Com 75 produções de 25 nações, o festival É Tudo Verdade celebra o cinema documental ocupando o Estação Net Rio com radiografias do mundo
Horas depois de a aula de nostalgia à inglesa "Bowie: O Ato Final", de Jonathan Stiasny, ter feito "Starman", "Heroes" e "Space Oddity" ecoar na lembrança do público paulistano do É Tudo Verdade, na abertura de SP da 31ª edição do evento, é a vez de Alceu Valença abrir caminhos para o maior festival de documentários das Américas em solo carioca. "VIVO 76" é a atração de abre-alas, na cidade, da maratona criada há três décadas pelo jornalista, cineasta e curador Amir Labaki. Passa esta noite no Estação NET Rio, para convidados, às 20h. Terá mais duas sessões, lá mesmo, no sábado, às 17h30 e às 18h30.
O filme, dirigido por Lírio Ferreira (de "Sangue Azul"), é uma viagem lisérgica e documental pelo universo de Alceu, celebrando os cinquenta anos de um disco de 1976 que virou um marco definitivo da psicodelia brasileira e da resistência cultural. Com arquivos raros e encontros contemporâneos, Lírio resgata a "sopa seminal" pernambucana que uniu ritmos tradicionais e a vanguarda do deserto, revelando Alceu como figura central do underground nordestino.
Até o dia 19, o É Tudo Verdade... ou ETV, como é conhecido... vai projetar 75 filmes de 25 países. Um dos títulos mais aguardados por aqui é "Mestre Zu", de Zelito Viana, que vai entupir o Estação NET Rio de repórteres em suas três sessões, no domingo (às 17h30, às 18h e às 18h30). Sua estrutura estética se forma a partir de um encontro na casa de seu realizador, na qual jornalistas, familiares e amigos que conviveram e trabalharam com Zuenir Ventura revisitam memórias e episódios que marcaram sua trajetória. Entre lembranças, histórias de redação, bastidores da imprensa e discussões sobre sua obra literária, o documentário traça um retrato de um dos nomes mais respeitados do jornalismo brasileiro, autor dos seminais "1968 - O Ano Que Não Acabou" e "Cidade Partida".
Tem uma seleção competitiva de peso este ano no ETV. Os concorrentes estão listados nesta página. O júri da competição brasileira é composto pela cineastas Carol Benjamin, a pesquisadora e diretora Helena Tassara e o realizador premiado em Cannes Eryk Rocha. Já o júri da competição internacional inclui a diretora de fotografia e também cineasta brasileira Heloisa Passos, o documentarista uruguaio Ricardo Casas e a realizadora Vivian Ostrovsky, nascida em Nova York, criada no Rio e formada em Paris.
Aos 80 anos, Vivian ganha do ETV uma retrospectiva com curadoria da cineasta e pesquisadora Fernanda Pessoa. Serão apresentados 14 filmes dela, percorrendo quatro décadas de produção e com imagens captadas em mais de dez países. "Copacabana Beach" (1983) é uma de suas joias. A mostra inclui ainda um filme inédito sobre Vivian, dirigido por Fernanda, chamado "V.O. por F.P.".
Fiel à sua tradição de juntar o mapeamento da produção documental contemporânea com os filmes e personagens que fizeram a história do formato, o É Tudo Verdade presta homenagens ao crítico, ensaísta, professor e ator Jean-Claude Bernardet (com a exibição de "Sobre Anos 60"), à dupla Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr. (com a projeção de "Em Nome do Jogo") e Silvio Da-Rin (numa revisão em tela grande de "Missão 115". Papa do documentário histórico, Silvio Tendler (1940-2025) será lembrado com sessão de "Os Anos JK: Uma Trajetória Política" (1980).
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
APOPCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar: Uma viagem em primeira pessoa pela trajetória da cantora Baby do Brasil. A partir de sua pluralidade transgressora, o filme revisita esse caminho, da liberdade dos Novos Baianos ao brilho da carreira solo; do espírito hippie ao pop multicolorido.
A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO, de Eliza Capai: Umas das sensações da Berlinale. Nela, em uma pequena cidade do sertão do Piauí, meninas brincam entre o passado miserável de suas mães e seus sonhos fantásticos de futuro.
FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA, de Luis Abramo e Pedro Rossi: A trajetória não linear e além do tempo de um dos grandes artistas e contadores de histórias do cinema brasileiro, autor de filmes premiados como "O Mágico e o Delegado" (1983).
PATRULHA MARIA DA PENHA, de André Bomfim: Em Maceió, policiais lutam para romper o ciclo de violência contra as mulheres. Eles fazem parte de uma equipe da PM que acompanha de perto pessoas beneficiadas por medidas protetivas de urgência - algumas correndo risco.
