Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

No fio da navalha

Gabriel Leone assume o papel central na versão audiovisual de 'Barba Ensopada de Sangue' | Foto: O2 Play

 

Quase um ano e meio depois de ser premiado em Gramado, adaptação de Barba Ensopada de Sangue' com Gabriel Leone, filmada por Aly Muirtiba para a RT Features, ganha circuito

Envolto com o algo de podre que existe no reino na Dinamarca, na temporada paulistana de "Hamlet, Sonhos Que Virão", Gabriel Leone voltará a mobilizar cinemas, nesta Semana Santa, pouco depois de seu sucesso perseguindo Wagner Moura em "O Agente Secreto" (hoje na Netflix). Agora é a vez de prosear com a literatura de Daniel Galera. É dela que saiu "Barba Ensopada de Sangue", um festejado romance que o diretor Aly Muritiba transformou em filme... um filme homônimo, daqueles que ficam.

Macaque in the trees
O escritor Daniel Galera e o diretor Aly Muritiba em Gramado, em 2024 | Foto: Cleiton Thiele/Festival de Gramado

Estreia nesta quinta com fôlego para impactar olhares. Sua primeira exibição ocorreu no Festival de Gramado em 2024, de onde saiu com o Kikito de Melhor Montagem e, na sequência, ficou à espreita por tela, encontrando vaga em circuito só agora. Acabou por virar um presente de Páscoa, com sua narrativa sinuosa, que segundo seu protagonista, fala sobre o Tempo. "Tem umas descrições do Daniel, em que o personagem torce a barba e você vê o sangue pingando, que gera imagens fortes e poéticas", diz Leone, que viu o projeto nascer enquanto trabalhava, no exterior, com o cultuado Michael Mann, em "Ferrari" (2023), antes de ganhar o planeta, via Netflix, na série "Senna" (2024).

Foi a RT Features, de Rodrigo Teixeira, responsável por "Me Chame Pelo Seu Nome" (2017) e por "Ad Astra" (2019), que produziu "Barba Ensopada De Sangue". Ao mesmo tempo em que iniciava a carreira que levou "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, ao Oscar, o produtor embalou o nascimento do longa de Muritiba.

"O lançamento desse filme representa a conclusão de um trabalho com o Daniel Galera, de quem estive perto desde o início. Não foi um livro de encomenda, mas a gente pagou para ter os direitos de adaptação dele antes da publicação", conta Teixeira. "Esse longa foi produzido num momento difícil da minha jornada e vê-lo nas telas, agora, é uma satisfação, sobretudo pela admiração que tenho pelo Aly e pelo Gabriel".

Teixeira integrou o júri de Gramado quando o cineasta venceu o troféu de melhor filme, em 2018, com "Ferrugem". Ali nasceu uma conexão e uma série de conversas que habilitaram o diretor a assumir o comando de "Barba Ensopada De Sangue". Muritiba trabalhou o roteiro da transposição do livro de Galera para o cinema com Jessica Candal. O realizador destacou-se em curtas ("Pátio") e no documentário ("A Gente") antes de se lançar por uma rota ultrarromântica na ficção, com "Para Minha Amada Morta" (2015). É da sua verve autoral seguir personagens que se deslocam (das ditas normatizações do mundo) em nome de um querer desmedido, sobretudo por corpos ou almas ausentes.

São deslocamentos movidos seja por vingança; por pancadas da adolescência (caso do seminal "Ferrugem"); pela devoção a um eu lírico (como visto em "Jesus Kid"); ou por uma idealização passional, assunto de "Deserto Particular", que levou o realizador ao Festival de Veneza, em 2021. Muitos desses vértices lapidam a geometria afetiva de Gabriel, instrutor de natação encarnado por Leone como um samurai contemporâneo: taciturno, impávido e marcado por um código de honra particular.

"Foram anos que o Aly passou gestando esse filme, mexendo nesse roteiro, encontrando o ponto certo da adaptação. E aí, na minha entrada, já mais um pouco próximo de filmar, eu trouxe um pouco de apego ao livro, não no sentido da história, dos detalhes, mas, sim, na questão emocional, sentimental", diz Gabriel.

A figura vivida por ele é incapaz de perdoar o irmão por um delito de outrora, mas daria a sua vida por ele. Engole erros, mas não os perdoa. A maneira como o ator decanta as tensões internas dessa figura alquebrada é notável. De início, vemos Gabriel, o personagem, ao mar, a nadar entre baleias, animais que vão e voltam nas cenas (e nas conversas) de "Barba Ensopada de Sangue", em referência à atividade pesqueira (hoje proibida) de Armação, que sustentou parte da sua população até os anos 1970. Aparece uma ossada na caixa d'água da casa onde ele vai morar, ao se mudar do Rio Grande do Sul para a praia catarinense. Essa aparição parece evocar um estratagema sobrenatural, mas logo se descobre ser um esqueleto de um mamífero aquático gigante.

Após a morte do pai, Gabriel parte para Armação em busca das suas origens, no caso, uma propriedade que pertencia a seu avô (há muito desaparecido e dado como morto). O tal sujeito é odiado por muitos por ali. Parece haver um repúdio a ele naquela cidadezinha descrita como um Éden, embora fotografada por Inti Briones sem a tónica paradisíaca, de cores brandas (outonais). O colorido é abafado como parece ser o modo de se viver ali, a traduzir o espírito de uma gente que vive à deriva numa aparente beleza. O avô de Gabriel, Seu Gaudério, está afogado em um mar de verdades escondidas. À sombra de um farol encoberto de névoa, os seus feitos, do passado, parecem ter confinado Armação à desgraça. A chegada do nadador vivido por Leone desperta esse mal. Portador de uma condição neurológica chamada prosopagnosia, que afeta a sua capacidade de reconhecer e lembrar de rostos familiares, Gabriel não guarda lembranças aparentes, o que dá mais periculosidade à sua jornada, uma vez que o perigo pode morar ao lado. O encontro com uma jovem guia de turismo local, Jasmin (Thainá Duarte, numa delicada composição), traz segurança para sua cruzada de ronin, dedicada a preservar o legado do ancestral. Seu ideal é remontar os resquícios do avô perdido e aplacar a sua solidão, o que será arriscado... mas rende um filmaço.