Apesar de Javier MIlei, um dos maiores festivais da América Latina celebrando a resiliência do cinema argentino
Javier Milei pode tentar o quanto quiser, mas ninguém tira da Argentina a paixão por fazer e ver cinema... dos melhores... como comprovam as 147 produções gestadas na capital daquela nação e seus arredores, incluídas na 27ª edição do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente. O evento é mais conhecido (e querido), como BAFICI. Há 327 títulos em sua grade, repleta de estreias, que vai mobilizar a América Latina a partir desta quinta-feira, com projeções até o próximo dia 26. O Brasil saiu de lá premiado, em 2025, com a láurea de Melhor Curta, por "Minha Mãe É Uma Vaca", de Moara Passoni. Este ano, voltamos ao páreo da competição estrangeira principal, concorrendo com outro curta, "Banho Maria", de Gabriel Faccini, e o longa "Nosso Segredo", que a mineira Grace Passô projetou antes, na Berlinale.
Uma das atrizes de maior prestígio do teatro e do cinema brasileiro no século XXI, famosa pela trajetória nacional da peça "Vaga Carne", Grace, também dramaturga, consolidou-se, em sua devastadora passagem por Berlim, num novo front, o da realização, ao se encher de elogios, no posto de cineasta, por seu trabalho em "Nosso Segredo". Não houve boca em solo alemão que não elogiasse o drama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de "Amores Surdos", texto teatral de autoria da própria Grace. A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade.
Nele, uma família que tem vivências variadas do racismo e de outros mecanismos de exclusão luta para reconstruir sua rotina após a perda recente da figura paterna. Enquanto cada um dribla a dor à sua maneira, o filho caçula guarda um mistério que transcende as bordas do realismo.
"O 'para sempre' para mim são memórias, são afetos comungados, são nossos ancestrais... os mestres que prepararam o meu mundo para o que virá. A ideia de 'para sempre' tem a ver com afeto. A morte é a vida... é 'O' assunto da vida", diz a atriz, laureada com o troféu Redentor do Festival do Rio duas vezes, por suas interpretações em "Praça Paris" (2017) e em "O Dia Que Te Conheci" (2023). "As vidas negras no nosso país são a prova de que o afeto e a admiração entre os integrantes de uma família é o que faz as pessoas resistirem e seguirem em frente".
Com apenas 14 minutos, "Banho Maria" também pode nos trazer prêmios, contando com as atuações de Silvana Rodrigues e Lukas Rodrigues. A trama filmada por Gabriel Faccini fala sobre uma manhã de calor escaldante, em que uma mulher decide faltar ao trabalho.
Quem abre o BAFICI é a prata da casa: a comédia argentina. No caso, a tarefa fica com "Orgullo y Prejuicio", de Matías Szulanski. O longa parte dos sets de uma adaptação do clássico literário de Jane Austen (1775-1817), ambientada na Mar del Plata dos dias de hoje, onde nasce uma ironia feroz. Sua narrativa alfineta o uso da IA e desvela diversas falsidades do dia a dia. É um filme sobre uma filmagem nada simpática, com uma equipe cheia de pretensões e defeitos.
A produção recente de nuestros hermanos estará bem representada ainda por "La Verdadera Historia de Ricardo III", de Marcelo Piñeyro, que, há cerca de um mês, brilhou no Festival de Málaga, na Espanha. Baseada na peça teatral homônima de Adrià Reixach, dirigida nos palcos com Calixto Bieito, a nova experiência narrativa do diretor de "Plata Quemada" (2000), com Joaquin Furriel, evidencia o quanto o cinema da Argentina se empenha para sobreviver mesmo sob a geada política que tenta frear as vozes criativas avessas ao jugo de Javier Milei na presidência.
Outras expressões poéticas daquela pátria ecoaram forte no exterior antes, via Berlinale, como "El Tren Fluvial", de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale, e com "Hangar Rojo", uma parceria com o Chile. Ambas estarão em competição no BAFICI, que preparou uma retrospectiva da diretora Liliana Paolinelli premiada na seção hispânica do Festival de Gramado de 2008 com "Por Sus Propios Ojos". A mostra dedicada a esta realizadora de Córdoba contará com longas, curtas e médias-metragens inéditos, revelando uma artista inquieta numa faceta anterior à sua chegada ao reconhecimento público. O foco inclui "Los Días De La Regla" (2003), "!Motín!" (1996), "El Otoño" (1994), "Los Pasos En La Habitación" (1992) e "El Circo" (1989).
Fazendo jus à sua vocação de revisitar obras completas de diretores originais, este BAFICI cria uma seção paralela para mergulhar na filmografia (pautada pela estranheza) do húngaro György Pálfi, contando com cinco de seus longas-metragens. O todo-poderoso "Taxidermia: Histórias Grotescas", sensação de Cannes em 2006, estará lá, assim como o recente "Hen" (2025), cuja protagonista é uma galinha.
O time curatorial do BAFICI, entre os quais se destaca Javier Porta Fouz, montaram ainda mais dois painéis retrospectivos. Um deles é dedicado ao jovem diretor japonês Yugo Sakamoto, famoso por experimentos de gênero (cheios de sangue) como "Baby Assassins" (2021). O outro é o mestre catalão Pere Portabella, na ativa desde a década de 1960, consagrado por exercícios experimentais como "Nocturno 29" (1969), "Umbracle" (1972) e "Puente de Varsóvia" (1979).
Entre as produções de maior vulto comercial selecionadas pelo BAFICI n°27, espera-se um mar de lágrimas de "La Duse - A Diva Contra O Fascismo" ("Duse"), de Pietro Marcello, de Itália. A narrativa se concentra no último grande ato de uma carreira lendária: depois de um longo silêncio que parecia anunciar o fim de sua trajetória no palco, a atriz Eleonora Duse se confronta com os tempos turbulentos do pós-Primeira Guerra Mundial e com a ascensão do fascismo em Itália. Perante perdas financeiras inesperadas, a diva sente a necessidade de regressar ao palco — o único espaço onde verdadeiramente podia respirar. Valeria Bruni Tedeschi brilha, absoluta, em cena, no papel central.
Quem encerra a maratona portenha é "Power Ballad", de John Carney, com CEP na Irlanda e fôlego para bombar mundo adentro. Em seu roteiro, Rick (Paul Rudd), um ex-cantor de casamentos, conhece o falecido astro da boy band Danny (Nick Jonas) durante um show e os dois se unem profissionalmente. Mas quando Danny transforma uma das músicas de amigo fracassado no sucesso que reacende sua carreira, Rick se propõe a recuperar o reconhecimento que acredita que merece, mesmo arriscando tudo o que lhe importa.
A festa argentina será bonita.