Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

João Vitor Silva, um talento com 'estado de presença'

Murilo (João Vitor Silva) se encontra em apuros na boca de Sapinho, traficante mau de 'Cinco Tipos de Medo' | Foto: Divulgação

O Tabuada da série 'Impuros', ator carioca - destaque em 'O Agente Secreto' - faz seu ninho sob os holofotes com o filme 'Cinco Tipos de Medo', antes de atuar na nova novela das nove

Mangaba, fruta que se espera cair do pé, ganhou um outro sabor... um gostinho de mistério e de ironia... ao virar o objeto de um dos diálogos mais divertidos de "O Agente Secreto", na boca de João Vitor Silva. Há uma semana, o ator de 29 anos vem alentando miocárdios entre os fãs de quadrinhos que foram conferir, na telona, a produção vencedora do Kikito de Melhor Filme do último Festival de Gramado, o thriller mato-grossense "Cinco Tipos De Medo". O alento vem da reflexão de seu personagem sobre o super-herói Wolverine, dos X-Men, e seus poderes de autorregeneração.

Macaque in the trees
O ator contracenou com Wagner Moura em 'O Agente Secreto' | Foto: Divulgação

Quem acompanha o trabalho de João, no papel de Tabuada, no sucesso serializado "Impuros", já foi brindado com sua habilidade de fazer as coloquialidades do carioquês soarem feito falas de Shakespeare. Bons roteiristas com que cruzou devem levar o crédito também... fato. Mas não adianta uma fala bem escrita no lábio de um intérprete sem paixão. No caso desse carioca do Santa Marta - o décimo filho de uma família sem muito dinheiro no bolso, mas com muita garra no coração -, curiosidade (pelo mundo) se soma à passionalidade na hora de atuar. E lá se vão 25 anos que ele vem atuando assim.

"O que mais conta na hora de eu construir um personagem é o que eu chamo de estado de presença, ou seja, estar atento para a vida. E não há nada melhor do que estar atento à vida, na arte. Se eu estou presente, na escuta, na vivência, e cai um copo em cena, fora de hora, num acidente, eu não paro a tomada; eu incorporo aquilo, eu somo o acaso. O barato é esquecer que a câmera está ali", diz João Vitor, que trabalha desde pequeno, entre novelas, seriados e filmes, tendo iniciado seu ofício em "O Livro Mágico", da Rede TV, em 2001.

Na sequência, em 2003, fez "Kubanacan", na TV Globo, onde participou de acertos como "Verdades Secretas" (2015) e "Garota do Momento" (2024). Ao longo de duas décadas e meia de profusão, depurou um estilo que impressiona cineastas do mais alto quilate autoral.

"Vitor é um grande ator e tem muita presença de tela, que é tudo que o cinema pede de um intérprete", avalia Kleber Mendonça Filho, um ex-crítico de cinema do Recife que, no posto de realizador, rendeu ao Brasil indicações ao Oscar e o Prêmio de Melhor Direção em Cannes... e isso só com "O Agente Secreto". "João Vitor é verdade, é de verdade, que é tudo que a câmera pede. Foi um prazer muito grande trabalhar com ele, com quem espero trabalhar de novo. No 'Agente', ele interpreta Haroldo, um carioca que está passando um momento ruim, escondido no Recife. Ele faz parte do grupo extraordinário de pessoas que interagem com o personagem de Wagner. Eu sempre falo que não tem personagem pequeno. Alguns personagens fazem parte da trama e precisam ser verdadeiros antes mesmo de abrirem a boca. E isso é o que faz um grande ator. O João Vitor é um deles".

Essa busca pela verdade que Kleber enxerga no astro também contagia "Cinco Tipos De Medo". Convulsivo do início ao fim, o longa também rendeu a seu diretor, Bruno Bini, troféus Kikito de Melhor Montagem e de Melhor Roteiro (ambos as funções realizadas por ele). O enredo é ambientado em Cuiabá. Nele, João Vitor tem uma atuação devastadora, que impulsiona um poliedro de almas em danação. Ele vive Murilo, um violinista recém-recuperado da covid-19, que se envolve com a enfermeira Marlene (Bella Campos). A jovem é refém, há tempos, de um relacionamento abusivo com um traficante bicho solto, Sapinho (papel do rapper Xamã). O bandidão há de macular ainda o caminho da policial Luciana (Bárbara Colen) - hoje em cruzada de justiçamento - e do advogado Ivan, que (graças à sutileza do sempre eficaz Rui Ricardo Dias) é a figura mais ambígua na tela.

"Todo o elenco se apaixonou pela escrita do Bruno, que confiou a mim um anti-herói de ar silencioso", diz João Vitor. "Na respiração, eu busco o máximo de realismo para essa figura".

Os muitos vértices humanistas de "Cinco Tipos De Medo" vão colidir num caminho sem volta, numa cartografia de ações e reações enquadrada de modo dionisíaco na direção de fotografia de Ulisses Malta Jr. Gramado foi ao delírio com o encaixe azeitado de cada peça da narrativa, produzida por Luciana Druzina.

"João Vitor Silva traz uma verdade muito especial para o Murilo. Como produtora, o que mais me toca no trabalho dele é justamente essa capacidade de fazer o público se enxergar no personagem e, mais do que isso, torcer por ele. O Murilo tem uma humanidade muito forte. Ele é atravessado pela dor, pelo amor, pelo luto, pelas dúvidas, o que traz ele muito próximo da gente. O João tem uma qualidade muito especial: permitir que o público entre no personagem. Ele não impõe a emoção, ele convida o espectador a senti-la com ele", explica Luciana Druzina. "Ter um ator como o João agrega uma profundidade enorme ao filme, porque ele não apenas interpreta o personagem, ele o vive com verdade. E é justamente essa verdade que faz com que a história ressoe de maneira tão forte com quem assiste".

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João Vitor e Maisa interpretam Ronaldo e Bia em 'Garota do Momento' | Foto: Divulgação TV Globo

Além de uma nova temporada de "Impuros", João Vitor terá uma novela nova pela frente: o novo folhetim das nove da Globo, "Quem Ama Cuida", que estreia em 18 de maio. Tem ainda uma leva de filmes ("100 Dias", "Antártida", "Deixa Acontecer") para lançar. Em cada feito desses, ele aporta sua investigação da realidade ao seu redor.

"Trazer um pontinho de crítica para o exercício da arte, quando se tem pessoas de muita seriedade validando suas escolhas, é algo muito importante para um ator encontrar seu caminho", diz João Vitor. "Voltar para a minha base, entender de onde eu vim, rever o Santa Marta, reencontrar meu caminho de partida... essa é a chave".