Por: PEDRO SOBREIRO

'Que a força esteja com vocês': diretor revela o desafio de migrar uma série para a telona e suas metas na franquia 'Star Wars'

Jon Favreau dirigindo o ator Pedro Pascal (Mandaloriano) e o pequeno Grogu animatrônico nos sets de filmagem de 'Star Wars: O Mandaloriano e Grogu' | Foto: Divulgação/Lucasfilm


Em 21 de maio, os fãs brasileiros voltarão aos cinemas para conferir 'Star Wars: O Mandaloriano e Grogu', novo capítulo de 'Guerra nas Estrelas', dá continuidade aos eventos da série 'O Mandaloriano', fenômeno de público e crítica do Disney . Após três temporadas, o Mandaloriano chega às telonas ao lado do bebê mais amado dessa galáxia muito, muito distante: o Grogu. Ambientada após os três filmes originais da franquia, essa aventura acompanha Din Djarin (Pedro Pascal), o Mandaloriano, que viaja de planeta em planeta com Grogu, atuando como caçador de recompensas. Dessa vez, com a queda do Império, a dupla vai atrás de antigos guerreiros imperiais que vivem escondidos nos confins da galáxia.

A convite da Lucasfilm, o Correio da Manhã foi o representante brasileiro numa roda de conversa exclusiva com o tarimbado diretor Jon Favreau (de "Homem de Ferro"), que compartilhou as responsabilidades que, enquanto fã da saga, o guiaram neste projeto.

"A gente tem que entender que há pessoas que não são velhas o bastante para terem visto 'Star Wars' nos cinemas. Estamos falando de gente que nunca viu ou talvez só tenha visto em casa, mas eu quero que essas crianças sintam o que eu senti quando vi 'Star Wars' pela primeira vez. Para mim, essa é uma das responsabilidades no filme. Muitas pessoas associam a saga a um conteúdo que você assiste em casa. Embora, para mim, a franquia sempre tenha sido sobre multidões apaixonadas. Então, temos que apresentar novos públicos a esse 'Star Wars', mas também temos que dizer às pessoas que isso é algo que você, se tirar um tempo para ir ao cinema, terá uma experiência recompensadora", comentou o realizador.

Macaque in the trees
Grogu e o Mandaloriano terão a relação de pai e filho ainda mais desenvolvida nas telonas em um faroeste espacial | Foto: Divulgação/ Lucasfilm Ltd™

Outra novidade é que pela primeira vez na saga o público verá personagens que nasceram no streaming ganhando uma chance nos cinemas. Para Favreau, criador da série, a grande diferença dessa transição foi ter mais tempo para trabalhar e criar a melhor experiência possível. "A diferença entre um programa de TV e um filme, especialmente quando o programa de TV é bem cinematográfico, é que tínhamos duas coisas a nosso favor. Uma é o tempo. Durante a série, nós tínhamos menos de um ano para entregar as temporadas, então tivemos que desenvolver tecnologias como o 'The Volume' [telão de LED que projeta cenários em profundidade, substituindo as telas verdes] que nos permitiu construir efeitos e cenários na própria tela para que pudéssemos entregar o projeto e obter qualidade cinematográfica em metade do tempo. Para o filme, tivemos muitos anos para trabalhar, o que significava que poderíamos construir cenários. E ao construi-los, poderíamos ter diferentes e mais elaboradas sequências de ação. Estávamos começando a ser limitados pelas restrições de filmar com o paredão de vídeo, mas agora temos cenários gigantes: selvas, poços de água... E fomos para locações. Não podíamos fazer nada disso antes", destalhou o diretor, que também adotou a tecnologia IMAX.

"A outra grande diferença é a proporção da tela, o IMAX é um grande negócio agora. Tipo, 'Star Wars' tradicionalmente tem sendo filmado no formato 2:35 de proporção da tela, certo? E tudo o que você poderia fazer nessa proporção da tela foi totalmente explorado ao longo dos nove filmes da saga principal. Agora podemos explorar aquele formato de tela bem maior. E nos envolvemos com o pessoal do IMAX desde o início, viramos parceiros. Fomos à sede deles e assistimos filmes como 'Dunkirk' e 'Pecadores' para observar como essa proporção da tela pode funcionar, como criar uma experiência mais imersiva naquele formato para ser algo realmente diferente da sensação de estar em casa vendo numa TV padrão. Nos dedicamos a preencher todo esse espaço disponível na tela", destavou Jon Favreau.

O diretor também falou sobre desenvolver um filme que demanda que o público já tenha assistido as três temporadas da série. "Tivemos que fazer um filme que não assumisse que o público assistiu a série anteriormente. Porque quando se faz um filme que será exibido em todo o mundo, é preciso considerar que nem todo mundo tem acesso ao Disney . Então, contamos uma história que demanda do público saber apenas que o Mandaloriano é um pistoleiro espacial, que anda por aí com o Grogu, que é esse bebê Yoda adorável. Se você entender essa dinâmica, você vai gostar, porque fizemos como um filme independente. Mas se você assistiu a série desde o início e, a propósito, se você assistiu 'Star Wars' como eu, desde os 10 anos de idade, a partir dos filmes originais, terá muitas surpresas nesse filme", adiantou.

