Diretor de 'Eles Vão Te Matar' fala ao Correio sobre os bastidores e inspirações para o filme
Em cartaz nos cinemas brasileiros, o terror do ano até o momento, 'Eles Vão Te Matar', vem surpreendendo o público com uma protagonista feminina forte e uma dose cavalar de ação e humor politicamente incorreto que chegaram às telonas como uma brisa de ar fresco. A trama sobre luta de classes, colocando trabalhadores explorados contra uma horda de ricaços que fizeram pacto com o demônio, diverte, surpreende e assusta com coreografias de lutas e momentos tensos.
Para o diretor e roteirista do filme, o russo Kirill Sokolov, poder escrever essa história junto a Alex Litvak ("Predadores") foi muito produtivo. "Alex adorou essa ideia [de terror misturado com ação]. Desde o início, conversamos sobre como fazer um filme clássico de terror um pouco mais distorcido, como brincar com o gênero. Nosso começo era clássico, uma protagonista feminina que entra em um lugar perigoso e todo iriam pensar que ela provavelmente será uma vítima. Ela vai aos poucos aumentando sua potência — um tema clássico, mas nós o executamos de modo diferente", revelou Sokolov.
A trama é ambientada no Hotel Virgil, prédio secular de Nova York que viu o bairro prosperar com o passar dos anos e virou um grande monumento secreto ao demônio do coração da cidade que nunca dorme. O diretor revelou que, por mais inacreditável que pareça, a trama foi inspirada em um fatos reias. "Há uma história real que inspirou a do filme. Há oito anos, minha esposa e eu nos mudamos para um apartamento em Moscou do qual gostamos, um prédio estranho de 16 andares que visitamos antes de mudar, claro. Em poucos dias, no entanto, entendemos que éramos os únicos dois moradores com menos de 60, 65 anos — ou até mais velhos. A grande maioria era de mulheres, inclusive, nada de homens. Nós nos perguntamos o que estaria acontecendo, e percebemos que essas senhoras velhas alimentavam gatos, e nos odiavam porque temos cachorro. Toda vez que eu saía ou entrava no prédio, eu as ouvia sussurrando nos bancos na frente da entrada onde passavam o dia: 'Por que ele está tão atrasado ou por que ele está vestido assim?'. Começamos a fazer uma piada recorrente de que o prédio inteiro provavelmente pertence a algum culto, e os participantes oferecem esse apartamento para alugar, atraem jovens como nós e depois nos sacrificam", brincou.
Além do frescor de um diretor que busca se firmar em Hollywood, o elenco mescla de nomes promissores com artistas consagrados no meio, como Patricia Arquette, Tom Felton e a protagonista Asia, vivida por Zazie Beetz.
Para Kirill Sokolov, a protagonista era uma personagem completamente diferente até Zazie ser escalada para o papel e roubar a cena. "Nós escrevemos o roteiro, eu fiz os storyboards, e enxergava a Asia de um jeito. Então nós escalamos a Zazie [Beetz] e fizemos essa leitura [de roteiro] na Cidade do Cabo, uma preparação de um ou dois dias em um set com ela, e eu lembro de como, na minha imaginação, Asia se transformou na Zazie, e eu não conseguia pensar em mais nada além disso. Zazie compreendeu a personagem, deixou-a brilhante e viva. É um filme cheio de ação, desafiador em termos físicos para Zazie, porque ela filmava todos os dias. Mas como estava disposta a fazer muito das cenas de ação sozinha, teve quase quatro meses de preparação, ensaiou todas as lutas, e mesmo assim correu descalça o filme inteiro. Ela ficou molhada na Cidade do Cabo no inverno, à noite, com ventos de granizo, e nunca teve um colapso ou reclamação, sempre estava sorrindo. Não posso estar mais grato pelos esforços e pela dedicação dela. Zazie é inacreditável. Lembro que, enquanto ainda estávamos filmando, pensei: 'Ok, preciso escrever outra coisa para ela logo', porque quando você encontra alguém assim, não tem experiência melhor", contou o diretor.
"O elenco entendeu o tom do filme, a ironia dele, e fez os personagens ganharem vida. Eles chegaram e trouxeram sua própria personalidade. A personagem de Myha'la [Maria] está em uma jornada clássica da vítima que entrou para o culto como empregada. Teve uma vida difícil, e provavelmente foi encontrada no momento mais sombrio de sua vida. Tom Felton e Heather Graham são Kevin e Sharon, ambos ricos inquilinos no prédio, e representam o outro lado do culto. Patricia Arquette e Patterson Joseph criaram essa química entre Lily e Ray, simplesmente magnífica. Todos são atores incríveis. Esse filme tem muitas mudanças de tom. Começa como terror, depois entra em um lado mais cômico e vai para muita ação. Às vezes, mudamos o tom dentro de uma cena, que começa um pouco mais dramática e séria e se torna engraçada, voltando para o drama depois. O desafio da direção de elenco era encontrar atores que conseguissem acertar essas mudanças, porque não é fácil, sentir esse gênero e tom e fazer isso com precisão, sem se desentender. Eles facilitaram meu trabalho", explicou.
O longa passa uma sensação incômoda por ser completamente ambientado dentro do Hotel Virgil. Presos entre as paredes do prédio, os protagonistas tentam sobreviver aos capachos demoníacos até chegarem ao grande síndico: o demônio em pessoa. Para o diretor, essa edificação representa uma viagem ao inferno.
"Jeremy Reed, nosso designer de produção, é um gênio insano. O filme se passa principalmente dentro desse prédio do Virgil, então é tudo interno. Em um filme de interior, as pessoas podem se cansar de olhar para quatro paredes, então é preciso ser muito inteligente e criativo para estimular as pessoas, mostrar os mesmos cenários de forma diferente, expandir esse mundo até mesmo sem sair do lugar. O Virgil é um prédio de nove andares, porque usamos o 'Inferno' de Dante como inspiração, onde cada andar é literalmente como um círculo diferente do inferno, o que nos deu a ideia de como vestir os pisos, que tipo de tema pertence a cada andar, o que de fato acontece naquele andar. Então, usamos essa estrutura para desenvolver o estilo visual e o design do local", comentou.
"Acho que a parte mais assustadora é que tem uma base social que soa familiar, porque foi tirada da vida real. Se você apenas assistir como os cultos funcionam na vida real, é como funciona o sistema no Virgil — o modo como eles atraem as pessoas, como algumas são sacrificadas e outras permanecem nele e trabalham para o culto, como as pessoas com dinheiro e poder abusam do poder deles e usam aqueles que estão confinados. Então, acho que essa é a parte mais assustadora. Mas também há muitos momentos clássicos de terror, como sustos repentinos, maldade, violência e sangue", completou Kirill Sokolov.
Por fim, o diretor disse que o público sentirá muitas emoções distintas durante a sessão.
"Posso garantir que, quando você assistir Eles Vão Te Matar, você vai sentir muita emoção, arrepios, vai dar muitas risadas, ficar vidrado na ação e, claro, ver muito sangue!", concluiu.