Emprega-se o termo "filme-coral" para classificar narrativas feitas de núcleos de personagens distintos - e autônomos - que trombam sob vetores sociais. Por vezes, essa estrutura lembra uma Comédia Humana e se dá como um painel... onde tudo é horizontalizado... sem hierarquia de personagem, como "Short Cuts" (1993), de Robert Altman (1925-2006) e o brasileiríssimo "Amarelo Manga" (2002), de Cláudio Assis. Às vezes, a fricção é mais segmentada, criando, numa dinâmica naturalista, a distinção entre ambientes (territórios) onde protagonistas e coadjuvantes operam, tipo "Babel" (2006) e "Crash - No Limite" (2005).
Uma combinação harmônica entre esses dois extremos se fez consagrar com "Amores Brutos" (2000), um dos pilares Nova Onda do Cinema Latino, jogando a produção autoral do México numa nova ribalta. "Cinco Tipos De Medo", que estreia agora, coroado com o Kikito de Melhor Longa-Metragem no Festival de Gramado de 2025, posiciona-se mais próximo da herança desse cult mexicano, mas exulta brasilidade em sua triagem dos desamparos sociais de nossa pátria.
Convulsivo do início ao fim, esse thriller do Mato Grosso se alinha, na forma, com a genealogia do cinema de ação à la Charles Bronson, atualizado nas pérolas com Jason Statham e Liam Nesson que hoje passam no "Domingo Maior".
Esse alinhamento vem não apenas pelo teor de adrenalina nas sequências de tiroteio e de luta desenhadas na direção de Bruno Bini - também responsável por montar e roteirizar o longa -, mas também pela construção de uma persona vilã como raro se vê em nossos longas mais violentos: o traficante Sapinho. O nome bilú teteia não deve te enganar: a atuação devastadora do rapper Xamã faz dele um bicho-solto de dar medo. Não por acaso, ele levou um merecidíssimo Kikito de Ator Coadjuvante. O cabra assusta.
Sapinho é um câncer social que se espalha como metástase por uma Cuiabá com as mesmas feridas de outras cidades do país. Num de seus bairros, Murilo, um violinista enlutado após a covid (interpretado por João Vitor Silva), envolve-se com a enfermeira Marlene (Bella Campos), que vive presa a um relacionamento abusivo com Sapinho. O bandidão há de macular ainda o caminho da policial Luciana (Bárbara Colen) - hoje em cruzada de justiçamento - e do advogado Ivan, que (graças à sutileza do sempre eficaz Rui Ricardo Dias) é a figura mais ambígua na tela.
Essas cinco pessoas vão colidir num caminho sem volta, numa cartografia de ações e reações enquadrada de modo dionisíaco na direção de fotografia de Ulisses Malta Jr. Gramado foi ao delírio com o encaixe azeitado de cada peça do roteiro (também premiado por lá) de Bini, que se comporta como um panóptico - estrutura de observação em 360° da sociedade -, como só se via "Amnésia", de Christopher Nolan, de 2000 -, capaz de revisar cada sequência anterior sob novos e reveladores prismas.