Por: por rodrigo fonseca

CRÍTICA / FILME / O OLHAR MISTERIODO DO FLAMINGO: O deslumbre contra a intolerância

O Chile de Lidia e de Flamingo é um espaço de acolhimento | Foto: Divulgação

Interseção rara de ternura e ressaca, "O Olhar Misterioso do Flamingo" rendeu ao Chile uma das vitórias mais expressivas de seu cinema, em terras estrangeiras: a conquista do Prix Un Certain Regard, dado pela mostra homônima do Festival de Cannes, paralela à corrida pela Palma de Ouro. O Brasil tem um prêmio desses também, conquistado por Karim Aïnouz, em 2019, com "A Vida Invisível". Evoca-se o longa-metragem do artesão cearense aqui por ele comungar da mesma hóstia consagrada que o tocante "La Misteriosa Mirada Del Flamenco": o melodrama.

Diego Céspedes, seu realizador, nada de braçada nas águas que os folhetins estetizaram para recriar um mundo em que o lirismo do palco, associado de longe ao perfume do sexo, acendia uma vela à esperança num tempo de mortes em série, ao redor de um cabaré. A causa dos perecimentos: a Aids.

Céspedes é um estreante em longas, conhecido pelos curtas-metragens "Las Criaturas Que Se Derriten Bajo El Sol" (2022) E "El Verano Del Léon Eléctrico" (2018), instalado num registro queer. Opera em "O Olhar Misterioso do Flamingo" na margem do realismo seco, de paisagens arenosas esturricadas, com gente suarenta, enquadradas na direção de fotografia de Angello Faccini numa luz cálida. A direção de arte esplendorosa (com adereços de Nicolás Roses) serve de contraponto, como se fosse uma instância táctil de delicadeza pura, quase como um oásis (literalmente) no deserto. Sua trama volta no tempo a 1982, numa isolada cidade mineradora dos cafundós do Chile, onde a pequena Lidia, uma menina de 11 anos (interpretada por Tamara Cortes) vive sob a proteção das artistas e gerentes de um clube de performers trans e travestis.

Uma doença desconhecida - e mortal - começa a se espalhar pelos arredores. A moléstia passa a infectar mineiros machistas que se deliciam em transas com as "celebridades" daquela casa de espetáculos, mas, por homofobia e transfobia, negam o prazer publicamente. Em meio à infecção, a hipocrisia pede passagem e esses profissionais das minas passam a atacar o clube, alimentados pelo rumor de que o contágio aconteceria por meio de um simples olhar. Com o medo se instaurando, a "mãe" de Lidia, a estonteante Flamingo (Matias Catalán, em doída atuação), tenta proteger a menina de todas as formas, ao passo que a veterana Mama Boa (Paula Dinamarca) luta para sobreviver.

Numa condução meticulosa das cartilhas melodramáticas do afeto, Céspedes não demarca traços oitentistas. O filme parece se passar hoje, pois a intolerância do passado ficou, germinou e deu sementes amargas... que matam.