Por: por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / CINEMA / PAI MÃE IRMÃ IRMÃO: Estética 'Toca Raul' num álbum de família

Tom Waits, o Peréio da canção americana, atua como um pai malandro no longa ganhador do Leão de Ouro de 2025 | Foto: Vague Notion Atsushi Nishijima

Em momentos distintos, mas sempre bem-vindos de "Father Mother Sister Brother", a vozinha melada de Dusty Springfield (1939-1999), em "Spooky", toma a gente de assalto nos versos "In the cool of the Evening/ When everything is gettin' kind of groovy/ You call me up and ask me:/ 'Would I like to go with you and see a movie?'". O tônus cool que configurou a obra do diretor estadunidense Jim Jarmusch desde sua gênese - com "Permanent Vacation", em 1980 - está posta e poetizada na estrofe acima.

O cinema é o que acontece quando o barato da vida passa a ser um protocolo. Essa é a égide a partir do qual o cineasta, hoje com 73 anos, cunhou ensaios existencialistas como "Flores Partidas" (vencedor do Grande Prêmio do Júri de Cannes, em 2005) e "Paterson" (2016).

Espécie de Maluco Beleza numa constelação autoral de cineastas consagrados nos anos 1980 que... ou se aperaram ao realismo (John Hughes, Rob Reiner) ou migraram para a espetacularização retórica (Oliver Stone) ou flanaram pela fantasia (John Carpenter) ... Jarmusch criou uma estética "Toca Raul". Com ela fala até de violência ("Ghost Dog"), mas nunca perde o interesse em driblar aquela velha opinião formada sobre tudo... sobre o que é o amor... sobre quem é. Seu novo filme ganhou o Leão de Ouro de Veneza num gesto de consagração dessa mirada lírica.

Traduzido literalmente aqui como "Pai Mãe Irmã Irmão", seu novo filme é um delicadíssimo diorama das agruras da convivência familiar. A narrativa estrutura-se em três segmentos que se encaixam pelo afeto… ainda que seja uma afetuosidade torta. Jarmusch usa sua recorrente estrutura de falatórios incontinentes. Fala-se pelos cotovelos em cena, mas há sutilezas. Elas aparecem quando o viúvo vivido pelo Paulo César Peréio da canção americana, o bardo Tom Waits, busca subterfúgio para disfarçar dos filhos (Mayim Bialik e Adam Driver) seu Rolex.

Na delicada montagem, assinada pelo paulistano Affonso Gonçalves, vemos algo de sutil no que está no subtexto das conversas entre as mulheres (a matriarca vivida pela diva Charlotte Rampling e as filhotas Cate Blanchett e Vicky Krieps) de um clã de Dublin. Um relógio pinta por ali também. Também se vê algo de sutil na forma como os manos Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat) inventariam memórias e pertences de seus finados pais... incluindo um Rolex.

É a metáfora do Tempo como claustro e como produto, dois substantivos que Jarmusch refuta com sua marota forma de banalizar convenções.