Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Se é para ser grande... que seja Open Air

Imagem da última edição do Open Air realizado no Jockey Club, em 2023 | Foto: Aldo Barranco/Divulgação

Curta sobre ancestralidades afrobrasileiras e longa vencedor do Festival do Rio abrem, em duo, a programação 2026 da maior tela ao ar livre do mundo

Para acolher a estreia de um filme que trata das ancestralidades africanas com o tamanho, metafísico, político e poético que elas têm, só mesmo uma tela com os 325 m² (o tamanho de uma quadra de tênis) com que conta o Open Air Brasil, vitaminado por uma projeção em 4K e um sistema de som com 28 caixas Dolby Digital Surround. É lá... na maior telona ao ar livre de que a América Latina já teve notícia... que o Rio de Janeiro vai bater cabeça para "O Pai Da Rainha De Angola", do dramaturgo, escritor, diretor teatral e cineasta Rodrigo França. O curta pilotado por esse multiartista (consagrado por suas pelejas antirracistas) passa nesta quarta, às 20h, e vai estar muito bem acompanhado no evento, apresentado pelo Nubank.

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Dirigido por Rodrigo França, o curta 'O Pai da Rainha da Angola', com Lucas Oranmian e Dandara Arcebispo, abre o Open Air | Foto: Ádima Macena/Divulgação

O programa de estreia do ecrã tamanho família do Jockey Clube inclui o filme de França e o vencedor do troféu Redentor de Melhor Longa-metragem do Festival do Rio 2025: "Pequenas Criaturas", de Anne Pinheiro Guimarães. Os dois abrem um cardápio com 18 sessões espalhadas ao longo das próximas três semanas.

Inédito em nosso país, mas projetado outrora no 14ª AFRIFF (Africa International Film Festival) na Nigéria, "O Pai Da Rainha De Angola" é defendido pelo talento de Lucas Oranmian, numa atuação em estado de graça sobre construção de identidades. Na trama, ele vive Ravi, que decide adotar Thelminha (Dandara Arcebispo), uma menina de sete anos de idade. No processo de adaptação entre pai e filha, Ravi passa a compartilhar fragmentos de sua trajetória, revelando afetos, memórias e aprendizados ligados às batalhas decoloniais. Em resposta, a menina também se revela, apresentando ao pai sua verdadeira identidade: Zuri, a rainha de Angola.

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'Pequenas Criaturas', vencedor do último Festival do Rio, será exibido na sessão de abertura | Foto: Divulgação

"Pequenas Criaturas", que vem a seguir, impressionou olhares na Suécia, na grade do Göteborg Film Festival, sob a graça de sua estrela, Carolina Dieckmann. Cheia de compromissos com a Globo, de novela em novela, ela raramente faz cinema, mas quando se arvora a levar seu talento à telona (vide "Onde Andará Dulce Veiga?" e "O Silêncio do Céu"), encara o vale tudo (sem trocadilhos) com fome de investigação. Ela é um dos vetores de alumbramento desta delicada cartografia de desamparos na Brasília dos tempos da redemocratização. Em janeiro, a Mostra de Tiradentes renovou suas baterias, numa exibição popular de braços abertos para o choro. Com destreza na construção de uma atmosfera intimista, Anne criou um painel de afetos no DF de 1986, a partir da luta de Helena (Dieckmann) para manter seus filhos unidos num contexto de solidão atroz. Fernando Eiras toma o filme de assalto ao viver um vizinho... digamos... raro.

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'O Agente Secreto' pinta na telona do Open Air nesta quinta (26) | Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Apresentado pelo Ministério da Cultura e pelo Nubank, o Open Air Brasil empresta toda a sua extensão a "O Agente Secreto", nesta quinta. Na sexta, rola "Pecadores". No sábado, "Hamnet". Domingo é dia de comédia, e das mais politicamente incorretas: "Superbad: É Hoje!" (2007).

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'Pecadores', de Ryan Cogler, é a atração de sexta-feira | Foto: Warner Bros

De 25 de março a 11 de abril, no Jockey, a plateia do Open Air poderá desfrutar ainda de uma área gastronômica com opções para todos os gostos. Nos 14 dias de evento, o público vai poder aproveitar os sanduíches e as batatas fritas do T.T. Burger; as delícias do mar do La Carioca; a culinária argentina do Las Empanadas; a comida urbana do Quartinho; os clássicos italianos do Sisi; e as sobremesas da confeitaria Absurda. Na seleta musical do evento, rola Pedro Baby convidando Mart'nália, Catto, 2ZDinizz, Academia da Berlinda, Jéssica Gaspar e Ney Conceição Quinteto (o mesmo grupo que se apressenta regularmente no Cardosão). Essa turma toda sobe ao palco ao longo da programação.

A dieta principal desse empório sinestésico de quitutes artísticos é cinema, com direito a Quentin Tarantino. No dia 1°, vai ter sangue rolando lá com "Kill Bill: The Whole Bloody Affair", a versão compacta que Quentin Tarantino fez de seu cultuado díptico de ação de 2003 e 2004, com Uma Thurman no papel de A Noiva. No dia 8, tem Ridley Scott e seu épico feminista "Thelma & Louise" (1992), com Susan Sarandon e Geena Davis.

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'Uma Batalha Após A Outra', ganhador de seis Oscars, será exibido no dia 10 de abril | Foto: Divulgação

No dia 10, o ganhador do Oscar de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Montagem, Escalação de Elenco e Ator Coadjuvante (Sean Penn) pede passagem: "Uma Batalha Após A Outra", de Paul Thomas Anderson. O thriller cheio de ironia do diretor de "Sangue Negro" (2007) foi "O" vencedor da Academia de Hollywood deste ano por ser um tratado antitrumpista, numa reação do cinema dos EUA a um líder que opera na chave do ódio e fomenta conflitos bélicos a fim de alimentar a necessidade de "pão e de circo" de um povo (mal) educado por Bushes e Reagan.

Agora, no Open Air Brasil, toda a grandiosidade de Anderson será posta à prova. Sua dramaturgia se move a partir da rebeldia de uma mulher preta, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), que trata homens com a mesma voracidade e o mesmo desdém com que as forças femininas costumam ser tratadas ao longo da História. Há, ali, uma reflexão sobre racismo, encarnado no núcleo em volta do Coronel Steven J. Lockjaw (o ferrabrás encarnado por Sean Penn).

No encerramento, do dia 11, haverá sessão dupla. Primeiro, passa "Bob Esponja - Em Busca da Calça Quadrada" e, depois, "Maya and the Wave".

Os ingressos já estão disponíveis ao público na plataforma Sympla.