Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / CINEMA / VELHOS BANDIDOS: 'Prenda-me Se For Capaz' à moda HQ

Marta (Fernanda Montenegro) é a a cabeça pensante de um plano mirabolante para roubar um banco | Foto: Divulgação

A partir da premissa do diretor Cláudio Torres, "Eu fiz um filme para dar um tempo dos tempos difíceis", pode-se esperar que "Velhos Bandidos" relembre a vocação pop do cinema: ser "a maior diversão", qual dizia o reclame publicitário do tempo onde as salas de exibição eram todas de rua. Cláudio já fez 63 anos, logo fez parte desse tempo, o dos templos.

Templos de projeção que clamavam por espetáculos... por "Caçadores da Arca Perdida". Talvez por isso, sua filmografia... muito bissexta, mas sempre provocativa... trata a dramaturgia de plano com um esmero plástico que ultrapassa a entrega padrão das estruturas de gênero pelas quais trafega.

"Redentor", um sublime estudo sobre frustração (com o estado, com as empresas, com amigos de outrora), era de uma beleza visual sem par no período da Retomada em que foi lançado, em 2004, apoiando-se no olhar trágico de Lúcio Mauro em sequências inesquecíveis.

A mesma dinâmica se pode aplicar ao esforço desse realizador em fazer seu próprio "De Volta Para O Futuro" nacional, com Wagner Moura com roupa de astronauta a avançar e a retroceder no Tempo. A série "Reality Z", na qual o Cabo Robson da PM carioca (Pierre Baitelli) grita "Vamo hidratar!", diante de uma montanha de cocaína, mostrou o quanto Cláudio estava afinado com as receitas do filão zumbi - ao mesmo tempo em que buscava fazer uma Comédia Humana no desamparo nosso de cada dia.

É esse o artista que, agora, em março de 2026, vem trazer um thriller divertidíssimo para nossas plateias. E transforma Bruna Marquezine numa Mulher-Gato que DC Comics descobriu, numa atuação marota, cheia de bifurcações éticas.

Todos os componentes que o nicho narrativo chamado heist movie, ou filme de assalto, que vai de "Quinteto de Morte" (1955), de Alexander Mackendrick, à franquia "Onze Homens e Um Segredo" (2001-2007), de Steven Sodebergh, estão em cena, em "Velhos Bandidos".

Há um filé desse recorte dramatúrgico, o "Prenda-me Se For Capaz" (2002), de Steven Spielberg, que salta aos olhos, numa relação de parentela indesviável. Na concepção estética, contudo, há mais uma genealogia em jogo no longo com Fernandona e Ary Fontoura: a dos quadrinhos.

Tocado pelo adultério telepático do Ciclope com a Rainha Branca e outras tramas da Marvel desse tipo, Cláudio (nerdola quando se trata de quadrinhos) trouxe para a direção de arte (de Yurika Yamasaki) e para a fotografia (boa paca de André Horta) um clima balãozinho à la Carl Barks no colorido e no arejamento dos ambientes.

A movimentação da montagem de Isadora Boschiroli é ágil como a da revisitinha mensal do Wolverine.

Ao mesmo tempo em que trata seu quarteto central nas raias da ambiguidade, o roteiro de Cláudio, Fábio Mendes e Renan Flumian extrai do investigador encarnado por Lázaro Ramos uma mistura de Inspetor Javert com Clouseau, sempre obstinado, mas excêntrico, o que tira novos alumbramentos de um ator que uma jazida de transbordamento.

E como é bom ver Vladimir Brichta e Marquezine testar as dimensões da representação do querer num âmbito da ilegalidade, à la "Assassinos Por Natureza" (1994).