Em meio ao processo de internacionalização de nosso audiovisual, o British Film Institute leva a Londres uma retrospectiva das muitas autoralidades de nossa produção
Muitas vitrines estão se abrindo para o cinema brasileiro no exterior, depois de duas presenças consecutivas de nossos medalhões autorais - "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, e "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho - no Oscar, a começar da maciça presença de produções nacionais (12 filmes e uma série) na Berlinale, em fevereiro. Dois longas-metragens inéditos se impõe como potenciais escolhas para o Festival de Cannes: "Canção da Noite", de Maya Da-Rin, e "Leila et La Nui", de Fellipe Barbosa. O anúncio oficial dos concorrentes à Palma de Ouro será feito no dia 9 de abril. Antes disso, no dia 7, "Fernanda Abreu - Da Lata, 30 Anos", de Paulo Severo, e "Querido Mundo", de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin, abrem o Festival du Cinéma Brésilien de Paris, na capital francesa.
Já no Reino Unido, uma iniciativa conjunta do British Council e do Instituto Guimarães Rosa, levará à Inglaterra uma das mostras mais completas de longas com CEP no Brasil que a Europa já viu. A maratona decorre de 1º de maio a 30 de junho, com sessões e eventos presenciais e uma coleção online disponível para a cinefilia inglesa no BFI Player, a plataforma do British Film Institute.
As curadoras dessa imersão, chamada Brazil on Film, Renata de Almeida e Adriana Rouanet, gravitam por tempos distintos de nossa arte, a percorrer experimentos singulares (como "Limite", de Mário Peixoto, de 1931), passando por exercícios de ruptura e de renovação, o que inclui o filé da Retomada, de 1991 a 2010. "Também Somos Irmãos" (1949), de José Carlos Burle - um dos primeiros longas brasileiros a abordar diretamente o racismo - e pilar da estética glauberiana "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964) integram a retrospectiva, que levará o complexo cultural BFI Southbank, na Belvedere Road (na margem sul do rio Tâmisa) a respirar cinema brasileiro todos os dias. No dia 12 do mês que vez, elas farão por lá um bate-papo sobre o desenho curatorial seguido de sessão de "Terra Estrangeira" (1995), de Daniela Thomas e Walter Salles.
Responsável por modernizar nosso cinema, Nelson Pereira dos Santos, que nos deixou em 2018, será evocado com seu "Vidas Secas" (1963), numa ponte com a literatura. Por essa mesma trilha literária, passam (cada um com seu estilo) "São Bernardo" (1972), de Leon Hirszman, e "A Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), de Bruno Barreto.
A programação se abre para perspectivas da região Norte, numa triagem dos polos criativos da Amazônia. O onipresente "Iracema: Uma Transa Amazônica" (1975) - que pôs Paulo César Peréio na boleia de um caminhão - volta a ser convocado. Ao lado dele aparecem "Noites Alienígenas" (2022) e "O Pai e o Xamã" (2025), num empenho de se debater identidade, deslocamento e resistência.
Estandartes da invenção como José Mojica Marins, Ozualdo R. Candeias e Rogério Sganzerla não foram esquecidos, nem o mestre do documentário Eduardo Coutinho (e seu "Cabra Marcado Para Morrer"). A evocação ao conceito de maestria se aplica ainda à participação de "Bye Bye Brasil" (1979), de Carlos Diegues, que nos deixou em fevereiro de 2025.
A temporada também destaca perspectivas indígenas e amazônicas, com títulos como Iracema: Uma Transa Amazônica (1975), Noites Alienígenas (2022) e O Pai e o Xamã (2025), explorando identidade, deslocamento e resistência.
Falando em saudade, um foco especial é dedicado ao cineasta argentino naturalizado paulista Hector Babenco, que completaria 80 anos em 2026. Da obra dele, foram pinçados |O Beijo da Mulher Aranha| (1985), |Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia| (1977) e |Pixote: A Lei do Mais Fraco| (1980). Convocou-se ainda o documentário "Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou" (2019), de Bárbara Paz.
Tem filme para criança? Como não. "O Menino e o Mundo" (2013), que venceu o Festival de Annecy e levou o animador Alê Abreu a concorrer ao Oscar, será projetado. Também vai passar "Chico Bento e a Goiabeira Mágica" (2024), de Fernando Fraiha, que vendeu um milhão de ingressos em 2025.
O BFI Player entre em sintonia com as exibições do Southbank, e se abre para os premiados "Medusa" (2021) e "Tinta Bruta" (2018), sem esquecer de clássicos como "Macunaíma" (1969) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1967). Os ingressos para maio começam a ser vendidos em 7 de abril para patronos do BFI; 8 de abril para sócios; e 10 de abril para o público em geral.