A trama acontece logo após o fim da terceira temporada, mas realmente não será fundamental assistir a série inteira. "Não tenho certeza exatamente em termos de tempo, mas assumimos que é bem próximo do final da última temporada. O Grogu treinou com Luke Skywalker e voltou a viajar como filho adotivo de Din Djarin, que cuida dele como aprendiz. E então é isso. Aquela grande aventura acabou. Eles agora estão juntos na fazenda, como em um velho faroeste, e estão mais seletivos sobre os trabalhos que aceitam, trabalhando para a Nova República, porque ele [Mandaloriano] quer seguir um caminho mais correto agora que é pai e tem esse novo senso de responsabilidade", explicou Favreau.

Amadurecimento

No filme, o Grogu está mais forte do que nunca, mesmo que ainda seja um bebê. Após receber o treinamento Jedi, ele volta a atuar com o pai, que muda suas prioridades para ensinar o caminho correto para o pimpolho. "Por um lado, trazer esse amadurecimento abriu muitas oportunidades para o Grogu, porque ele agora pode fazer muitas coisas mais. Ele foi treinado por Luke Skywalker, tem uma armadura, está mais inteligente, mais velho e aprendeu muito com seu pai e com Luke. E eu acho que isso é o mais legal de 'Star Wars'. Não são apenas os personagens jovens que mudam e amadurecem. Anakin Skywalker teve esse desenvolvimento, se você olhar para ele em seus últimos momentos. Nunca é tarde para crescer, aprender ou se tornar uma pessoa melhor. E eu acho que essa é uma mensagem legal de espalhar para o mundo. Mostrar que você sempre deve se ver, não importa onde você esteja na vida, como se ainda estivesse enfrentando desafios e escolhas para ser uma boa pessoa", explicou.

Outro desafio da produção é encaixar essa dinâmica de pai e filho entre duas espécies com tempos de vida muito distintos. Enquanto o Mandaloriano tem um tempo de vida "normal", seu bebê é capaz de viver por séculos. "Acho que parte disso é o arquétipo do filme de faroeste/samurai, do Mandaloriano ser inspirado no Boba Fett, que foi inspirado no Clint Eastwood, por sua vez. Ele é um pistoleiro dum tipo forte e silencioso. Mas também traz algo mais pessoal. E 'Star Wars' sempre foi bom porque fala sobre tópicos muito relacionáveis de família e sobre a vida, embora seja contado nesse cenário espacial gigantesco. E acho que o relacionamento entre pai e filho, com todas as suas fases, foram coisas que conseguimos trabalhar e que, eu acho, levou pais e filhos a poderem assistir algo juntos, o que não acontece mais com tanta frequência hoje em dia, e acho isso maravilhoso", comentou o diretor.

"Mas sim, por conta da raça do Grogu que vive séculos, se eles viverem uma vida segura, o Mandaloriano morrerá e o Grogu ainda será muito jovem. Isso é uma dinâmica muito diferente. 'O Senhor dos Anéis' também tinha algo parecido com os elfos, e eu sempre achei que era uma dinâmica emocional convincente porque ele viverá muito, talvez por séculos. Do outro lado, sabemos o que vai acontecer depois um certo tempo, não é? Porque estamos em um lugar único nessa linha do tempo, onde estamos entre 'O Retorno de Jedi' e 'O Despertar da Força'. Então, para todas essas histórias, a gente tem de lidar com essas questões. Tipo, onde eles estão? O que aconteceu? Por que eles não estão nessas outras histórias? Onde eles estavam? E isso é algo que discutimos muito. E Dave Filoni [Presidente da Lucasfilm] é muito bom nisso".

Favreau comemorou o fato de trabalhar com um dos maiores "crânios" do mundo quando o assunto é 'Star Wars'. "Dave é o nosso grande guia. Ele trabalha com George Lucas há mais de uma década e ele é fã de 'Star Wars' desde o início. Tem um profundo conhecimento deste universo e conhece o público como ninguém, além de saber muito sobre narrativa e mitologia. Então, é a ele a quem eu recorro para tirar dúvidas, saber se uma ideia pode funcionar. E mesmo nunca tendo errado, ele segue nos ouvindo. Aprendi a sempre ouvir o que ele tem a dizer, porque tem um senso muito bom de como as coisas vão funcionar em cena. E um caso engraçado é que precisamos convencê-lo sobre o Grogu. No início, ele estava relutante em ter outro personagem da espécie do Yoda. Essa foi uma decisão que só aconteceu após ele expressar suas preocupações com os rumos que o bebê poderia tomar, mas acabou sendo uma boa decisão da qual ele está feliz de ter acatado. Conversamos muito e suas ideias nos ajudaram a achar o tom ideal do bebê Yoda. E 'Star Wars' tem um fandom gigantesco, cada um dos fãs tem sua própria perspectiva. O ponto principal é que você tem que contar uma história realmente boa, os fãs querem uma história boa de verdade, é isso que une todos", explicou.

 'Star Wars: O Mandaloriano e Grogu' estreia nos cinemas brasileiros em 21 de maio de 2026.