Por: por rodrigo fonseca - especial para o correio da manhã

CRÍTICA / FILME / A FÚRIA: Brado de Guerra... em busca de escuta

Daniel Filho tem atuação em estado de graça sob a direção de Ruy Guerra, com quem filmou 'Os Cafajestes', em 1962 | Foto: Divulgação

Titular de uma bilheteria milionária em sua estreia em longas-metragens, com "Os Cafajestes" (1962), Ruy Guerra afirmou, faz pouco, que a literatura mais fantasiosa que tem consumido ao largo de seus 94 anos é feita por cientistas, não por romancistas ou contistas. Questões físicas e químicas debatidas pela Epistemologia na contemporaneidade soam como patafísica, como comédia bufa, para o realizador, compositor, ator e cronista moçambicano, que chegou ao país nos anos 1950, já rapazola, e logo abrasileirou seu olhar.

Talvez por isso, "A Fúria", que marca a sua volta às salas de projeção, recém-chegado ao circuito, desafie um código científico básico de entropia, numa discussão sobre o regresso de uma matéria morta à vida, em nome de uma vingança.

Mário, o ex-soldado, mais tarde operário, apresentado pelo diretor aos cinemas em 1964, em "Os Fuzis" (1964), e depois retomado em "A Queda" (1978), volta do Além no que se apresenta como o desfecho de uma trilogia ganhadora de dois Ursos de Prata na Berlinale. Era Nelson Xavier (1941-2017) quem interpretava o personagem lá atrás. Agora, cabe a Ricardo Blat (re)viver esta figura, num exercício poético de reflexão sobre perenidades e resquícios que Ruy dirige em dupla com Luciana Mazzotti.

Faz tempo (ponha aí este século inteiro, desde 2000) que o cineasta se enfurnou na metafísica que existe entre a plenitude da Matemática e as acelerações da Física. Foi parar lá quando idealizou "Estorvo", pelo qual foi indicado (pela terceira vez) à Palma de Ouro, 26 anos atrás. Nesse espaço, ele vem caçando novas formas algébricas de falar de "amor" e de "sonho". O primeiro substantivo é a argamassa de suas canções, como compositor. O segundo é o alicerce de todos os seus filmes, tanto aqueles fincados no realismo (como "Portugal S.A." e "Kuarup"), quanto os mais flutuantes (o febril "Quase Memória"). É o indício de que sua dramaturgia tem vértices na geometria da abstração. Não por acaso, ele levou o Cavaleiro da Triste Figura ("Dom Quixote") aos palcos duas vezes, em 2007 e em 2023.

"A Fúria" se mantém... plasticamente, sobretudo... nessa linha de desafiar a concretude do real (e de seu par dramatúrgico, o realismo), assumindo um formato de fractal, entre a fábula e um encapsulamento teatral do plano. Colabora para isso o uso do video mapping (projeção de imagem em larga escala) a fim de construir cenários, reproduzindo geografias diversas. Lembra "Sin City" (2005), até certo ponto, só que de uma brasilidade latente, de colorido pulsante. Tal engenho, contudo, não cria ilusões. O lado brechtiano que Ruy carrega consigo convida a um perene distanciamento do que é ilusório, sobretudo da retórica partidária.

Por isso, sua razão de ser é política, o que dá ao seu roteiro um tom de charge e um ethos de alegoria moral. Conversa mais com um certo Pasolini dos anos 1960 e 70 (entre "Pocilga" e "Os Muros de Sana") e com "O Inspetor Geral", de Gogol, do que com os exercícios audiovisuais do presente. Carrega ainda um certo elogio ao tempo, ao rever (e reviver) o Cinema Novo, o movimento de modernização de nosso discurso estético (na tela grande) do qual Ruy foi um dos pilares.

Filmado no Polo do Audiovisual, em Jacarepaguá, "A Fúria" testemunha o empenho de Mário na peleja por um acerto de contas com dois poderosos que o traíram - e, de forma simbólica, deram uma rasteira no "sonho brasileiro", a nossa maior ficção. Um deles é seu sogro, hoje um barão da construção civil, Salatiel (Lima Duarte, em estado de graça), bilionário que financia campanhas parlamentares. Um de seus apoiadores é o outro traidor: Feijó (Daniel Filho), candidato à presidência da Câmara dos Deputados. A atuação de Daniel é de um viço raro.

Renascido, mas sem poderes, o Mário encarnado num Blat de verve ultrarromântica soa qual um ente desterrado e desterritorializado. Como o filme se desenha a partir de sua ira, sua narrativa (de uma poesia acachapante) configura um universo à parte, singular, entre o real e a fantasia, onde o mundo dos vivos e o mundo dos mortos ganha uma estética expressionista, antinaturalista, na iluminação, na cenografia, na dramaturgia e na mise-en-scène.

Acolhido pelo indígena Palavra (Urutau Guajajara), Mário conta, ainda, com a ajuda de três mulheres — a deputada em ascensão Petra Machado (Grace Passô, um sol em cena), a líder de facção paramilitar Monalisa (Lux Nègre) e Laura, a neta de Salatiel, encarnada por uma Simone Spoladore com ares de valquíria.

Esse exército cobra do poder apenas atenção e escuta. Não é um delírio utópico. Não é (de modo algum) um filme melancólico, que se agarra ao cinemanovismo para negar o cinema de hoje. É apenas um brado. Só que é um brado com o lirismo de um de nossos mais finos poetas.