Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Um brinde à saudade

João Rebello e Jorge Fernando em cena do documentário | Foto: Divulgação

Bar do Davi, CEP de iguarias, acolhe no domingo a projeção de 'Fôlego - Até Depois Do Fim', registro tocante da família Rebello, clã de Jorge Fernando; sua mãe, Hilda; e o sobrinho, João

Oásis gastronômico do Rio, com as caipirinhas mais inovadoras da cidade, o Bar do David vai virar cinema neste domingo, servindo de ponto de encontro para as saudades que pavimentam o documentário "Fôlego - Até Depois do Fim". A produção terá uma exibição especial, gratuita, neste 29/3, às 18h, na comunidade do Chapéu Mangueira, no Leme. Com direção de Candé Salles, sua narrativa celebra as ausências da - sempre presente - família Rebello na arte carioca. A sessão acontece no dia em que um dos integrantes mais ilustres desse clã, o diretor e ator Jorge Fernando (1955-2019), completaria 71 anos.

Sua sobrinha, a atriz Maria Carol Rebello, idealizadora do longa-metragem, é quem narra essa história. Fala do tio; fala da avó, a atriz Hilda Rebello (1924-2019); e fala do irmão, o multiartista João Rebello Fernandes (1979-2024), também conhecido como John Woo e DJ Vunje, assassinado por engano, na Bahia.

Protagonista do magistral "Miramar" (1997), de Júlio Bressane, João foi executado por criminosos na noite de 24 de outubro de 2024, em Trancoso, distrito turístico baiano. As investigações apontaram que ele foi assassinado por engano. Ator-mirim de sucesso na TV Globo, o DJ vivia naquele local e não tinha envolvimento com a criminalidade. O alvo da ação criminosa era um outro homem, que tinha um carro parecido com o dele e estacionava frequentemente no local onde o artista foi acossado.

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Roteirista do longa de Candé, Maria Carol Rebello revisita suas recordações familiares | Foto: Divulgação

"A arte me educou e segue me salvando. Dentro de nossa casa, tudo era permeado por arte, o tempo todo", lembra Maria Carol, em depoimento ao Correio da Manhã. "Via meu tio criar; minha mãe produzir os trabalhos dele; minha avó e meu irmão fazendo novelas. Tinha sempre música brasileira tocando. Os artistas eram os amigos que frequentavam nossa casa. A criatividade sempre foi naturalmente estimulada. Com o luto, eu me afoguei na saudade e nas minhas memórias. Na busca por... fôlego... nasceu a vontade de contar a história da minha família".

O afeto de Candé por João perpassou toda a vida do diretor e produtor. "John Woo era meu melhor amigo. Nós nos conhecemos quando eu tinha 19 anos e seremos melhores amigos até depois do fim. Eu que lhe dei o apelido de John Woo. Ele foi o primeiro garoto que me interessou de verdade, com seus assuntos e suas ideias. Por eu ser gêmeo de uma garota, sempre tive preguiça dos garotos da minha idade. Woo me fez mudar isso. Seus pensamentos e suas atitudes fizeram dele imediatamente meu melhor amigo, meu confidente. Quando teve o boom da música eletrônica íamos aos clubes atrás de nossos DJs favoritos. Quantas e quantas vezes fomos a SP atrás de um Dj gringo. Woo virou DJ e dos bons. Incontáveis as festas que fizemos juntos", explica o realizador de "Fôlego - Até Depois do Fim", que passou pelo Festival do Rio, em outubro.

"Os Rebello sempre foram pra mim também minha família. Eu já possuía uma vontade de fazer um documentário sobre o Jorge Fernando e, eu e Woo, conversávamos sobre isso. Sempre tive a ideia de a Carol narrar. Quando aconteceu a tragedia com o Woo, eu percebi que deveríamos contar a história da família toda". acrescenta o diretor.

Para ajudar a contar a história de sua família, Carol e Candé selecionaram e convidaram alguns nomes para depoimentos marcantes no documentário. Xuxa, Claudia Raia, Ney Matogrosso, Marcelo D2, Tony Ramos, Guel Arraes, Silvio de Abreu, Patrícia Travassos e Mariana Ximenes são parte desse coletivo, que relembra saudosamente passagens com Jorginho (como Jorge Fernando era carinhosamente chamado por seus amigos), D. Hilda e João. Responsável pela direção de arte de "Fôlego", Candé chamou André Hawk para a fotografia e contou com a mesmerizante montagem de Guilherme Schumann para costurar recordações.

"Fizemos um .doc confessional", explica o diretor.

Ao revisar o legado que herdou de seus parentes, Maria Carol ressalta o amor e o respeito pelo ofício de ser artista, lembrando que, em seu lar, "nunca teve deslumbre ou glamour".

"Ser artista e fazer arte sempre foi um trabalho, algo a ser feito com estudo, seriedade, muito amor e desejo por essa profissão. Minha avó, principalmente. Ela era uma operária da arte mesmo. Levava a sério o sonho que ela sempre sonhou, de ser atriz", diz a atriz. "Acho que herdei do meu tio a inquietude. Não fico parada! Estou sempre inventando algo pra produzir, aprender e agora escrever. Voltei a fazer novelas, estou captando patrocínio pra produzir dois espetáculos, um deles um infantil em homenagem ao Jorge e quero retomar minhas aulas de sapateado".