O 31º É Tudo Verdade prepara homenagem ao documentarista, que teve atuação aguerrida na Secretaria do Audiovisual, ao escalar o longa 'Missão 115' para uma projeção especial
Nas contas do jornalista e curador Amir Labaki, o É Tudo Verdade, vitrine n° 1 das Américas quando o assunto é documentário, terá de 75 filmes de 25 países em sua 31ª edição, agendada de 9 e 19 de abril, em quatro salas em São Paulo e em três salas no Rio - com todas as sessões gratuitas. Ele escalou "Bowie: O Ato Final", de Jonathan Stiasny, para a abertura de sua maratona em solo paulista, na Cinemateca Brasileira, e reservou "Vivo 76", de Lírio Ferreira (sobre o músico Alceu Valença), para a inauguração carioca, no Estação NET Rio. De tudo o que Labaki e sua equipe escalaram, há uma cota para a saudade já assegurada, com o resgate de "Missão 115" (2018).
Sua exibição é um réquiem para o técnico de som, ex-Secretário do Audiovisual e documentarista nato Silvio Da-Rin (1949-2026), que morreu em janeiro, aos 77 anos. O festival sempre contou com a presença do cineasta em suas poltronas. Sua luta em prol de novos e auríferos veios para as jazidas documentais do país incluiu ainda a escrita de um livro seminal: "Espelho Partido", de 2004.
Virtuoso em sua engenharia narrativa, obrigatório como autópsia de um cadáver histórico ainda perfumado a impunidade (no caso, o atentado ao show do Primeiro de Maio de 1981, no Riocentro), "Missão 115" põe carne onde só se encontrariam os verbos "perder" e "silenciar".
Obrigatório em sua exposição da mordaça simbólica conservadora dos 21 anos de comando militar neste país, de 1964 a 1985, "Missão 115" começa com um sujeito (civil), em visita a um quartel, esboçando em um papel a arquitetura do espaço de tortura e claustro por onde passou, durante a ditadura. O tal sujeito, que foi preso político, é o próprio diretor do filme, Silvio Da-Rin. Realizador do febril curta "Fênix" (1980), ele angariou novos fãs ao escrever sobre a estética do Real no já citado "Espelho partido - Tradição e transformação do documentário" (2004).
Sua reflexão sobre a linguagem documental se reflete aqui na tensão (e no rigor dialético) que costura todo o organismo fílmico deste ensaio investigativo. Há nele um tom de thriller. Sua poética furiosa lembra os melhores momentos do mestre chileno Patricio Guzmán (em especial, "O Botão de Pérola"). E encontram-se em seus planos ecos da trajetória pessoal de Da-Rin, como militante de organizações de resistência ao governo militar. Essa experiência pessoal empresta ao longa uma bem-vinda voz na primeira pessoa a um coro de historiadores, sociólogos e jornalistas que se complementam mesmo nos pontos nos quais se contrastam. O corpo de Da-Rin entra em cena como como um legitimador da memória, a partir dos muitos relatos que colheu (editados por Célia Freitas), fazendo deste .doc um debate sobre a institucionalização do terror. Cada frase - costurada com fotos de época, recortes de jornais e outras matérias do passado - traça uma nova curva no desenho do terrorismo de Estado, mostrando que a bomba que explodiu no colo de dois soldados, no Riocentro, foi plantada como uma estratégia para manter os fardados no Poder. Fazendo da divergência e da dúvida seus instrumentos para exumar a História, Da-Rin sofistica seu dispositivo formal e nos dá um filme incômodo e vivo.
Paralelamente à homenagem a Da-Rin, o É Tudo Verdade também vai render loas a Silvio Tendler (1940-2025), que morreu em setembro. Da obra desse papa do documentário histórico foi escolhido "Os Anos JK: Uma Trajetória Política" (1980). Nesse fenômeno de bilheteria, que arrebanhou 800 mil espectadores, o legado do presidente Juscelino Kubitscheck (1902-1976) é o objeto de um estudo meticuloso, que investiga suas realizações, como a construção de Brasília, sua política desenvolvimentista e as crises políticas vividas antes, durante e depois de seu governo.
O festival realiza ainda uma série de mostras competitivas, nacionais e estrangeiras. Na competição brasileira de longas e médias-metragens, concorrem "Apopcalipse Segundo Baby", de Rafael Saar; "A Fabulosa Máquina do Tempo", de Eliza Capai; "Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha", de Luis Abramo e Pedro Rossi; "Patrulha Maria da Penha", de André Bomfim; "Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas", de Carlos Adriano; "Retiro - A Casa dos Artistas", de Roberto Berliner e Pedro Bronz, "Sagrado", de Alice Riff.