Por: Rodrigo Fonseca

Porvires para o cinema argentino

Pilotado por Marcelo Pyñero, "La Verdadera Historia de Ricardo III" rimbombou no mês passado pelas telas de Málaga, na Espanha | Foto: Divulgação

Salivando pela série baseada nas HQs de Mafalda na Netflix, a Argentina acredita que seu filme mais badalado de 2026 será “Lo Dejamos Acá”, que - estima-se - tem chances de ir para o Festival de Cannes (de 12 a 23 de maio). Nesse aguardado longa-metragem, sob a realização de Hernán Goldfrid, a estrela mais pop da Argentina, Ricardo Darín, contracena com Diego Peretti, outro bamba da arte das bossas de encher salas. Na trama, um psicanalista de prestígio que perdeu a fé na terapia começa a manipular os seus pacientes em segredo, alcançando resultados dos mais surpreendentes. Sua metodologia desmorona quando um escritor bloqueado entra em seu consultório em busca de ajuda. Estima-se ainda que, na seara dos festivais, com a ajuda de Cannes mesmo, “La Libertad Doble”, de Lisandro Alonso, vire um frisson mundial, ampliando o interesse da cinefilia portenha por um de seus mais ousados criadores de imagem. Essas duas produções não saem dos papos de correr do 27° BAFICI, o Festival Internacional de Buenos Aires. Lá estão 147 produções gestadas na capital argentina e seus arredores, apesar dos boicotes impostos por Javier Milei.

A produção recente de nuestros hermanos estará bem representada ainda por “La Verdadera Historia de Ricardo III”, de Marcelo Piñeyro, que, há cerca de um mês, brilhou no Festival de Málaga, na Espanha. Baseada na peça teatral homônima de Adrià Reixach, dirigida nos palcos com Calixto Bieito, a nova experiência narrativa do diretor de “Plata Quemada” (2000), com Joaquin Furriel, evidencia o quanto o cinema da Argentina se empenha para sobreviver mesmo sob a geada política que tenta frear as vozes criativas avessas ao jugo de Javier Milei na presidência.

Outras expressões poéticas daquela pátria ecoaram forte no exterior antes, via Berlinale, como “El Tren Fluvial”, de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, e com “Hangar Rojo”, uma parceria com o Chile. Ambas estarão em competição no BAFICI, que preparou uma retrospectiva da diretora Liliana Paolinelli premiada na seção hispânica do Festival de Gramado de 2008 com “Por Sus Propios Ojos”. A mostra dedicada a esta realizadora de Córdoba contará com longas, curtas e médias-metragens inéditos, revelando uma artista inquieta numa faceta anterior à sua chegada ao reconhecimento público. O foco inclui “Los Días De La Regla” (2003), “!Motín!” (1996), “El Otoño” (1994), “Los Pasos En La Habitación” (1992) e “El Circo” (1989).

O BAFICI segue até o dia 26. Nesta quarta, às 18h35, no Cinépolis Plaza Houssay, a Argentina confere, na grade do evento, “O Rei da Internet”, um potencial blockbuster, com direção de Fabrício Bittar. João Guilherme revive a saga de um adolescente se destacou como um dos maiores hackers do Brasil e integrou uma organização criminosa movida a milhões de reais até ser alvo de uma operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos.


Um olhar estrangeiro sobre nossa nação pontua “The Brazilian Inferno”, no qual Mirko Stopar, cineasta de Oslo, documenta a memória de noruegueses aqui radicados em 1923. Passa em Buenos Aires no dia 23, às 20h50, no Cacodelphia.