PROUST PALIMPSESTO: PASTICHES E MISTURAS, de Carlos Adriano: Este ensaio discute as muitas possibilidades e impossibilidades de fazer uma adaptação brasileira da obra monumental do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), "Em Busca do Tempo Perdido".
RETIRO - A CASA DOS ARTISTAS, de Roberto Berliner e Pedro Bronz: Um mergulho na instituição centenária no Rio de Janeiro, voltada à acolhida de artistas na terceira idade. Uma reflexão sobre o ciclo da vida e o papel da arte no Brasil, com uma perspectiva poética.
SAGRADO, de Alice Riff: O filme acompanha a rotina de professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, na Grande São Paulo. A partir de situações do cotidiano, personagens são revelados, assim como uma história de luta e resistência popular.
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
ATLAS DO DESAPARECIMENTO ("Atlas de la Desaparición"), de Manuel Correa (Espanha, Noruega: Após oitenta anos de silêncio, novas tecnologias forenses ajudam um grupo de famílias a reconstruir o destino de seus pais, cujos corpos foram roubados e secretamente levados ao mausoléu de seu algoz durante a ditadura franquista espanhola (1939-1975).
BENITA, de Alan Berliner (EUA): A partir do arquivo pessoal da cineasta experimental nova-iorquina Benita Raphan, o diretor constrói o retrato de uma vida artística marcada por brilhantismo, humor e uma intensa luta existencial.
DESFECHO ("Closure"), de Michal Marczak (Polônia, França): Daniel não ouviu seu filho de dezesseis anos sair de casa numa madrugada. Ele não sabe o que o levou até uma ponte sobre o impetuoso rio Vístula, em Varsóvia. Sabe só que foi o último lugar onde o jovem foi visto.
DEZEMBRO ("Diciembre"), de Lucas Gallo (Argentina, Uruguai): O filme reconstrói a crise argentina de 2001, utilizando material de arquivo restaurado, capturando a espontaneidade dos protestos e a instabilidade política que levou à renúncia de cinco presidentes.
ENTRE IRMÃOS ("Tussen Broers"), de Tom Fassaert (Holanda, Bélgica): Os irmãos idosos René e Rob não conseguem viver juntos, nem um sem o outro. René leva uma vida reclusa, em uma casa tomada por objetos e acúmulos. Quando as coisas ameaçam sair do controle, seu irmão mais novo intervém.
UM FILME DE MEDO ("Una Película de Miedo"), de Sergio Oksman (Espanha, Portugal): Nas férias de verão, um documentarista e seu filho de 12 anos se instalam num hotel abandonado em Lisboa. A hospedaria está vazia como a do filme "O Iluminado". Fantasmas aparecem.
FORDLÂNDIA PANACEA, de Susana de Sousa Dias (Portugal, Brasil): Registro do presente e do passado da antiga company-town fundada por Henry Ford na floresta amazônica em 1928.
MAMÃE ESTÁ AQUI ("Mamá Está Acá"), de Adriana Loeff, Claudia Abend (Uruguai): Quatro mulheres trabalham na criação de uma peça de teatro. À medida que a noite de estreia se aproxima, revelam-se suas histórias de maternidade: a jornada de adoção de uma mãe solo; o nascimento do primeiro bebê de duas mães; a batalha pela vida de uma criança.
MEU PAI E GADDAFI ("My Father And Qaddafi"), de Jihan K (EUA, Líbia): Um dos vencedores do Festival de Marrakech 2025. Sua narrativa mostra que quando sua diretora tinha seis anos, seu pai voou pro Cairo e nunca mais voltou. Após servir no regime cada vez mais brutal de Muammar Gaddafi, Mansur Rashid Kikhia desertou do governo e tornou-se líder da oposição.
OS OLHOS DE GANA ("The Eyes of Ghana"), de Ben Proudfoot (EUA): O filme acompanha o documentarista Chris Hesse, que atuou como cinegrafista pessoal de Kwame Nkrumah. Aos 93 anos, Hesse corre contra o tempo para repatriar um acervo de mil filmes que registraram o nascimento da independência africana nas décadas de 1950 e 1960.
SHOOTIN, de Netalie Braun (Israel): Três histórias, apoiadas por materiais de arquivo nunca antes revelados e por acesso raro a figuras-chave, ecoam a profunda conexão entre a indústria de cinema e televisão de Israel e o aparato de segurança.
TÚMULO DE GELO ("Tombeau de Glace"), de Robin Hunzinger (França, Suécia, Noruega): Em 11 de julho de 1897, três homens partem de Svalbard em um balão de hidrogênio, rumo ao Polo Norte. Nunca mais são vistos. Trinta e três anos depois, em 6 de agosto de 1930, um navio de caça às focas faz uma descoberta perturbadora na remota ilha de Kvitøya.