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Fervura máxima

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Dono de um CEP que já remeteu a potência cinematográfica do Brasil para vários cantos do mundo no formato curta-metragem, o Rio Grande do Sul de "Ilha das Flores" e "O Natal do Burrinho", a produção gaúcha de 14 minutos "Banho Maria" ferveu o BAFICI, em Buenos Aires, com as águas aquecidas de um parque aquático. Um resort repleto de estátuas tamanho GG de dinossauros fofuchos serve de cenário a uma celebração do ócio na luta contra a tirania laboral de um mundo em escala 24/7, saindo do festival portenho com o FilmsToFestivals, um prêmio de melhor curta-metragem latino-americano que abrangia todas as seleções competitivas.

A meticulosa direção de Gabriel Faccini faz dele uma aposta forte no circuito de mostras competitivas, sobretudo quando a plateia embarca nas atuações de Silvana Rodrigues e Lukas Rodrigues. Exibida na competição internacional oficial do evento, essa crônica sobre escolhas acompanha uma manhã de calor escaldante em que uma mulher decide faltar ao trabalho, quando já estava na plataforma ferroviária. O gesto simples de "matar" as tarefas do dia se desdobra em múltiplas camadas de leitura sobre tempo, exaustão e desejo.

"Quando estávamos desenvolvendo o roteiro para 'Banho Maria', eu e a Silvana Rodrigues - que é a corroteirista e também protagoniza o filme - pensamos, em primeiro lugar, nas nossas experiências compartilhadas. Em nossas angústias e sonhos", explica Faccini ao Correio da Manhã. "O filme começou a ser escrito ainda na pandemia e, muitas vezes, nossas reuniões de roteiro soavam mais como terapia. Aos poucos, fomos entendendo que nos interessava falar sobre temas intrinsecamente relacionados com a experiência da classe trabalhadora, com uma escala de trabalho extenuante, além da ansiedade climática e do pouco espaço que encontramos para o ócio em nossas vidas. Por outro lado, nossa intenção foi encontrar uma abordagem mais sensorial destas questões, numa forma que brincasse com as diferentes escalas de tempo a que somos submetidos. Talvez o mundo esteja acabando, mas precisamos acordar amanhã cedo para ir trabalhar. Há uma melancolia do cotidiano em confronto com o catastrofismo dessa quadra da História humana".

É nesse tensionamento que a dramaturgia da Banho Maria se estabelece, segundo Faccini: "Não sei se necessariamente buscamos levar uma representação específica para o exterior, mas sem dúvidas há uma potência em duas personagens negras optando por um dia de folga em um parque aquático em meio à semana".

A passagem pelo BAFICI revelou ao realizador um panorama vibrante do cinema argentino, mesmo diante de cortes recentes no financiamento. Pulsante é o adjetivo do diretor para falar do que viu da filmografia mais recente de nuestros hermanos em tempo de Javier Milei na presidência, com um conservadorismo avesso à cultura.

"Na própria Mostra Competitiva Internacional, da qual 'Banho Maria' fez parte, tive a oportunidade de assistir três filmes argentinos, muito diferentes em suas propostas e todos executados de forma primorosa. Penso que no Brasil passamos por momentos muito parecidos em termos de escassez de recursos e essa é uma realidade que nos força, enquanto realizadores, a encontrar alternativas criativas para o setor. Foi muito rico poder trocar com cineastas das mais diversas regiões do mundo e perceber que, mesmo na nossa variedade de temáticas e abordagens, conseguimos nos conectar com as histórias contadas", ediz Faccini. "O BAFICI programa um grande número de filmes e é incrível ver as salas quase sempre lotadas, mesmo em horário comercial, em dias de semana. Isso demonstra uma cultura cinematográfica consolidada e um interesse real do público por consumir cinema, em todas as suas formas".

Novos planos para "Banho Maria" e para a carreira do realizador já estão em curso.

"O filme está no início de sua caminhada. Espero que ele possa ser visto pelo máximo de pessoas possível, o que, no contexto de um curta, significa o circuito de festivais. Eu me empolgo com a perspectiva de poder trocar ainda mais a partir de 'Banho Maria' no futuro, e este é um dos motivos por que fazemos cinema", explica Faccini. "De minha parte, estou em processo de montagem de um longa documental e prestes a iniciar a pré-produção de um outro longa ficcional, que produzo, e provavelmente rodaremos no início de 2027. Num âmbito mais pessoal, pretendo continuar fazendo cinema com minhas amigas e amigos. No fim das contas, a maior parte do nosso trabalho acontece durante o processo, muito mais do que nos resultados, nos filmes prontos. Então, pretendo continuar propondo e participando da construção dos melhores, mais agradáveis e mais satisfatórios processos criativos que conseguir".