Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

À espera do gol

Parreira, Ronaldo e Zico no documentário sobre o jogador do Flamengo, que estreia em 30 de abril | Foto: Peter Wrede/Divulgação

Na torcida pela campanha da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, uma onda nacional de longas e uma série desafiam um tabu antigo do nosso futebol para fazer dele um blockbuster

Sonha-se... e já não é de hoje... com o dia em que um longa-metragem brasileiro sobre futebol vire blockbuster. "Todos os Corações do Mundo" (1996), de Murilo Salles - registro lúdico da Copa de 1994 -, durante um longo tempo carregou o título de "o documentário nacional mais visto da Retomada", pelo menos até "Vinícius" (2005), sobre o Poetinha, chegar. Vimos "Pelé Eterno" (2004) chutar na trave... ainda que arrecadando uma torcida fiel. Vimos "Linha de Passe" (2008) brilhar em Cannes e tirar da Croisette o prêmio de Melhor Atriz para Sandra Corveloni, mas sem mobilizar as massas.

A dificuldade de uma narrativa audiovisual sobre bola rolando meter um gol de placa na arrecadação é alta... e histórica. Renato Aragão, o Rei Midas da arrecadação, até conseguiu dar uma de artilheiro nesse gramado, com "Os Trapalhões e o Rei do Futebol" (1986), visto por 3.616.696 pagantes. Só que isso foi numa época em que tudo do quarteto Didi, Dedé, Mussum e Zacarias valia ouro, sobretudo com Pelé em campo. Hoje, sem trapalhadas para nos dar suporte, nesta fase em que nossos filmes estão penando para atrair plateias polpudas, apesar de fenômenos localizados (um "Ainda Estou Aqui" de um lado; um "O Agente Secreto" do outro), enxerga-se um bom negócio na onda longas-metragens ligados ao esporte mais amado do país prestes a chegar. "Zico, O Samurai de Quintino", um .doc de João Wainer, é o primeiro de um bonde que se aproxima do circuito nas raias da Copa do Mundo, agendada de 11 de junho a 19 de julho.

Com materiais de arquivo raros e depoimentos de grandes ídolos esportivos, o documentário estreia no dia 30 de abril com fome de salas cheias, apelando para a torcida do Flamengo encher os multiplexes cariocas. Sua narrativa conduz o espectador a um passeio pelo acervo pessoal de Arthur Antunes Coimbra, um craque imortalizado sob a alcunha de Galinho e famoso por seus passes cheios de destreza nos jogos do Flamengo. Entre os muitos resgates históricos feitos sob a direção de João Wainer, encontra-se a icônica camisa 10 usada na final do Mundial de 1981 e registros de uma temporada de Zico no Japão, quando ele virou peça fundamental para o desenvolvimento do futebol nipônico, treinando atletas asiáticos. Um dos empenhos da produção é driblar traços do machismo e escala vozes femininas, entre as quais a da companheira do jogador, Sandra.

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'Teste Para Cardíaco' carrega os temperos do Pará em sua narrativa | Foto: Divulgação

Ainda este mês, o Pará se faz notar na cena cinematográfica do Brasil com a ficção "Teste Para Cardíaco", de Fernando Segtowick, que finta o universo do futebol. Sua narrativa é fruto do projeto Telefilmes Regionais da TV Globo, em parceria com a TV Liberal. Em seu enredo, dois irmãos — que no passado foram promessas futebolísticas — são obrigados a voltar ao campo e jogar juntos em um campeonato entre feirantes. Em meio à rivalidade entre as equipas Remo e Paysandu, o reencontro, dentro e fora de campo, testa a possibilidade de reconstrução de vínculos e de superação do passado.

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Alice Carvalho com Andrucha Waddington nas filmagens de 'Marta', na Suécia | Foto: Divulgação

Entre projetos de natureza desportiva já no forno, correm a pleno vapor as filmagens de "Marta", a biopic de uma das mais famosas jogadoras da História da divisão feminina deste país. Alice Carvalho, de "Cangaço Novo", é a protagonista e filma sob a batuta do cineasta Andrucha Waddington (de "Eu, Tu, Eles" e "Vitória"). Esse drama esportivo iniciou suas filmagens na Suécia, país fundamental na trajetória da atleta, a recriar o momento em que ela chega à Europa e dá início à sua carreira internacional. Em meio ao inverno rigoroso, a produção acompanha os primeiros passos dessa jornada, num rastreio dos desafios enfrentados pela jovem jogadora.

Signo de vitórias na peleja pelo fim do sexismo, a alagoana Marta Vieira da Silva passou a integrar o time Orlando Pride, dos Estados Unidos, em 2017. Já foi escolhida como melhor futebolista do mundo por seis vezes, sendo cinco de forma consecutiva.

Walter Salles, que ganhou o Oscar em 2025 pelo já citado "Ainda Estou Aqui", passou o último domingo em festa, na comemoração de seus 70 anos. Agora, é hora de se dedicar a uma série documental para o streaming Globoplay chamada "Sócrates Brasileiro". A produção de quatro episódios explora a vida do ex-jogador e médico Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (1954-2011), destacando sua trajetória desde o Pará, a Democracia Corinthiana, a militância nas Diretas Já e seu impacto cultural e político.

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O documentário 'Botafogo e Seus Heróis Improváveis' foi laureado na Itália | Foto: Paulo Barros/Divulgação

Em dezembro de 2025, "Botafogo e Seus Heróis Improváveis", de Chico Vereza e Raphael Dias conquistou o prêmio de Melhor Filme de Futebol na 45ª edição do Paladino D'Oro, o mais antigo festival esportivo do mundo, realizado em Palermo, na Itália. Seus realizadores agora se debruçam sobre um documentário sobre juízes, batizado de "Livre Arbítrio". Nele, a personagem principal dá aulas de arbitragem para pessoas privadas de liberdade nas casas de detenção.

Paralelamente ao cinema, o futebol invade os teatros. No recém-encerrado Festival de Curitiba, a peça "Na Marca do Pênalti", com Walter Casagrande Jr., virou uma coqueluche. No Rio, Marcus Vinícius Faustini prepara "Assim da Terra Como no Céu", para estrear no dia 30 de abril, no Teatro Ipanema, pavimentado num texto inédito (e devastador) de Luiz Eduardo Soares sobre o encontro de um craque (Paulo Verlings) e uma repórter (Elisa Pinheiro).