Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Maratonando Ricardo Darín

'A Cordilheira' concorreu em Cannes, em 2017, na mostra Un Certain Regard | Foto: Warner Bros

Grupo Estação radiografa alguns dos momentos mais marcantes da carreira do astro n° 1 da Argentina, país que teve seu cinema memorável solapado pelas forças radicais de Javier Milei

Põe na tua agenda cinéfila: 16 de janeiro de 2027, aniversário de 70 anos de Ricardo Darín. A data deve ser uma festa em muito circuito. No argentino, talvez, nem tanto, pois Javier Milei, o presidente de nuestros hermanos, não é muito fã do cinema autoral que se faz por lá, muito menos de seu maior muso. No meio da atual crise da produção audiovisual de Buenos Aires, Mar Del Plata e arredores, as plataformas de streaming, como a Netflix, tornaram-se o principal meio de escoamento para novos projetos do astro, como "Lo Dejamos Acá", que - estima-se - tem chances de ir para o Festival de Cannes (de 12 a 23 de maio).

Nesse aguardado longa-metragem, sob a realização de Hernán Goldfrid, a estrela mais pop da Argentina contracena com Diego Peretti. Na trama, um psicanalista de prestígio que perdeu a fé na terapia começa a manipular os seus pacientes em segredo, alcançando resultados dos mais surpreendentes. Sua metodologia desmorona quando um escritor bloqueado entra em seu consultório em busca de ajuda. Essa (potencial) pérola vai estourar por aqui já, já, mas, antes, vai ter retrospectiva de Darín no Grupo Estação. Ela começa esta noite, às 20h30, no Estação NET Gávea, com a sessão de "Argentina, 1985" (2022), um thriller jurídico ganhador do Globo de Ouro, distinguido ainda com o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza de 2022.

Macaque in the trees
Darín e Diego Peretti em 'Lo Dejamos Acá', o trabalho mais recente | Foto: Netflix

O evento vai até o dia de abril e apresentará os primeiros longas de prestígio comercial de Darín, como "El Mismo Amor, La Misma Lluvia" (1999), que determinou a força de sua parceria com o realizador Juan José Campanella. Os dois ajudaram o país a conquistar um Oscar, em 2000, com "O Segredo De Seus Olhos" (2009). Entre os títulos revisitados na programação estão "Kamchatka" (2002), de Marcelo Piñeyro; "El Aura" (2005), de Fabián Bielinsky; "XXY" (2007), de Lucía Puenzo, que foi uma sensação em Cannes; e o sucesso de bilheteira "Truman" (2015), do espanhol Cesc Gay.

Talvez o mais precioso feito dessa mostra seja a escalação de "A Cordilheira" (2017) para ter projeção em tela grande. Sua exibição inicial será nesta sexta, às 18h50, no Estação NET Rio, em Botafogo. Haverá uma também no domingo, às 20h30, na Gávea. Agraciado com o troféu Platino (o Oscar da latinidade) de Melhor Trilha Sonora (coroando a excelência melódica de Alberto Iglesias), o filme - lançado na França com o título de "El Presidente" - aborda um conclave de líderes políticos das Américas, tendo intrigas de corrupção e pecados afetivos pessoais em seus bastidores. Darín é uma dessas lideranças.

"É triste notar que todos nós da América Latina nos identificamos com a discussão da corrupção", disse Darín ao CORREIO em Cannes.

No festival francês, esse longa dirigido por Santiago Mitre (também realizador do já citado "Argentina, 1985") concorreu na mostra Um Certain Regard. "Existe uma náusea comum que vem da malversação de nossas riquezas naturais, de nosso patrimônio", disse Mitre.

Em nenhum momento dos 114 febris minutos de "A Cordilheira" (tradução literal no Brasil) se fala o nome da Petrobras, mas é o petróleo brasileiro que serve de combustível às negociatas políticas retratadas neste thriller moral e cívico com Darín. O Brasil está representado na figura do presidente Oliveira Prete, vivido com uma ironia saborosa pelo ator Leonardo Franco, da série "Preamar". Ele é o alvo e o inimigo de todos, menos do líder argentino, o atormentado Hernán Blanco. Esse papel ficou nas mãos de Darín. Roteirista de "Abutres" (2010), hoje na Netflix, Mitre chamou a nata das atrizes e atores das Américas hispânicas para o elenco, como os chilenos Paulina García (de "Glória") e Alfredo Castro (de "O Clube"), a argentina Dolores Fonzi (de "Truman") e o espanhol radicado em solo mexicano Daniel Giménez Cacho (de "Má Educação"), além do americano Christian Slater ("Mr. Robot").

Faltou só uma delícia nesse cardápio: "Samy y Yo" (2002), de Eduardo Milewicz. Um dos principais preparadores de elenco em atividade no Brasil, autor do seminal livro "Quando Acende a Câmera - Qualidade da Atuação Contemporânea", filmou esta deliciosa comédia romântica em sua Argentina de berço. Esbanjando carisma, Darín vive um roteirista de TV que sonha ser escritor de prestígio. Pena diariamente com as pressões da televisão e com os faniquitos de sua mãe (Henny Trayles). A chegada da produtora Mary (Angie Cepeda) vai tirar sua rotina do eixo, pois ela enxerga em Samy um potencial astro de reality show.

 

A linha do tempo de Darín na mostra

Soledad Villamil e Darín em 'O Mesmo Amor, A Mesma Chuva' | Foto: Divulgação

"O Mesmo Amor, a Mesma Chuva" (1999), de Juan José Campanella

"Nove Rainhas" (2000), de Fabián Bielinsky

"O Filho da Noiva" (2001), de Juan José Campanella

"Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002)

"Clube da Lua" (2004), de Juan José Campanella

"A Aura" (2005), de Fabián Bielinsky

"XXY" (2007), de Lucía Puenzo

"O Segredo dos Seus Olhos" (2009), de Juan José Campanella

"Abutres" (2010), de Pablo Trapero

"Um Conto Chinês" (2011), de Sebastián Borensztein

"Tese Sobre um Homicídio" (2013), de Hernán Goldfrid

"Relatos Selvagens" (2014), de Damián Szifron

"Truman" (2015), de Cesc Gay

"A Cordilheira" (2017), de Santiago Mitre

"A Odisseia dos Tontos" (2019), de Sebastián Borensztein

"Argentina, 1985" (2022), de Santiago Mitre