Das mais respeitadas maratonas cinéfilas da América Latina, o Festival de Buenos Aires recebe uma leva de produções brasileiras com direito a humor, escatologia e realidade
Rivalidades futebolísticas que acirraram historicamente antipatias entre argentinos e brasileiros não infectam a admiração de nuestros hermanos de América do Sul pelo cinema feito aqui - do Acre ao Rio Grande do Sul -, como comprova a maciça presença nacional - com dez títulos inéditos, mais o resgate de um clássico da década de 1950 - no BAFICI, o Festival de Buenos Aires. A 27ª edição da maratona cinéfila mais prestigiosa da Argentina abriu duas vagas para o Brasil em sua competição estrangeira principal, onde concorrem o curta "Banho Maria", de Gabriel Faccini, e o longa "Nosso Segredo", que a atriz e dramaturga Grace Passô projetou antes, na Berlinale. O filme dela, a ser exibido só na próxima terça, acompanha a dor de uma família diante de vivências variadas do racismo. Faccini, por sua vez, foca numa manhã de calor escaldante, em que uma mulher falta ao trabalho.
Sua narrativa passa neste sábado, às 18h50, no Cine Teatro Alvear. No domingo, pela manhã, é a vez de a animação verde e amarela (com a licença do uso de muitas outras cores) encantar o Cinepolis Recoleta com "Papaya", de Priscilla Kellen, também projetado no Festival de Berlim.
Banho de sinestesia, com um colorido lisérgico sintonizado com a musicalidade de Tulipa Ruiz, esta aventura com nome de fruta, a um só tempo ecológica e existencialista, segue os rastros de um carocinho de mamão que não aceita se fincar na terra para firmar raiz e estagnar. Sua edição, numa montagem melíflua de Elaine Steola, é de uma destreza ímpar.
Neste sábado, às 14h10, no Cine Arte Cacodelphia 3, o bonde do cinema nacional no BAFICI .27 se amplia com a projeção do documentário "Quando o Brasil Era Moderno", de Fabiano Maciel. O diretor retoma uma discussão sobre a arquitetura brasileira, em sua vertente revolucionária, ao longo do século 20, quando influenciou gerações de artistas no mundo todo. O roteiro abre um debate sobre a relação entra escolha de estilo arquitetônico e escolha de um projeto para o país, como a disputa que começou nos anos 1930, com a construção da sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, e teve seu auge com a inauguração de Brasília, em 1960.
No próximo dia 21, data da sessão de "Nosso Segredo", o Brasil toma o BAFICI para si com uma caravana, começando por "A Voz de Deus", de Miguel Antunes Ramos. Nesse documentário, duas crianças pregadoras buscam um caminho para uma vida melhor por meio da fé. Daniel Pentecoste, 17, foi o pregador infantil mais famoso do país, mas conforme cresce enfrenta a frustração de um futuro incerto. João Vitor, 12, está no auge, com um milhão de seguidores. O longa revela as infâncias escondidas sob a construção de duas figuras públicas, na interseção de política com a religião. Passa 18h15, no Cine Arte Cacodelphia.
Antes, às 17h10, no Cinépolis Recoleta, tem projeção do "filme-delícia" da Berlinale 2026, com ar de "Sessão da Tarde", para se ver de mãos dadas: "Isabel". Bem escudado pelo esmero de seu produtor (Rodrigo Teixeira, de "Ainda Estou Aqui"), essa trama sobre vinhos, verdades entaladas e reinvenções dá à multiartista Marina Person - a VJ que apresentava os melhores videoclipes da Terra na MTV - a chance de se firmar como atriz, numa atuação boa à beça.
"A Isabel é mulher que, aos 50 e poucos anos, para, olhe e diz: 'Será que eu quero continuar a viver tudo do jeito que está?'. O sonho a faz ir adiante", disse Marina ao Correio da Manhã.
Tem uma SP com cara de Irajá, mais suburbana, de casinhas coloridas, nessa trama filmada pelo do diretor paulista Gabe Klinger. Nesse local, a sommelier Isabel zanza entre o chamego do DJ francês Fred (Gregory Chastang) e a amizade pétrea do futuro expert em bebidas Nico (Caio Horowicz). Ela está cansada de seu patrão, o chef Tommaso (Marat Descartes) e pensa em mudar de ares, abrindo um bar de vinhos nacionais.
Rodrigo Teixeira, em sua RT Features, produziu outra iguaria brazuca deste BAFICI, que antes fez barulho no Festival de Roterdã, na Holanda: "Privadas de Nossas Vidas", de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. A sessão será 19h55, também no complexo da Recoleta Martha Nowill, em estado de graça, é uma promotora de festas que sofre com a morte de seu filho (e com uma prisão de ventre somática) numa São Paulo assombrado por espectros fãs de dejetos. Às 23h, nesse mesmo conjunto de salas, Vinagre volta para exibir outro trabalho (rodado em duo com Vinicius Couto): "A Paixão Segundo G.H.B.", uma odisseia queer de revisão de prazeres.
Na quarta, às 18h35, no Cinépolis Plaza Houssay, a Argentina confere "O Rei da Internet", um potencial blockbuster, com direção de Fabrício Bittar. João Guilherme revive a saga de um adolescente se destacou como um dos maiores hackers do Brasil e integrou uma organização criminosa movida a milhões de reais até ser alvo de uma operação da Polícia Federal — tudo isso antes de completar 17 anos.
Um olhar estrangeiro sobre nossa nação pontua "The Brazilian Inferno", no qual Mirko Stopar, cineasta de Oslo, documenta a memória de noruegueses aqui radicados em 1923. Passa em Buenos Aires no dia 23, às 20h50, no Cacodelphia. O resgate histórico deste BAFICI é a cópia restaurada de "Vento Norte", lançado pelo gaúcho Salomão Scliar (1925-1991) em 1951. Filmado em preto e branco e rodado na cidade de Torres (RS), o longa, pioneiro em seu estado no uso de som, retrata a rotina de uma vila de pescadores impactada por uma ventania que afasta os peixes e aprofunda a fome. A vinda de um forasteiro vai ampliar o tônus trágico do local. Tem projeção dele neste 17/4, às 13h30, no Teatro San Martín, e na quinta-feira, às 18:45, no Cine Arte Cacodelphia.
O BAFICI termina no dia 26 de abril.