Ele pode estar saindo de cartaz, mas vale a pena assistir. "Nuremberg", com Russell Crowe e Rami Malek, é mais do que uma aula de história remete ao livro "O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg, muito familiar aos estudantes de História. Seu enredo é baseado no Tribunal de Nuremberg, que condenou os prisioneiros vivos da cúpula do Partido Nacional-Socialista Alemão, o Nazismo. O grande nome a ser julgado era Hermann Göring (Russell Crowe), o marechal do Reich e o segundo homem da Alemanha de Hitler.
Ele se rende amigavelmente, pensando em ter um tratamento melhor pelo exército dos Estados Unidos, mas ele é igual ao dos outros capturados. Na prisão, o psiquiatra Douglas Kelley (Rami Malek) tem a missão de estudá-los e não fazer com que cometam o suicídio, para serem enforcados e servirem de exemplo para o mundo.
O médico, assim, torna-se o ponto-chave da trama e também o personagem que remete à analogia com o clássico de Ginzburg. Se no livro do historiador italiano a narrativa se passa pelo olhar de um camponês, aqui ela se desenvolve a partir dos acontecimentos observados por Kelley. É aí que entra uma das grandes transformações da História, promovida por obras como "A EScola dos Annales", de Marc Bloch e Lucien Febvre, na qual outras categorias, além da política e da economia, passaram a descrever os fatos.
A chamada micro-história ou "história vista de baixo" nada mais é do que utilizar um personagem de menor importância para contar um grande acontecimento. Ginzburg relatou a Idade Média por meio da vida de um camponês. Já no filme, as anotações de Kelley nas conversas com os nazistas viram o clímax da trama. Seu diário se transforma em fonte preciosa para tentar fazer com que os prisioneiros nazistas venham a ser incriminados por seus crimes contra a humanidade.
Mais do que o relato de um fato marcante da recente história mundial, "Nuremberg" é, nas entrelinhas, uma bela aula de Teoria da História para ser assimilada não apenas por estudantes, professores e pesquisadores, mas também pelo grande público.