Énotável a entrega de Angelina Jolie ao calvário que "Vidas Entrelaçadas" ("Couture") lhe oferrce, num ensaio sobre moda em que se atomizam vaidades. A passagem tempestuosa do filme pelo Festival de San Sebastián, na briga pela Concha de Ouro de 2025, em setembro, foi um termômetro do estado de coisas que cercam uma estrela outrora tratada como um símbolo da consagração pela em âmbito hollywoodiano.
La se vão 26 anos desde que Angelina ganhou seu primeiro e (até agora) único Oscar, de Melhor Coadjuvante em "Garota, Interrompida", tendo concorrido uma vez mais com "A Troca", de Clint Eastwood, em 2009. Seu currículo tem caça-níqueis ("Tomb Raider","Salt") e iguarias de tom político ("O Preço da Coragem"), com direito a bons trabalhos limitados só à sua voz, em animações ("Kung Fu Panda"). Fez exercícios de muito respeito como diretora também.
Exibido no Festival do Rio de 2012 e indicado ao Globo de Ouro, "Na Terra De Amor E Ódio" fez ela ser cineasta, num pleito antibélico. O problema: para uma estrela capaz de arrebatar a cinefilia, faz tempo... demais... que ela não emplaca um blockbuster... ou um êxito na seara da invenção em títulos de mais ambição formal do que comercial. A incursão que fez na Marvel, em "Eternos" (2021), a fim de filmar com a prestigiosa diretora Chloé Zhao, deu água e flopou. Nas franjas das narrativas de risco, ela até brilhou em "Maria Callas" (indicado ao Leão de Ouro de 2024), na pele de diva máxima da ópera, mas não obteve troféus de respeito pelo esforço que fez. Em meio aos contratempos pessoais da dissolução de seu casamento com Brad Pitt, num conflito midiático penoso, com saldos disruptivos para os filhos do ex-casal, a californiana de 50 anos não emplaca um fenômeno do porte de "Malévola" (que arrecadou US$ 760 milhões), há uma década. Para piorar, seu pai, o ator Jon Voight, virou apoiador de Donald Trump.
Apesar desses quiproquós que a quizilam, "Vidas Entrelaçadas", vindo da França, oxigena sua trilha profissional. Em parceria com a grife autoral da cineasta Alice Winocour (de "Cinco Graças"), Angelina tem a maior atuação de sua carreira em duas décadas.
Construída como um painel de personagens que se tangenciam, mas seguem eixos próprios, numa dinâmica chamada de filme-coral, a narrativa de "Vidas Entrelaçadas" decorre durante a Semana da Moda de Paris. Na Cidade Luz, os caminhos de três mulheres se cruzam. Maxine (Angelina), uma cineasta americana, descobre ter câncer de mama e, com medo da doença, envolve-se com seu fotógrafo (Louis Garrel) para além dos cliques. Ana (Anyier Anei), estudante de Farmácia vinda de Nairóbi, desponta como a nova estrela das passarelas, apesar dos dilemas em seu lar. Angèle (Ella Rumpf, em inquietante interpretação), é uma maquiadora francesa, que trabalha nos bastidores dos desfiles enquanto tenta publicar um livro. Quando as suas trajetórias se encontram, a trama filmada por Alice revela a resiliência discreta que se esconde por trás dos holofotes e presta homenagem aos laços tácitos de solidariedade que estas pessoas - diferentes em profissão, cultura e origem - partilham.