Primeiro veio a Berlinale, em fevereiro, na mostra competitiva Perspectives, e com ela se depositaram aplausos, elogios, consagração em variadas línguas e a certeza de que "Nosso Segredo" é aquele tipo de "filme de estreante" que nasce inesquecível. Agora é a vez do BAFICI - Festival Internacional de Buenos Aires. Ou seja, o jogo agora é em casa... a América do Sul, a terra das muitas feridas abertas pelo colonialismo que a atriz Grace Passô busca expor em seu primeiro longa-metragem como realizadora. Ela está no evento argentino na competição oficial principal, onde o Brasil emplacou ainda um curta, "Banho Maria", de Gabriel Faccini. Sábado será o dia de premiação. Grace tem forte chance de ser laureada. Sua direção esbanja destreza.
Uma das atrizes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século 21, famosa pela trajetória nacional da peça "Vaga Carne", Grace se consolida num novo front de criação, agora também como cineasta. Não há boca em solo portenho que não elogie o drama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de "Amores Surdos", texto teatral de autoria da própria Grace. A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura a "Nosso Segredo" um aspecto crepuscular. Seu enredo mistura finitude, recomeço e perenidade. Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do que é crível.
Mundialmente elogiada por sua atuação em "Temporada" (2018) e "O Dia Que Te Conheci" (2023), Grace compartilha com o Correio da Manhã seus achados em "Nosso Segredo".
O que você traz do teatro para a sua direção no cinema? Quanto de teatro está presente quando você dirige?
Grace Passô - Tenho uma espécie de pacto comigo mesma: fui passando por várias funções — comecei como atriz, depois fui estudar, dirigir, escrever — sempre guiada por uma intuição, por imagens e formas que surgem na minha cabeça. Como este foi o meu primeiro longa, esses limites ainda não são muito nítidos pra mim. É tudo muito misturado. Mas percebo que há um trânsito, no filme, entre um pseudo-realismo e um modo de incorporar o surreal. Isso, sem dúvida, vem da minha vivência no teatro. Para mim, o teatro não é uma arte realista. Ele opera com outros códigos, com outro tipo de verossimilhança. A própria situação teatral já é de outra ordem. Então, quando levo isso pro cinema, existe esse trânsito entre o realismo e o que não é realismo — que pode ser o surreal. Eu acho que isso tem a ver com a ideia de teatralidade, que é diferente de teatro. A teatralidade é uma dimensão que sublima o cotidiano. E esse exercício de sublimar o realismo vem muito da minha relação com o teatro.
O seu filme lida com o luto, mas parece mais um abraço do que um choro. De onde vem esse tom mais prospectivo, quase otimista?
Isso vem de muitos lugares, mas principalmente da minha visão sobre as comunidades negras. As grandes tragédias que atravessaram essas comunidades foram enfrentadas muito por meio do afeto, do amor — sem romantizar — e também por organização e espiritualidade. Existe uma força coletiva muito grande aí. As famílias negras sobreviveram à miséria e à violência se unindo nos momentos difíceis. Isso me marcou muito desde a infância. Essa ideia de esperança vem desse lugar: de como conseguimos sobreviver juntos a uma história tão dura. Tem uma imagem que eu adoro: na casa da minha infância, onde "Nosso Segredo" foi filmado, havia um portão muito emperrado. Ninguém consertava, mas, ao mesmo tempo, era preciso juntar todo mundo da família pra conseguir abrir. Isso virou uma metáfora muito forte pra mim. Essa união diante do problema, essa necessidade de estar junto, é algo que está muito presente no filme.
O filme reúne várias gerações. O que significa "família" para você dentro dessa narrativa?
Família, para mim, é comunidade. Família é um pacto: de memória, de tempo, de convivência. É também um segredo. A família é o nosso maior segredo. A ideia de família na Europa é muito distinta da nossa. E também existe um desafio em relação às questões raciais. Quando falo de preto e branco, não estou falando apenas de cor da pele, mas de estruturas, de História, de luta de classes, de periferia.
O que o cinema passou a representar na sua trajetória artística desde "Praça Paris", que lhe rendeu o troféu Redentor no Festival do Rio, em 2017, e te apresentou ao audiovisual em larga escala?
O cinema expandiu minha noção de linguagem. Não só de falar sobre as coisas, mas de buscar a beleza. E não estou falando do belo clássico, mas da beleza como construção coletiva, como algo que ainda pode ser inventado. Fazer arte, pra mim, tem a ver com isso: criar novas formas de beleza, imaginar o que ainda não existe. O cinema me colocou em movimento e também trouxe novos problemas. Coisas que venho pensando há anos explodiram em novas possibilidades. Hoje, pra mim, o teatro já é outra coisa. Esse deslocamento foi importante, porque faço teatro desde muito jovem, desde os 13 anos. Teatro é quase uma espiritualidade pra mim. O cinema ampliou minhas possibilidades, mas também aumentou o desafio.
Você tem novos projetos pela frente?
Vai estrear agora a nova temporada de "Sessão de Terapia", no Globoplay, onde faço a supervisora do terapeuta vivido pelo Selton. E também estou aguardando o lançamento de um filme dirigido pelo Ricardo Alves Júnior, que deve estrear em breve.