Embora Beatriz Segall (1926-2018) tenha feito de Odete Roitman o sintagma de tudo o que a aristocracia tem de pior, numa consolidação de persona preservada por Débora Bloch na "Vale Tudo" dos anos 2020, a personagem virou um dos tesouros dramatúrgicos da cultura brasileira, num signo das contraindicações da riqueza. Um cheiro desse descompasso - entre acumulação (farta) de renda e caráter - perfuma "La Femme La Plus Riche Du Monde", que nasceu durante o 78° Festival de Cannes, em maio de 2025, e chega agora ao Brasil, como um chocolate fino para a temporada de Páscoa. Isabelle Huppert é uma Odete gourmet. Marianne Farrère, sua (deliciosa) personagem, tem ímpetos de mandar e vê o mundo sob uma ótica de controle, na qual sua carteira pode balizar qualquer conflito - #sqn. Sua ruína é o ruir de toda uma moral.
Jornalista profissional de 1991 a 2002, onde fez carreira na revista "Studio", antes de virar um diretor habilidoso, o cineasta Thierry Klifa (do belo "Uma Vida À Tua Espera") filma Isabelle nas raias entre o drama e a comédia, utilizando o carisma GG da diva para edificar uma alegoria sobre Poder, que se desenha sinuosamente em sua dramaturgia numa dialética que raro se vê no cinema francês atual, mas que, outrora, serviu de pavimento à obra de mestres como Costa-Gavras e Claude Chabrol (parceiro profissional recorrente de Huppert). Julga-se Marianne em seus mínimos gestos, por seus devaneios onipotentes. Pouco a pouco, com habilidade, Klifa nos mostra que o juízo mais pertinente que se constrói em seu filme se refere ao entorno da privacidade de sua personagem e não a suas escolhas e suas renúncias. É uma crônica que temos aqui... a crônica de uma decadência anunciada. Ela começa no momento que a herdeira de uma empresa de cosméticos, apelidada de "a mulher mais rica do mundo", passa por uma sessão fotográfica com Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um artista visual excêntrico. O comportamento nada ortodoxo do fotógrafo seduz esta mulher abastada e liberta-a da letargia do seu universo estagnado e enfadonho, levando-o a custeá-lo. Marianne não liga de bancar os excessos dele, mas sua filha, Frédérique, (Marina Foïs), tenta minar a influência que Pierre-Alain exerce sobre a sua mãe, bem como as despesas imprudentes daí decorrentes.
A ciranda de vaidades que nasce daí, enquadrada numa estética realista, de cores filtradas, vai gerar um espetáculo convulsivo sobre ética... e sobre o fedor do capitalismo.