Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Nas bigas do Senhor

A corrida de bigas que transformou 'Ben-Hur' num fenômeno mundial | Foto: Metro Goldwyn Mayer (MGM)

Ganhador de 11 Oscars, o fenômeno pop 'Ben-Hur', com Charlton Heston, retorna às telas em versão restaurada, com todo o seu esplendor no diálogo com o Evangelho de Jesus

Houve um tempo em que não se fechava a grade da "Sessão da Tarde" da Semana Santa sem "A Virgem de Fátima" (1952), de John Brahm (1893-1982), com Susan Whitney como irmã Lúcia. O que se se vê hoje em dia é um registro bem diferente: nesta quinta, o vespertino da Globo vai de cinema brasileiro, com "Não Vamos Pagar Nada", de João Fonseca, e, na Sexta-feira da Paixão, a atração será "Nosso Amigo Do Espaço" ("Jules", 2023), com Ben Kingsley. No circuito exibidor, a celebração do feriadão, que contempla a crucificação do Cristo e sua ascese, fica por conta da estreia de "A Última Ceia" ("The Last Supper"), de Mauro Borrelli, com Jamie Ward no papel de Jesus.

Uma divina intervenção cinéfila, contudo, há de mudar o rumo da ida às salas de projeção neste fim de semana, com o regresso às telas de um fenômeno popular derivado ao Evangelho, agora em versão restaurada em 4k: "Ben-Hur" (1959). O Cinemark Downtown, o Kinoplex Fashion Mall, o UCI New York City Center e o Kinoplex Boulevard vão acolher exibições do longa-metragem que transformou Charlton Heston (1923-2008) num titã. Suas 3h32 de esplendor épico estarão na íntegra.

Em 2013, o Cine Joia fez uma exibição seguida de debate dessa produção de US$ 15,2 milhões (valores de 1959, algo em torno de US$ 160 milhões em valores de hoje). Depois disso, sua circulação limitou-se a exibições da cópia digital antiga, sem a reformulação de cor que se vê agora, valorizando a dimensão épica das tomadas dirigidas por William Wyler (1902-1981), que cobrou US$ 350 mil mais uma taxa de 3% do lucro líquido de sua bilheteria, hoje estimada em US$ 146,9 milhões.

O romance "Ben-Hur: A Tale of the Christ" (1880), escrito pelo militar Lew Wallace (1827-1905) foi a base do projeto, que virou roteiro pelas mãos de Karl Tunberg (1907-1992), embora com contribuições de Maxwell Anderson, S. N. Behrman, Christopher Fry e do escritor Gore Vidal (1925-2012). O romancista trouxe a tão comentada aura homoerótica que ronda o personagem do vilão Messala, vivido por Stephen Boyd (1931-1977), apesar de Heston ter refutado essa hipótese queer. A prosa de Wallace foi filmada antes, em 1907, e em 1925, numa produção que teve Wyler como assistente. Uma outra adaptação - vergonhosa - saiu em 2016, com Rodrigo Santoro numa pequena participação, como Jesus.

Até "Titanic" (1997) estrear, o "Ben-Hur" de Wyler permaneceu 38 anos com o recorde de ter conquistado 11 Oscars. Venceu as estatuetas de Melhor Filme; Direção; Ator (Heston); Ator Coadjuvante (Hugh Griffith); Fotografia (Robert Surtees); Direção de Arte (William A. Horning, Edward C. Carfagno e Hugh Hunt); Figurino (Elizabeth Haffenden); Som (Franklin Milton); Montagem (Ralph E. Winters e John D. Dunning); Efeitos Especiais (A. Arnold Gillespie, R.A. MacDonald e Milo B. Lory); e Trilha Sonora (Miklós Rózsa).

Macaque in the trees
Stephen Boyd (Messala) Charlton Heston (Judah Ben-Hur) são amigos de infência que se tornam rivais mortais por uma questão de fé de Ben-Hur em Jesus | Foto: Metro Goldwyn Mayer (MGM)

Ambientado em Jerusalém, no início do século I, o filme acompanha a jornada do calvário à redenção do príncipe Judah Ben-Hur (Heston), um rico mercador judeu, cuja vida de harmonia e luxo muda após o reencontro com Messala (Boyd). Esse amigo de infância virou um feroz comandante nas legiões romanas. Messala quer do antigo camarada um favor: a delação de rebeldes israelitas. O aristocrata hebreu, fiel à sua crença em Deus, recusa-se ajudar e cai desgraça.

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A crucificação de Cristo é um dos momentos retratados no épico de William Wyler | Foto: Metro Goldwyn Mayer (MGM)

Em meio a um acidente com uma telha, que cai na direção das tropas de Roma, Ben-Hur é acusado de traição e escravizado, encaminhado para galés de navio, onde deve remar até morrer. Sua mãe e sua irmã são presas, confinadas em um leprosário. Após salvar um importante estadista, ele tem a chance de refazer sua rota, mas se abraça à vingança, disposto a destroçar Messala.

As filmagens começaram em maio de 1958 e terminaram em janeiro do ano seguinte, com uma árdua pós-produção que se estendeu por seis meses. O orçamento inicial era de US$ 7 milhões, mas cresceu para US$ 10 milhões em fevereiro de 1958, alcançando uma quantia de cerca de US$ 16 milhões no início das filmagens. Foi o filme mais caro já produzido até então. Cerca de 200 camelos, 2,5 mil cavalos e dez mil figurantes foram usados nos sets, concentrados parte na Itália, parte no México. Uma batalha marítima central para a trama foi realizada com miniaturas em um grande tanque de água nos estúdios da MGM, em Culver City.

Uma mudança notável no filme envolveu seus créditos iniciais. Wyler estava preocupado que o tradicional rugido de Leo, o Leão (mascote da MGM) criaria o clima errado para a sensível e sagrada cena de abertura do nascimento de Jesus. Acabou conseguindo uma permissão especial dos executivos do estúdio para iniciar o filme com um logo em que Leo permanece quieto. Antes de Heston aceitar o protagonismo, Paul Newman chegou a ser cotado para ser o herói de Lew Wallace, mas refutou a proposta.

Kirk Douglas (1916-2020) foi chamado para ser Messala, mas não aceitou ser o "homem mau" da história. Negociou para viver Ben-Hur, mas não tinha mais a idade necessária. Boyd ficou com a personagem, mesmo sendo obrigado a usar saltos para ficar de uma altura similar ao tamanho de Heston, que media 1,89 de altura. Vale lembrar que há um Cristo no longa de Wyler. Seu intérprete foi o cantor lírico Claude Heater (1927-2020).

Em 2002, quando o documentarista Michael Moore ironizou a sanha conservadora de Heston, em seu apoio ao porte de armas, o prestígio do astro caiu. "Ben-Hur", contudo, segue adorado.