Tolhido por patrulhas da correção política, Hollywood abandona o romantismo em filmes como 'Devoradores de Estrelas' e 'Zootopia 2', gerando grita e descolando plateias do lirismo
Motel platônico da Humanidade a partir dos anos 1910, quando romances se espalharam por suas ainda recém-nascidas telas, o cinema não apenas fez do amor um gênero - e ambivalente, ora drama romântico, como "Desencanto", de 1945, ora comédia romântica, tipo "Aconteceu Naquela Noite", de 1934 -, como disseminou o benquerer por seus mais variados filões. "Ben-Hur" (1959), um épico bíblico amalgamado à crucificação de Jesus que volta às telas em abril, na Páscoa, restaurado, tem lugar para uma paixão abençoada por Cristo. Narrativas que deram nó na contação de histórias convencional, apostando na semiologia, como "Acossado" (1960) e "Pierrot Le Fou - O Demônio das Onze Horas" (1965), de Jean-Luc Godard - hoje discutidas na peça "Coração na Boca", no CCBB - investiam em rizomas filosóficos, mas não abriam mão do lirismo. Anna Karina a cantarolar Ma Ligne De Chance" para Jean-Paul Belmondo é prova disso. Até o "Homem-Aranha" de Sam Raimi, lá em 2002, fez fama com o beijão de Mary Jane em um mascarado Peter Parker (de cabeça para baixo). Só que com a fervura - à temperatura máxima - de pautas revisionistas da contemporaneidade de cunho inclusivo, o Cinemão parece ter confundido certos pleitos - em especial, aqueles avessos à objetificação de corpos - e vem eliminando o ideal do "par romântico", e, com ele, o tão esperado beijo na boca, de suas produções mais comerciais. "Devoradores de Estrelas", sci-fi caríssima (leia-se US$ 200 milhões), com Ryan Gosling, atesta essa tendência nada humanista e bastante neurótica.
Dirigido pela dupla de realizadores Phil Lord e Christopher Miller (responsáveis pela franquia de animação "Aranha-Verso", com Miles Morales), o longa-metragem arrecadou cerca de US$ 141 milhões de quinta-feira para cá, o que é uma cifra alta para os lançamentos de março, nos EUA, mas fica aquém do esperado para uma superprodução desse porte. A adaptação do livro homônimo de Andy Weir trai a expectativa do público por um chamego entre o protagonista e a personagem vivida pela gênia germânica Sandra Hüller. As patrulhas que cancelam tudo cassaram o prazo de validade do "par romântico", tão famoso na Hollywood de outrora. Têm lá seus argumentos para isso, sobretudo o sexismo, mas não se preocuparam em deixar nada no lugar. O resultado dessa operação: neurose. Aquele benefício básico inerente aos filmes-pipoca - a educação sentimental - foi abortado, e... pior... os roteiros não sabem lidar com o interdito dos aparelhos ideológicos. Basta ver "Thunderbolts*" (2025), uma das grandes decepções financeiras da Marvel da atualidade. O jeito como a nova Viúva Negra, Yelena (Florence Pugh), olha para o Sentinela (Lewis Pullman) é de desejo. Mas quem disse que os vetos do Presente deixam eles trocarem uma bitoca que seja... embora os dois queiram e consintam.
Quem viu o fenômeno de bilheteira animado "Zootopia 2", lançado perto do Natal passado, acompanhou a grita de parte do público pela insistência da Disney em negar a paixão (irrefutável) em seus dois protagonistas, a coelha Hopps e a raposa Wilde, e determinar: são amigos... ponto. A forma como os dois se olham diz o contrário, o que gera na claque espectadora a expectativa por um beijo que nunca chega, pois, as correntes vigentes de censura (disfarçadas sob pautas de peso urgente) não permitem.
Em "Devoradores de Estrelas", a Hopps em questão é a agente Eva (nome mais bíblico do que esse, impossível), operativa do governo (vivida por Sandra) que incumbe o professor de ciências Ryland Grace (Gosling) a retardar uma hecatombe. Apesar de os diretores vulnerabilizarem o personagem ao extremo, o educador se encanta por Eva e não esconde, a cada contato, sua vontade de que aquela relação avance. Contudo, o cinemão ali em jogo parece não se importar com isso e apaga, de maneira coxa (mas conservadora), esse enamoramento. Resta a Grace ser a Graça do planeta.
Essa dinâmica chamuscou o belíssimo "Dumbo" (2019), de Tim Burton, uma vez que o caubói vivido por Colin Farrell ansiava ter com a acrobata vivida por Eva Mendes um namoro... e do tipo que dura. Mas...
Quando se observa um longa notável como "A Noiva!", recém-lançado por Maggie Gyllenhaal, que combate toda a praga machista de frente, sem meios-tons, encontramos, no eixo central da trama, uma love story que se conjuga (à perfeição) com as lutas políticas ali travadas e ainda embevece corações. O monstro de Frankenstein (Christian Bale) encontra na jovem Ida (Jessie Buckley) alguém a quem respeitar. Nesse respeito, e numa troca que se dá pela paixão dele por musicais, rola um romance que afirma a relevâncias de todas as causas da atualidade, mas não abre mão de tratar um abraço como abrigo.
O cinema brasileiro, que nunca foi prolífico em RomComs (comédias românticas) deitou e rolou nessa linhagem com os longas de Domingos de Oliveira (1936-2019), vide "Separações" (2002), que a TV Brasil projeta nesta quarta-feira, às 21h. Uma boa investida nossa nesse terreno que, hoje, os Big Brothers da moral tentam cercear, é "Velhos Bandidos", de Cláudio Torres, thriller de assalto de tintas cômicas que põe o casal de larápios Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura) a se amar ao extremo... sem medo de serem patrulhados.