Indicado à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, "Nuremberg" fez seu diretor, o americano James Vanderbilt, subir de patamar (leia-se "prestígio) depois de faturar cerca de US$ 60 milhões (cerca de seis vezes mais do que seu custo de produção) calcado na poética da retórica jurídica. Em seu segundo trabalho de direção, construído nas mesmas bases políticas de seu trabalho anterior ("Conspiração e Poder", de 2015), o prolífico produtor de "Zodíaco" (2007) dá ao público um gostinho de "cinemão", num espetáculo à moda clássica sobre o julgamento do líder nazista Hermann Göring (1893-1946).
A presença de um Russell Crowe afinzaço de brilhar catapulta às alturas o que poderia ser um thriller jurídico corriqueiro, com atuações inflamáveis de Richard E. Grant, Michael Shannon e Rami Malek, o Freddie Mercury de "Bohemian Rhapsody". O roteiro traz um diálogo fascinante após o outro.
Na entrevista a seguir, concedida em San Sebastián, Vanderbilt explica ao Correio da Manhã como foi reconstituir a plenária que condenou os súcubos de Hitler.
Mesmo tendo a II Guerra e o tribunal de nazistas como pavimento real, "Nuremberg" é o que se pode chamar de "um filme de tribunal". O que esse filão simboliza?
James Vanderbilt - A linhagem de histórias que se passam em cortes judiciais mostra como a Justiça é importante, sobretudo neste momento em que algumas gerações ouvem falar de Nuremberg como se estivessem escutando um episódio da Guerra Civil, sem contextualizar, no tempo, o que houve. Eu tive avôs que lutaram na II Guerra. Era importante honrar a memória deles com um filme que buscasse fazer diferença, tentando ser minimamente fiel ao que houve no passado. O coração da narrativa é ver o impacto daquele processo judicial em diferentes vidas. É menos uma biografia das pessoas ali retratadas e mais um estudo de caso, uma reflexão sobre dilemas éticos e morais. A curiosidade foi notar que cortes são espaços pequenos. Fazer delas o eixo de um set significa confiar a narrativa à força dos atores.
A adesão a uma narrativa mais clássica é uma consequência desse seu respeito ao passado?
Eu trabalhei com um roteiro que chegava a ter 20 páginas só de diálogo, o que me impôs rodar takes de até 25 minutos, buscando verossimilhança na ação. Para dar conta disso, eu precisava da habilidade de um diretor de fotografia que estivesse acostumado a trabalhar com pressão, como é o grande Dariusz Wolski, um parceiro habitual de Ridley Scott. Ele é um artista que olha para o set com curiosidade e sabe ser um parceiro generoso. Só ele poderia me dar um 360° como o de Stanley Kramer em "Julgamento em Nuremberg".
Esse sucesso de 1961, hoje clássico, foi uma inspiração para você de que forma?
"Julgamento em Nuremberg" é um dos meus filmes favoritos, determinante não só por seus grandes atores, mas pela forma como retratar uma corte. Eu usei muito a transcrição do julgamento real. O personagem do Michael Shannon, por exemplo, foi estruturado a partir de um depoimento real de quase três horas.
O desempenho de Russell Crowe em cena é um dos mais radicais de sua carreira, desde "Gladiador". Como foi domar um ator conhecido por seu temperamento difícil?
A produção gravitou aqui e ali, na busca por recursos, mas Russell sempre esteve ao meu lado. Ele sempre o ponto crítico do projeto, pois eu só conseguiria levantar o filme se tivesse alguém fervorosamente carismático como ele em cena. Com o brilho que tem, ele se dedicou ao personagem com retidão, sabendo que não era uma tarefa fácil encarnar a figura nazista que ele interpreta. Com ele e Rami em cena, eu tinha dois ganhadores de Oscar que têm muito a dizer. Existem atores que te oferecem talento e existem ator que, além do talento, oferecem ideias boas. Russell é um deles. Trouxe sugestões, mas modificou pouco o roteiro que eu apresentei.
Você entrega às plateias um thriller tenso. Qual é o desafio de imprimir suspense numa trama que se calca na palavra?
Cada oficial e cada jurista em cena é um universo em si, com convicções das mais variadas. São mundos paralelos que colidem. Para isso funcionar, eu contei com um montador que soubesse imprimir leveza em situações enervantes, de modo a buscar o lado humano de quem está na tela. Trouxe Tom Eagles, que editou "Jojo Rabbit", para essa tarefa, pela experiência que tem.