Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Primavera de Radu Jude vai aos EUA

A História da Romênia ganha novas cores em 'Kontinental '25' | Foto: Divulgação

 

Com projeto à francesa de olho em Cannes, o artesão autoral romeno lança 'Kontinental '25', que tem DNA brasileiro em solo americano, internacionalizando sua estética irônica

Há uma estimativa de que "Diário de uma Camareira", o novo projeto do romeno Radu Jude, vá estar no Festival de Cannes, quiçá na competição pela Palma de Ouro, de 12 a 23 de maio. A trama é uma metalinguagem. Nela, uma jovem romena que vive na França trabalha para uma família francesa e se junta a uma companhia de teatro que está disposta a adaptar "Le Journal d'Une Femme de Chambre", debatendo Mirbeau e sua relevância. Ana Dumitrascu, Vincent Macaigne e Amélie Prevot integram esse projeto, que o cineasta toca num momento que pode ser o mais estratégico para a internacionalização de sua carreira: a estreia de "Kontinental '25" nos EUA, neste fim de semana. Ele é uma peça essencial para a relevância que a Romênia vem galgando no audiovisual.

Movimento cinematográfico mais sólido - e mais longevo - do século XXI até aqui, a Primavera Romena - vaga de produções de baixo orçamento, mas de alta voltagem crítica gestada a partir de Bucareste - espalha suas flores autorais pelos Estados Unidos, com o lançamento de seu premiado "Kontinental '25". Com DNA brasileiro em sua medula, sob a produção da mesma RT Features, de Rodrigo Teixeira, que disputou o Oscar com "Ainda Estou Aqui", a longa estreou mundialmente na Berlinale de 2025, na briga pelo Urso de Ouro. Saiu dela com o Urso de Prata de Melhor Roteiro. Agora é a vez de o cineasta ganhar o carinho e o aplauso do público americano, em paralelo à gestação de "Diário de uma Camareira".

Macaque in the trees
Urso de Prata de Melhor Roteiro por 'Kontinental'2', o realizador revela que sua cultura cinéfila teve início com a pirataria dada a escassez de títulos exibidos em sua Romênia natal | Foto: Berlinale.de

Seu prestígio começou em 2021, no auge da pandemia, graças ao Urso Dourado que ganhou na capital alemã por um filme de conexão frontal com a histeria da covid-19: "Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental". Há como vê-lo na grade da plataforma digital Reserva Imovision. Parte dos procedimentos e dos temas vistos naquela fita voltam em "Kontinental '25", empreitada cheia de ironia que ele construiu com a ajuda do produtor carioca (radicado em SP) Rodrigo Teixeira. Um dos pontos centrais é um balanço do saldo comunista nas repúblicas do Velho Mundo e as tensões da Hungria e de sua Romênia natal.

"A poesia que pode existir no cinema que eu faço vem do choque entre a ficção e o documentário, numa espécie de retorno aos irmãos Lumière (os inventores da linguagem cinematográfica, inaugurada por eles em 1895). Rodei este longa com um smartphone e me pergunto o que os Lumière filmariam se tivessem um celular", disse Jude ao Correio da Manhã na Berlinale.

Teixeira estava com ele naquele festival. "Radu é um diretor que admiro e que tem um trabalho espetacular", disse o produtor. "O cineasta brasileiro Gustavo Vinagre, a quem eu acabo de produzir, falou muito do Jude pra mim, no Festival de Berlim de 2024. Eu resolvi procurá-lo. Aí ele trouxe essa ideia do 'Kontinental '25', e isso ao mesmo tempo em que idealizava 'Dracula', que vem por aí".

A trama de "Kontinetal '25" se passa na região de Cluj, na Transilvânia (a pátria do vampirão de Bram Stoker). Em seu enredo, um sem-teto comete suicídio depois de ser expulso de seu abrigo no porão de uma casa. Orsolya, a oficial de justiça que executou o despejo, é impelida a fazer várias tentativas para lidar com seus sentimentos de culpa pela morte do sujeito.

"Godard dizia que assistia a partidas de futebol porque era a única transmissão audiovisual na qual ele poderia ver pessoas trabalhando por 90 minutos sem parar. Ver um jogo é ver trabalho. Gosto de mostrar pessoas ativas em suas rotinas laborais, pois elas revelam nosso dia a dia", disse Jude ao Correio, num recente Zoom.

Respeitado por uma estética debochada, que transpõe os limites entre o que é realidade e o que encenado, o realizador explicou que "Kontinental '25" é sua experiência "mais ficcional", no sentido clássico da expressão. "Tudo é muito imaginativo nesse filme, ainda que eu tenha partido de um caso real", disse o diretor.

No Brasil, o filme anterior do cineasta, "Não Espere Muito Do Fim Do Mundo" ("Nu Astepta Prea Mult De La Sfârsitul Lumii"), que ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Locarno em 2023, só estreou no streaming. Está desde abril na plataforma MUBI, que ainda lançou seus curtas "Plastic Semiotic" (2021) e "The Potemkinists" (2022),

"A maior parte do conhecimento cinematográfico que eu tenho vem da pirataria. É óbvio que desejo ver meu filme projetado, com som bom, como é o caso de uma exibição na Berlinale Palast, mas eu não tenho nada contra plataformas como a Netflix e aprecio o trabalho da MUBI. Lá, você pode ver um Godard num dia, um curta da América do Sul no outro, um clássico de Hollywood na sequência. Acho que eu tenho uma das primeiras assinaturas do www.mubi.com desde que a plataforma surgiu", disse o realizador de "Kontinetal '25". "Não sou um purista. Sei do valor de novos suportes para a descobrirmos filmes".

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Na última Berlinale, Radu exibiu 'Plan Contraplan', que codirigiu com Adrian Cioflânc? | Foto: Divulgação

Na última Berlinale, Radu esteve lá com "Plan Contraplan", que codirigiu com Adrian Cioflânca. Esse ensaio recria um tempo entre 1985 e 1987 quando o jornalista americano Edward Serotta percorreu a Roménia a fotografar as duras realidades e a vida judaica naquele país, no auge do jugo comunista. A polícia secreta Securitate seguiu-o e fotografou-o clandestinamente enquanto ele tirava seus retratos. Quarenta anos depois, este filme junta os dois conjuntos de imagens numa sequência de plano-contraplano sobre o lado cômico da história... com a marca de Radu.