição e com resgate do cult 'Zelig'

Até domingo, a cabeça de nossos patrícios cinéfilos lá na Lusitânia estará tomada pelas graças do IndieLisboa, um dos mais audaciosos festivais da Europa, na atualidade, na celebração das estéticas que desafiam algoritmos em prol da invenção. Faz da sala São Jorge e do Culturgest suas sedes de exibição. Sua edição atual começou no dia 30 de abril, com "The Loneliest Man in Town", uma delicinha austríaca de Tizza Covi e Rainer Frimmel com foco num bamba do blues cujos acordes não afastam o fantasma da gentrificação. Para o desfecho da maratona lisboeta, no dia 10, a atração escolhida foi "The History of Concrete", um documentário dirigido pelo comediante John Wilson.

Até lá, tem muita coisa de peso quicando nas vistas dois portugueses, a se destacar "Another Other", de Bex Oluwatoyin Thompson, com a lenda Wesley Snipes às voltas com uma trama sobre racismo institucional. É um dos achados da competição internacional de 2026, que não esqueceu do Brasil.

Concorre por lá um dos destaques nacionais da última Berlinale, em fevereiro, "Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha", de Janaína Marques. Ao longo de seus 92 minutos, fala-se com doçura (e criatividade) sobre o querer materno. Na trama, Rosa está dentro de uma máquina de ressonância magnética. Pedem-lhe que pense numa memória feliz, algo que ela não tem. Está na hora de construir uma boa recordação, recuando à infância, quando sua mãe foi presa, acusada de homicídio. E ei-las, num devaneio realista, pelas estradas de terra batida. Veronica Cavalcanti e Luciana Souza brilham no elenco.

Na briga de curtas, tem Brasil no páreo também. Concorremos com a coprodução suíça "O Rio de Janeiro Continua Lindo", de Felipe Casanova; com "Certas Formas", de Luiz Afonso Morêda, e com "Os Arcos Dourados de Olinda", de Douglas Henrique, que venceu o É Tudo Verdade.

Dedicada à prata da casa, a Competição Portuguesa deste IndieLisboa traz Catarina Mourão a desbravar os Açores, em "Os Bravos", e Francisca Alarcão a desafiar a geometria dos umbigos em "O". Nesta seara lusa, o ator catarinense Ivo Müller tem chance de arrebatar aplausos com seu desempenho em "Fractais Tropicais", de Leonardo Pirondi. Trata-se de uma jornada interestelar, na qual um grupo de cientistas estuda os últimos vestígios vivos da Terra. A inteligência artificial Museo se torna um portal dos diários dessa tripulação e um arquivo fragmentado da humanidade. Na Terra, aquele que se acredita ser o último dos humanos percorre um planeta em ruínas que se vai recuperando, pouco a pouco, do apocalipse sofrido.

Nesta quarta, o IndieLisboa mata as saudades que a gente tem dos tempos em que o (ex-)casal Mia Farrow e Woody Allen viviam uma sinergia inventiva com "Zelig" (1983), sobre um homem que acredita mudar de forma em meio aos grandes eventos da História. A produção faz parte de uma retrospectiva sobre mockumentary, o falso documentário.

Macaque in the trees
'A Conference of The Birds': Alemanha na competição lusitana | Foto: Divulgação

Esta noite, no concurso oficial, a Alemanha pede passagem ao IndieLisboa com "Conference of the Birds", de Amin Motallebzadeh. Em seu roteiro, um treinador de uma equipe de futebol morre. Mas este não é um homem qualquer, deixando um lastro de luto e desorientação. O que se segue é tudo menos um conjunto de disputas contratuais para a contratação do seu substituto; aqui o futebol (ou os seus bastidores) é apenas o cenário para um conflito sobre o futuro de uma geração. Uma série de encontros e situações surreais toma lugar.

Títulos badalados em outros festivais do Velho Mundo sempre têm espaço no IndieLisboa, como "Folha Seca" ("Dry Leaf"), de Alexandre Koberidze, egresso da Geórgia. Ganhador do Prêmio da Crítica do Festival de Locarno, onde recebeu ainda uma menção honrosa do júri oficial, essa aventura metafísica parte do sumiço de uma fotógrafa. A última informação que se tem da moça é que ela estava fotografando estádios de futebol rurais em aldeias georgianas. Seu pai, Irakli, parte em busca da garota, viajando de um lugar para outro. O melhor amigo da jovem, que é considerado uma pessoa invisível (literalmente), também parte para ajudar, neste estudo sobre a atomização de subjetividades.

Bem-sucedido por onde passa, "Garça-Azul" ("Blue Heron"), de Sophy Romvary (Canadá/ Hungria), ganhará os holofotes do IndieLieboa nesta sexta. Painel de angústias geracionais, este drama sobre amadurecimento e aceitação familiar rasga corações ao falar de desamparo. Tudo se passa no fim da década de 1990, quando Sasha, de oito anos, e sua família de imigrantes húngaros, mudam-se para uma nova casa, em Vancouver. Seu recomeço é interrompido pelo comportamento cada vez mais perigoso de Jeremy, o filho mais velho, que esbanja desconforto diante do Novo Mundo.

Nota-se, diante desse cardápio, que não falta diversidade ao IndieLisboa.